7 coisas loucas que acontecem no seu corpo durante a RAAM – Race Across América

Não consegue manter a cabeça erguida? Junte-se ao clube. A corrida de 4.830km e 54.000 metros de altimetria acumulada em 9 a 12 dias pode realmente ser destrutiva

Por Selene Yeager

Quando Len Forkas abriu os olhos, percebeu que estava indo diretamente em direção a um guard-rail. Após quatro dias de sua primeira tentativa solo em 2012 da Race Across America (RAAM) – uma corrida de um único estágio partindo de Oceanside Pier, Califórnia, e terminando em Annapolis, Maryland – ele estava tão cansado que deu uma “pescada” enquanto descia a 40km/h numa ladeira de 457 metros, numa montanha de 2.500 metros de altitude em Durango, Colorado.

“Eu estava tão acabado que acabei adormecendo”, diz Forkas. “Eu abri meus olhos olhando para um guard-rail. Se eu tivesse dormido mais dois segundos, eu teria me catapultado numa queda de 340 metros. Não havia nada além do guard-rail, só ar, árvores e pedras”.

Forkas, 52 na época, terminou a RAAM em 11 dias e quatro horas, vencendo na sua categoria e arrecadando US$350.000 ao longo do trajeto para uma organização que cuida de crianças, Hopecam. Ele voltará este ano com o objetivo de aumentar em um milhão a arrecadação. “Pensar nessas crianças com tumores cerebrais e doenças terríveis me faz superar qualquer dor e sofrimento que enfrento”, diz ele.

A privação de sono severa (e suas conseqüências potencialmente desastrosas) é apenas um dos inúmeros obstáculos físicos que os ciclistas da RAAM, como Forkas, devem superar para ir de costa a costa.

Muitos ciclistas buscam mais segurança com uma equipe, mas mesmo assim não é fácil.

“Você vai do calor brutal do deserto diretamente para a altitude das montanhas e então encara a tortura de atravessar a parte mais longa do estado do Kansas, tão monótona que todos ficam delirantes… todos sofrem”, diz o médico Jamie Schlueter, quem fez parte de equipes do RAAM e é o médico da equipe olímpica dos EUA. “Quando você chega aos Appalachians, você está apenas usando adrenalina e força de vontade. É brutal”.

Os ciclistas individuais têm 12 dias para terminar a prova; as equipes têm nove dias. Quando você considera os desafios físicos que enfrentam, não é de admirar que apenas metade dos ciclistas chegue a Annapolis a cada ano.

Tornozelo de elefante e joelhos de laranja

Se você quiser se manter dentro dos limites tempo, precisa continuar pedalando, o que significa muito pouco tempo com os pés para cima. Ou seja, inchaço em suas extremidades inferiores, pois a gravidade cobra seu preço.

“Nós usamos roupas de compressão, mas chega uma hora em todos estão pedalando com tornozelos de elefante”, diz Schlueter.

O próprio esforço também pode levar a um enfraquecimento bastante profundo, diz Forkas.

“Depois de um enorme impulso sobre o Wolf Creek Pass no Colorado, meus joelhos pareciam laranjas”, diz ele. “Eu tive que parar e colocar sacos de gelo sobre eles enquanto minha equipe trabalhava em mim para diminuir o inchaço”.

“Pescoço de Shermer”

Se você já fez um pedal de 100km você sabe que é comum sentir uma pequena rigidez e dor no pescoço. E quando você faz trezentos ou quatrocentos quilômetros, dia após dia? Há uma chance de seus músculos do pescoço estafarem a ponto de se renderem à gravidade, deixando você incapaz de segurar sua cabeça.

Essa condição passou a ser chamada de “Pescoço de Shermer”, depois que um dos quatro ciclistas que correram a prova inaugural da RAAM teve que literalmente segurar a cabeça com uma mão para terminar a prova. Desde então, os ciclistas tornaram-se mais inventivos na formas de combater esta condição potencialmente debilitante.

“Usamos uma lata de batata Pringles presa no guidão com uma esponja de cozinha na ponta para sustentar a cabeça… chamamos de ‘a torre do poder'”, diz a veterana de RAAM Katie Lindquist.

Alucinações

Dormir acaba sendo deixado de lado quando você tem quase 5.000 quilômetros para pedalar. Os ciclistas na frente do pelotão estão descansando entre 90 minutos e 3 horas por dia apenas – e a privação do sono pode causar alucinações perversas.

“As pessoas vêem coisas malucas”, diz Forkas. Ele mesmo só não sucumbiu a alucinações porque criou uma estratégia: “eu mantive uma dieta principalmente líquida, assim eu limitava a quantidade de sangue que meu estômago precisava para a digestão, mantendo a maior quantidade de sangue possível na minha cabeça”, diz ele.

O Sol queima seus olhos

Fixar o olhar em uma área aberta por mais de uma semana é difícil aos olhos, tanto que Forkas desenvolveu fadiga ocular e fotofobia (sensibilidade à luz).

“Depois de cinco dias, meus olhos tornam-se extraordinariamente sensíveis à luz”, diz ele. “Eu estava usando meus óculos de sol mais escuros e eu mal podia dizer que estava ajudando. Demorei uma semana para reajustar minha visão à luz normal e fiquei míope por mais uma semana”.

Você está morrendo de fome – mas não está com nenhuma fome

Os ciclistas da RAAM podem perder cerca de 10 quilos na jornada. Você pode achar que ficaria faminto com todo esse exercício. Mas depois de alguns dias, mesmo aqueles Snickers congelados, que em algum momento você achou que seriam ótimos, parecem horríveis.

“Eles estão queimando 6.000 calorias por dia, mas depois de quatro dias, os ciclistas estão tão nauseados que não querem comer nada que você coloque na frente deles”, diz Schlueter. “Nós praticamente tínhamos que forçá-los a comer alimentos brancos, como purê de batatas, para mantê-los pedalando”.

Surto emocional

“Todo mundo chora em algum momento durante a RAAM. Você está se esforçando tanto com privação de sono que você vai ter um surto de uma forma ou de outra em algum momento”, diz Schlueter. “Tivemos uma ciclista que acabou por delirar completamente. Eu cogitei dela parar e desistir. Mas nós a fizemos dormir por 4 ou 5 horas. Ela se recuperou e continuou a prova”.

Todo o resto

Como se o delírio e a necessidade de uma lata de Pringles para suportar a cabeça não fossem suficientes, os ciclistas também precisam lidar com todas as dores mundanas, incômodos e obstáculos comuns aos ciclistas de longa distância, como “mãos dormentes” (câmbios eletrônicos e talas de pulso podem ajudar); desidratação (“soros são muito úteis”, diz Schlueter); superaquecimento (líquidos gelados e manguitos brancos embebidos em água com gelo mantêm o corpo resfriado no calor extremo); e, claro, feridas nas nádegas (“Nunca experimentei dor como essa na minha vida”, diz Forkas. “Troque de bretelle três vezes por dia.”)