3, 2, 1, polo!

Inspirado pela cena das bikes fixas, o bike polo cresce no Brasil, atraindo praticantes que esbanjam estilo e atitude

Galera do polo durante jogo em quadra de São Paulo

Por Verônica Mambrini
Fotos por Gabriel Rodrigues

De longe, até parece um pouco com jogo de polo tradicional. Mas, no lugar de cavalos, estão bikes de uma marcha só, de roda livre ou fixa. As regras básicas são simples: três jogadores de cada lado da quadra; quem colocar os pés no chão precisa bater com o taco no limite da quadra antes de voltar para o jogo; as partidas duram dez minutos, e o objetivo é marcar o maior número de gols contra o oponente. As leis de contato físico são bem definidas, para evitar acidentes. E as equipes podem ser mistas, com homens e mulheres no mesmo time, sem categorias femininas ou masculinas exclusivas.

Nos últimos anos, a cena do bike polo tem crescido de forma surpreendente no Brasil. Há torneios locais despontando em várias cidades. Só em São Paulo, existem times na capital, em São José dos Campos, em Santos, em Ilhabela, entre outros lugares. “O polo cria uma comunidade. As pessoas acabam se conhecendo, fazendo amizade”, diz o fotógrafo Julio Domingues, 31 anos, que está à frente do esporte em Santos, onde existe uma cena forte de bikes fixas (aquelas em que, se a pessoa pedalar para trás, a bicicleta para). Muita gente ligada ao polo vem de profissões como design, arquitetura e fotografia ou tem pequenos negócios, como cafés e produtoras. Em São José dos Campos, por exemplo, Alberto Rabelot, 29 anos, designer gráfico e sociólogo, ficou sabendo do esporte na internet, criou uma página para atrair interessados e os treinos começaram. “Aqui aparece gente que começou no mountain bike, no triathlon, no downhill. É um pessoal novo que está jogando bem e se mostra super a fim de seguir adiante”, conta Alberto.

A história desse esporte remete à Irlanda do início dos anos de 1890. Chegou até a acontecer um jogo-demonstração em 1908, nas Olimpíadas da Inglaterra, em uma área gramada. A versão atual, em quadra, renasceu em Seattle, nos Estados Unidos, na década de 1990. Com o nome de Hardcourt Bike Polo, por conta da quadra “emprestada” do hockey, o polo foi trazido de volta à cena esportiva pelos bike messengers de lá, que começaram a jogar entre uma entrega e outra. Sabe as tatuagens, as barbas e os bigodes hipsters, as bikes fixas, os alargadores de orelha e o clima meio underground? São uma herança direta da cultura das fixas que perdurou no polo, onde os jogadores costumam ser bem estilosos, com braços cheios de desenhos, muita barba (para eles) e shorts jeans (para elas).

O bike polo já tem vários times no Brasil – alguns participando de campeonatos internacionais

Um dos responsáveis por trazer o esporte ao Brasil é Wagner Carvalho, 44 anos. Ele foi bike messenger por quatro anos na Inglaterra e carregou na bagagem de volta para São Paulo sua fixa e o polo. “Nosso primeiro jogo foi em 2009”, lembra. “O bike polo nasceu à margem. Tem quem prefira que se mantenha marginal e os que desejam que se profissionalize mais”, diz Wagner, conhecido na quadra como Wagneta. Apelidos, aliás, são bem comuns e vêm da cultura de rua: no treino de polo que acontece toda terça e quinta em uma quadra no parque Ibirapuera, em São Paulo, Pulga, Treko, Wagneta, Gargamel e Nanni são alguns dos jogadores que levam os treinos mais a sério, têm times fixos e viajam para competir. “Estamos tentando levar o Underdogs, meu time, para o oitavo mundial de polo, que será na Nova Zelândia, em janeiro de 2016”, diz Wagneta.

Para começar a treinar, o equipamento é simples: qualquer bike serve, e é possível fazer seu próprio taco, também conhecido como mallet. “Eu mesmo faço os meus, com haste de alumínio e cabeças de tubos de gás”, conta Wagneta. Com a evolução do esporte, porém, estão surgindo equipamentos mais especializados. As bolinhas, antes emprestadas do hockey de rua, hoje são desenvolvidas por marcas específicas para a modalidade. Para expandir o nível das competições, as regras têm ficado mais rígidas: a bike não pode ter dentes de coroas ou catraca expostos para evitar acidentes, por exemplo. Alguns fabricantes de quadros artesanais já vêm criando bikes com geometria pensada para o polo.

