Restaurar bicicletas o ajuda a ter “liberdade dentro da prisão”

Artis Monroe cometeu crimes. E encontrou no restauro de bikes dentro da cadeia a esperança – e a liberdade – que tanto precisava para seguir em frente

Artis Monroe, um detendo de 63 anos que se diverte dentro do sistema prisional da Califórnia (EUA). (FOTOS: Saroyan Humphrey)
Por Kim Cross
A REDENÇÃO DE ARTIS MONROE: Dentro da prisão, do lado de fora da cerca de arame, centenas de bicicletas encostadas formam um arco-íris de ruínas.

Lá está um modelo cruiser com cassete enferrujado e uma Schwinn com passador de marcha no tubo. Tem também uma antigona de dez velocidades. Uma Mongoose hardtail rabo duro com pneus tão murchos que parecem escorrer na terra do chão. A cada semana, mais bicicletas órfãs chegam, de todas as safras e denominações. Peugeot. Bianchi. Renyu. Schwinn. Centurion. Bridgestone. Raleigh. Elas não servem mais: foram substituídas, descartadas, abandonadas ou esquecidas no canto mais escuro e atulhado de centenas de garagens. Algumas se encontram em estado mais deplorável do que outras. Esta aqui precisa de uma revisão da transmissão. Aquela só precisa de uma lubrificada. As bikes, nesse caso, são sinônimo de liberdade.

Enquanto o sol se levanta e lança seus raios sobre o emaranhado de bicicletas em um dia frio de novembro, seu guardião sai de um dormitório ali perto. Em uma das pernas da calça azul, em letras amarelas, lê-se PRISIONEIRO. O cara é grandão, quase um poste – 1,95m e uns 110 kg -, porém de voz gentil. Seus olhos são castanhos e firmes e o sorriso fácil, com um espaço entre os dentes da frente.

Apesar da mecha cinza em cada têmpora, o homem aparenta ter menos de 63 anos. No sistema prisional da Califórnia, nos EUA, ele é o preso AA0462. Sua mãe o batizou de Artis. O pai o apelidou de “Renny”, diminutivo de seu nome do meio. A galera aqui só o chama de Monroe.

Artis Renard Monroe é um dos cerca de 2.500 detentos da Califórnia Medical Facility (CMF), uma prisão estadual que fica 32 km a leste de Napa Valley. Um pouco mais da metade do tamanho de sua vizinha, a Prisão Estadual da Califórnia, em Solano, a CMF abriga presos da população em geral, bem como idosos e doentes. Suas instalações variam em segurança de nível 1 a nível 4. Durante algum tempo, Charles Manson foi um dos detentos aqui. A maioria vive em blocos de celas ou dormitórios abertos do lado de dentro do arame – composto por cerca elétrica de alta voltagem -, em um mundo de concreto, metal, luzes fluorescentes e muitas vozes ecoando pelas paredes duras.

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“Aqui dentro você tem que esperar por um agente penitenciário para abrir a porta e te deixar sair para o ar livre”, diz Artis. “Aqui fora, posso sair pela porta quando quiser. A menos que seja hora da contagem.”

“Aqui fora” é o que todo mundo chama de Fazenda – os alojamentos de segurança mínima, onde 50 ou mais detentos de nível 1 passam seus últimos meses antes da liberdade condicional. Eles também são contados várias vezes ao dia e vigiados a partir de torres onde ficam oficiais armados. Mas todos têm relativa autonomia e regalias consideráveis: sol e quadras de basquete, além de uma vista de um milhão de dólares – colinas aveludadas, repletas de carvalhos e gado solto. Também têm emprego – como jardinagem, catar latas à beira da rodovia, ajudar em mudanças -, que pagam de 15 a 32 centavos de dólar por hora.

O emprego de Artis é consertar bicicletas. “Aqui na Fazenda, não há trabalho melhor”, diz ele. É “liberdade dentro da prisão”.

Em sua caminhada diária para o trabalho, ele retira uma caixa de ferramentas de bicicleta com um agente penitenciário na sala de ferramentas, onde ficam trancadas todas as noites. Depois coloca a caixa em uma carriola vermelha e a arrasta pela terra até seu escritório: um barracão de metal corrugado com uma mesa e uma oficina. Acima da porta há uma placa:

THE BIKE PROJECT
REABILITAÇÃO ATRAVÉS DA RESTAURAÇÃO

Este galpão de telhado curvo é a sede de um centro de reciclagem da prisão, onde os detentos restauram as bicicletas doadas e as devolvem à comunidade. O programa foi criado para ajudar a desenvolver habilidades profissionais dos detentos, e ser também uma chance de contribuir com a comunidade à qual voltarão em breve. Isso vem acontecendo, silenciosamente, há mais de três décadas.

Artis é responsável pela reciclagem, supervisionando o fluxo de bicicletas que entram e saem da prisão, além de coordenar os poucos detentos que as consertam. Ao longo dos anos, o programa teve seus altos e baixos. Sob a coordenação de Artis, o programa está em uma fase de renascença. Outros trabalhadores do Bike Project vêm e vão, mas ele tem sido uma constante durante os quatro anos em que tem estado na CMF.

