​Lance Armstrong lança podcast bombástico sobre o Tour de France

Em uma entrevista exclusiva à Bicycling, Armstrong fala sobre se apaixonar de novo pela bicicleta e o que esperar do podcast que ele está lançando: comentários cheios de insights, e às vezes, brutalmente francos

Cortesia de ASTRID STAWIARZ/GETTY IMAGES

Por JOE LINDSEY

Lance Armstrong não tem feito muita coisa no mundo do ciclismo nos últimos anos. Até porque ele está banido pelo resto da vida da maior parte das corridas profissionais. Ele admite que sua relação com o ciclismo tem sido difícil desde sua queda. Seu podcast, The Forward (em tradução livre, Adiante), tinha pouco ou nada a ver com esportes, e menos ainda com ciclismo.

Então é surpreendente que Armstrong esteja lançando um segundo podcast específico sobre o Tour de France, que acontece agora em julho. E que ele queira postar episódios diários comentando a corrida. Conversamos com ele sobre o podcast, batizado de Stages (Etapas), e que reaproximou ele do esporte.

>> Bicycling: Faz cerca de um ano que você tem gravado o The Forward. Como tem sido a experiência?
Lance Armstrong: Sim, eu comecei faz mais ou menos um ano, fazendo um por semana. Eu gosto das conversas, mas mais do que isso, eu gosto da pesquisa. Eu tento fazer a lição de casa porque eu não quero parecer um idiota que não entende nada sobre a vida da pessoa com quem está conversando. Eu me preparo bastante.

>> Interessante. Você foi o entrevistado durante décadas. E você era famoso por ser duro com pessoas que você sentia que estavam fazendo perguntas estúpidas. Como é estar do outro lado?
O jogo virou. A principal diferença é que, pelo meu estilo, eu não estou tentando atingir ninguém. Eu faço com que os convidados do The Forward saibam que ali é um lugar seguro e que se tiver assuntos sobre os quais eles não querem falar, não vamos tocar neles. Eu não faço perguntas tipo pegadinha, não é o foco do podcast. Então isso dá muita liberdade para as pessoas e uma sensação de conforto. Dito isso, em cerca de 50 episódios, ninguém nunca se recusou a falar de nenhum assunto.

Mas, sim, é diferente ser o entrevistador. Eu não me considero um jornalista. Nós só conversamos no podcast. Mas eu tenho um respeito maior hoje por jornalistas porque fico muito nervoso antes dessas conversas. Algumas dessas pessoas têm histórias complicadas, e eu não quero estragar tudo ou pensar “Não sei se estive a altura do que a questão exigia”.

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>> The Forward não aborda muito ciclismo. Qual o interesse em fazer um podcast diferente, focado no Tour?
Claro, é uma pergunta óbvia; de fato é como se eu tivesse feito de tudo para evitar o ciclismo em The Forward. Por isso se chama Adiante e não O Passado. Tendo dito isso, minha relação com o esporte, com a indústria e com a bicicleta – a bike em si, o objeto – mudou no último ano. Sabemos como essa relação era e como ela foi nos últimos 3 ou 4 anos. Hoje ela não está nem lá nem cá. Eu entendo como tudo aconteceu, e o processo leva a sentimentos difíceis. Da minha parte, eu escolhi deixar isso de lado e me apaixonar de novo pelo esporte. Poderia ser saindo para pedalar todos os dias; podia ser sentando e assistindo o Tour. E eu senti que podia fazer isso com um podcast diário.

Não há motivos para fazer isso, além do motivo natural de que eu me apaixonei de novo, não tanto pelo esporte profissional, mas principalmente pela bicicleta. E isso aconteceu por acaso. Eu me machuquei correndo e tive que dar um tempo. Então pensei “vou começar a pedalar de novo porque não quero pesar 130 kg”, e comecei a curtir. Só saindo e pedalando, às vezes com amigos, às vezes sozinho, duas a seis horas de sofrimento, e pensando na vida.