“Quem joga tem pedido uma geometria com a distância entre eixos o mais curta possível, com rodas 26, freio e ângulos mais abertos, para uma resposta mais rápida”, conta o frame builder Igor Miyamura. “A maioria prefere o quadro em aço carbono, por conta do custo e da resistência. É um material mais barato e que aguenta muita porrada. Fica só meio quilo mais pesado do que um feito em aço cromo-molibdêmio”, diz Igor, que desenvolveu o quadro em parceria com a jogadora Carina Chandan, arquiteta e dona da loja online Bike Ink, especializada em fixas e material para polo. “Desenhei um quadro de polo com base na minha experiência de jogo, e ele produziu para mim. Ficou ótimo, tanto que alguns amigos quiseram um igual”, conta Carina, que testará em breve outro modelo de bike “poleira”, com algumas mudanças na geometria e rodas 27,5.

Com o crescimento da modalidade, já existem marcas cobiçadas de equipamentos e roupas, como a alemã Fixcraft e a espanhola Hija de la Coneja, que vendem tacos, bolinhas, protetor de raios e quadros. As sapatilhas da DZR, por exemplo, permitem jogar clipado na bicicleta, mas têm cara de calçado urbano. Há, claro, velhos conhecidos do mundo das fixed gears, como as mochilas tipo messenger bags da Timbuk2, da nacional (2c)² e da Chrome. Mas, até por questões filosóficas, produzir localmente as bikes e acessórios ainda é um componente forte e subversivo da cultura poleira. “Antes de mais nada, bike polo é um estilo de vida. Segue muito a linha do minimalismo, de você poder fazer as coisas artesanalmente. E isso reflete também a filosofia e o estilo da maioria que joga”, diz Wagner.

Regras do jogo
+ Três pessoas por equipe
+ O jogo começa com a bolinha no centro da quadra e a chamada de “3, 2, 1, polo”
+ Os pés devem estar sempre no pedal. Se um jogador toca com eles o chão, precisa bater com a ponta do taco a borda da quadra, na linha de centro, antes de voltar a jogar
+ A partida dura dez minutos ou termina quando um dos times marca cinco gols. O gol só pode ser marcado com as pontas da cabeça do taco. As laterais da cabeça podem ser utilizadas somente para passar e dominar a bolinha.
+ Os únicos contatos permitidos são o de taco contra taco, bike contra bike e corpo contra corpo.

Mel e Nanni treinam em São Paulo, na quadra do parque do Ibirapuera

Quem joga
Ana “Mel” Carvalho 26 anos, designer
Mel começou a jogar polo praticamente ao mesmo tempo que começou a andar de bike pela cidade. “Faz uns cinco anos. Comprei uma fixa e fui ver amigas que já jogavam. O controle da bicicleta e do taco é fácil se você já tiver uma noção de pedal”, conta a designer. Ela acredita que o estilo de jogo de mulheres e homens é diferente. “A gente vê o jogo mais estrategicamente, é mais leve e causa menos choques. Não considero um jogo violento, porque a intenção não é derrubar. O contato de corpo existe, mas é controlado pelas regras.” A receita para atrair mais meninas para a quadra? “Um ambiente bacana, em que elas sejam tratadas de igual para igual. O que faz a diferença é esse clima bom, porque o jogo em si tem a mesma dificuldade para homens e mulheres.” Outro cuidado importante é escolher o equipamento adequado. “O taco tem que ter a proporção certa para o comprimento do braço, senão fica mais difícil completar as jogadas”, explica. Para ela, o polo e o universo da fixa são inseparáveis. “Uma coisa tem tudo a ver com a outra. Todo mundo que joga polo tem uma fixa para andar pela cidade. Ela ajuda muito a melhorar o equilíbrio, a praticar manobras como o trackstand, que se usa muito no polo, e a ter reflexo para parar e retomar rápido.”
Itens indispensáveis: Bike PBJ / Taco Perro del Mallet / Luvas Franklin (de street hockey) / Tênis Vans / Camiseta Arranha / Bermuda Zara

Giovanni “Nanni” del Nero 24 anos, publicitário
Foi em um intercâmbio, em 2012, que Nanni conheceu a bike fixa e a cultura dos bike messengers. “Fiz bicos como entregador, de bike fixa, e me apaixonei”, conta. Ao voltar para o Brasil, ele trocou o carro pela bicicleta e, quando conheceu o polo, girando com os fixeiros de São Paulo, achou seu esporte. “Foi amor à primeira vista. É a bicicleta na forma de um esporte coletivo, que eu gosto bastante”, conta. “É uma subcultura. Todo mundo dá muito de si para que aquilo funcione e cresça. A gente brinca que quem é poleiro tem casa na Holanda, em Nova York, onde tiver polo, porque todo mundo abre as portas para receber quem também joga.” Nanni é parte do time Underdogs, que participará do próximo mundial de polo, na Nova Zelândia. Ele geralmente está com alguma roupa ou equipo com o símbolo do time. “Meu mundo mudou com a bicicleta, e o polo é a cereja do bolo.”
Itens indispensáveis: Bike Hija de la Coneja / Taco Perro del Mallet / Luvas Warrior (para hockey) / Tênis DZR Marco / Capacete Bauer (também para hockey)

* Matéria publicada originalmente na Bicycling 2, de novembro 2015/janeiro de 2016.