>> É, você comentou que nos últimos anos não tinha pedalando muito.
Eu parti direto para a corrida. Eu pedalaria se eu tivesse que fazer isso. Se eu tivesse algum evento ciclístico por uma causa, ou companhia para treinar. Mas eu estava subindo na bike tão raramente que era sempre um pouco estranho. Quando você está na pegada, sabe exatamente como deve se sentir; subir na bike é harmonioso. E naquele momento ela era um objeto estranho para mim.

>> Você acha que vai voltar a praticar corrida quando se recuperar da lesão?
Eu acho que meu corpo não vai dar conta de correr no longo prazo, ao longo dos meus 50 e 60 anos. E o período de retorno, as primeiras semanas quando você volta a correr, são as piores. Seu corpo inteiro dói. Eu não me vejo voltando.

>> Então você vai gravar um podcast diário sobre o Tour. Como ele vai ser? Sobre o que você vai falar?
Bom, eu acho que será diário. Alguns dias do Tour são inacreditavelmente chatos, e eu não vou hesitar um segundo para dizer “isso foi incrivelmente chato”. A questão sobre minha situação é que eu posso dizer o que quiser agora. Eu quero ser brutalmente honesto sobre certas coisas que a NBC ou vocês mesmos da Bicycling não diriam. Não vai ser longo; algo como 20 a 30 minutos. Provavelmente 75% a 80% do tempo eu vou comentar o que assisti, os resultados e a estratégia, e os 20% finais eu vou falar sobre o que espero para o próximo dia. Vou falar da etapa, do perfil, das curvas, do clima, as táticas, as pessoas. Eu tenho a bíblia do ciclismo de estrada, então poder olhar para os últimos 3 Ks, em um dia de chuva e você tem o brilhantismo da ASO (organizador do Tour e de várias outras provas relevante do calendário mundial) de colocar a curva mais estúpida no lugar mais estúpido. Dias em que tudo pode mudar se estiver chovendo. Fera, segura aí o troféu de campeão, qualquer coisa pode acontecer.

>> Isso é bom; temos uma previsão sobre o Tour desse ano aqui. Quem você acha que irá vencer?
Esse Tour está com um trajeto estranho. Quer dizer, o Alejandro Valverde nunca venceu um Tour, mas se tem um Tour que ele pode vencer é esse. Meu favorito é Richie Porte, essa seria minha aposta. Mas meu cavalo azarão é o Valverde. Esse Tour não está duro; os contrarrelógios estão curtos, e tem bônus de 10 segundos em cada linha de chegada. Você sabe que ele vai olhar e pensar “Tem 30 ou 40 segundos bem aqui” [Nota dos editores: Valverde se machucou na primeira etapa e está fora do Tour].

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>> Então você vai fazer várias análises rigorosas, mas também parece que você não vai ter vergonha de dar sua opinião.
Um exemplo: o último dia do Critérium du Dauphiné. Richie é mais forte do que todos os outros. Ele perder essa corrida? Não dá. Você não simplesmente perde. Você está isolado, seu time se foi, a corrida está escapando. Mas você encontra amigos, você entende o que fazer, e você simplesmente vai lá e não perde a corrida. Se eu estivesse comentando essa corrida na tevê, eu estaria questionando o diretor da BMC. Por que eles não estão encontrando alianças naturais? Não finjam que não existem maneiras de fazer isso acontecer. Você precisa pedir e conceder favores. Eu não sei o que se passa no pelotão agora, em comparação a como era quando eu corria, mas você precisa negociar com outros times e deixar claro: “Vou te dar um retorno disso”. É tão político: todo mundo em algum momento precisa de alguma coisa. As pessoas podem não adorar isso, mas é a realidade. Eu fiquei chocado que ele deixou escapar. Se isso acontecer no Tour, eu comentaria “não entendo uma coisa dessas”.

>> Você mencionou suas críticas às transmissões de TV. O podcst é um pouco uma maneira de dar uma resposta a essa questão?
Vou confessar: nos últimos, assisti com o volume mudo a maior parte do tempo. Preciso ser um pouquinho cuidadoso porque tenho amigos nesse meio, e sou próximo do Christian (Vande Velde, comentarista). Ele é um cara legal. E o Phil Ligget e o Paul Sherwen, eles fazem isso há tanto tempo. Mas não acho que estou me arriscando ao dizer que devemos ver uma mudança na linha de comentários nos próximos anos. E não é segredo que, para essas pessoas que eu mencionei, a política oficial é que elas não estão autorizadas a me mencionar [a NBC afirma que não existe política, formal nem informal, no sentido de não mencionar o nome de Armstrong]. Os espectadores e fãs, se eles aceitaram ou não o que se passou, o fato é que aconteceu. É desrespeitoso com os fãs não poder mencionar aquela era do esporte.  

>> Falando nisso, você era um crítico da ASO no Twitter também, apontando que eles receberam bem ciclistas franceses como Richard Virenque e Laurent Jalabert, que tomavam doping também, mas que não convidaram Jan Ullrich a comemorar o 20° aniversário de sua vitória em sua própria terra natal.
“Foda-se a ASO” não poderia resumir melhor. É sério. E estou surpreso com a repercussão que esse tweet teve. As respostas aos meus tweets… elas podem variar muito, muito mesmo, mas eu me surpreendi com muita gente que disse, “é, isso é estúpido”. Eu tuitei sobre isso. E se não tivesse tuitado, eu teria colidido com essas duas posições (no podcast).

>> Você não pretende pegar leve, né?
Não vou ter filtro. Mas isso não quer dizer que eu vou ficar falando coisas estúpidas. É preciso ter alguma reflexão para se tomar decisões. Mas tem tanta besteira. Olha o último Tour, com o  Chris Froome escalando o Mont Ventoux. Daria para escrever sobre isso por um ano. Coisas assim, para vocês da imprensa e para mim, valem ouro.

>> Vai ser só você ou você pretende ter convidados?
Originalmente, era para ser eu e o George Hincapie fazendo isso juntos. Mas ele teve uma mudança de agenda e não tinha mais disponibilidade diária. E seria pesado eu tocar sozinho todos os dias. Então eu recrutei um time de amigos: um DJ de Austin, JB Hager. Ele tem muita experiência com rádio e pedala um bocado. Eu precisava de alguém para me ajudar a puxar o programa e fazer as perguntas que um espectador comum do Tour faria. Ele leva a perspectiva do fã de ciclismo, perguntando “O que aconteceu aqui?”, e isso ajuda o programa a se desenrolar. Mas vamos ter convidados, incluindo o George durante a maior parte da última semana. E podemos fazer chamadas de voz durante o programa. Então eu não sei o quanto vamos usar esse recurso, mas seria legal se a gente fizesse isso. Poder ligar para o vencedor da etapa no hotel ou no ônibus da equipe.

Uma coisa a se admitir: o esporte já mudou de quando eu competia. Eu acho que todos nós sabemos que os segredos são diferentes. Mas também é diferente no sentido de que eu não sabia, até um mês atrás, que o time Brioches la Boulangere agora se chama Direct Energie. Eu me dei conta de que é o time do Jean-René Bernaudeau, e do Thomas Voeckler e do Sylvain Chavanel. Preciso me situar onde as pessoas estão agora: os ciclistas, os patrocinadores e os diretores. É interessante fuçar e sacar. “Ah, esse Fabio Aru, quem é esse cara? Qual é o estilo dele, ele é bom?” Tem todos esses caras novos que eu estou acompanhando, então tem sido interessante.

>> Já que você não pensa em pegar leve, você está preocupado com polêmicas?
Tudo que eu faço é polêmico, mas OK. Eu já me acostumei com isso. Mas pera, o que você quer dizer com polêmica?

>> Que as pessoas fiquem irritadas por você estar de volta ao universo do ciclismo e que elas sintam que você não tem direito de avaliar e criticar a corrida e os ciclistas.
Ah, sim, vai ter muito disso. Eu estou ciente de que isso vai acontecer, e acostumado com a ideia de conviver com isso. Minha maneira de ver isso é diferente de como era há três anos. Eu entendo que pessoas tem uma opinião e terão para sempre. Eu não luto mais contra isso. Para eu seguir adiante, eu tenho que dizer “desculpe, entendo, mas eu estou seguindo minha vida”. É meio neutro, mas eu nunca entraria numa discussão com alguém que se sente assim sobre mim. E as pessoas têm total direito de não escutar o podcast.

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