De segunda a sexta-feira, Artis chega ao galpão às 6h45 – mais ou menos uma hora antes de qualquer outra pessoa. Vê o nascer do sol, ouve os pássaros, observa os cervos vagando sob o sol baixo. Joga migalhas de pão para os perus selvagens que atravessam a Fazenda. É um momento parecido com solidão, uma chance rara de ficar sozinho na prisão.

“Fico ansioso para vir trabalhar”, diz. “Se você gosta do que está fazendo, esquece que está na prisão nas horas em que fica aqui.”

Ele pendura um saquinho de plástico cheio de água na porta (ajuda a manter as moscas para fora) e reorganiza suas ferramentas. Os policiais da sala de ferramentas contam cada uma delas todas as noites e deixam tudo bagunçado. Ele também conta cada uma, enquanto reorganiza a caixa. Isso é um privilégio, ter a confiança para receber uma caixa inteira de ferramentas. A maioria dos detentos só pode retirar uma ferramenta de cada vez. Ele caminha até um calendário com carros estampados, pendurado em uma parede de metal, e risca mais um dia com um X.

Todo ano, a iniciativa da California Medical Facility (CMF) doa centenas de bikes restauradas para as comunidades do entorno

Folheia uma pasta azul para revisar seu inventário manuscrito. Hoje, há 96 bicicletas restauradas e prontas para ganhar um novo lar. Elas aguardam em um galpão atrás da oficina, protegidas do sol e da maresia do Pacífico que passa por Alcatraz, avança pelas colinas de East Bay e agita as palmeiras altas que alinham a estrada até a prisão. Em dias bonitos, Artis imagina o som do vento nos eucaliptos ou as ondas quebrando em Ocean Beach. Tão perto. E tão inacessíveis.

Seu supervisor, Landon Bravo, é o gerente de recursos da comunidade da prisão e coordena vários programas. Ele usa ternos elegantes e sapatos brilhantes e não fica rodeando o galpão. Desde que Artis tenha estoque suficiente, Landon o deixa em paz. Eles gostam um do outro e gostam do combinado. Landon aparece de vez em quando para entregar pedidos de bicicletas. Um adolescente quer uma mountain bike. O Moose Lodge vai fazer uma rifa para angariar fundos e precisa de um prêmio. Um alcoólatra em recuperação perdeu a carteira de motorista e precisa de um meio de locomoção para as reuniões do AA.

Artis celebra “a liberdade dentro da prisão”, como gosta de definir seu trabalho com as bicicletas

Artis caminha entre as bicicletas consertadas e escolhe a certa para cada novo dono. Ele as separa de lado, identifica e entrega ao portão da prisão, onde acontecem os recebimentos e as entregas. É como brincar de Papai Noel, ou Cupido, para estranhos que nunca conhecerá.

Às vezes ele imagina o rosto atrás do guidão. Imagina o sorriso de um garotinho ganhando sua primeira bicicleta (ele se lembra de ser aquele garotinho). Gosta especialmente da imagem de uma de suas bikes levando um viciado em drogas a caminho da reabilitação. Alguém que foi vítima das razões pelas quais ele está aqui. É sua segunda vez na prisão, diz (registros de prisão dizem que é a terceira). Qual foi a razão da primeira prisão, nos anos 80?

“Posse e venda de narcóticos”, diz. “Distribuição.”

Aos 20 e poucos anos, ele cumpriu pena em San Quentin, a prisão mais antiga da Califórnia, que de tão grande tem seu próprio código postal. “Não aprendi nada lá”, conta. “Eu era jovem.” Saiu. Cresceu. Ficou limpo. Depois que a mãe morreu em 2000, ficou com raiva. “Perdi a perspectiva.” Voltou a se meter em confusão. “Voltei a fazer coisas idiotas, com pessoas que não têm moral nenhuma”, conta. “Acabei retornando à prisão por conspiração e criação de organização de drogas.”

Aqui, no galpão, ele diz que tem tempo para pensar sobre isso. Fala sobre sua fé renovada em Deus e a paz que encontra em ajudar os outros anonimamente. “Esta é uma oportunidade para minha redenção”, diz.

Uma das primeiras bicicletas que reformou foi para um viciado durante a reabilitação, que precisava de transporte para suas consultas. Artis escolheu uma cruiser Schwinn preta de três velocidades. Veio com pneus furados e corrente quebrada. Ele tirou pneus novos de outra bicicleta e lustrou o cromo até que brilhasse ao sol. Quando terminou, a bike ficou tão incrível que um dos funcionários da prisão cresceu o olho para cima dela.

Depois que ele deixou a bike no portão da prisão, não pensou mais nela. Não soube que o cara que pegou a bicicleta era um pai de 45 anos, viciado em drogas e alcoólatra que teve várias recaídas desde a primeira reabilitação, aos 16 anos. Perdeu a carteira e tinha vergonha de pedir aos parentes para levá-lo a todos os lugares que precisava para fazer o curso indicado pelas autoridades para diminuir sua pena. Reuniões do AA. Testes de drogas. Compromissos com seu advogado. Pelo menos quatro reuniões por semana. Artis não sabia que sua Schwinn tinha levado o homem para cada reunião dessas, e que ele nunca se atrasou. Ou que, depois de ficar sóbrio (e permanecer sóbrio), o homem deu a bicicleta – com a qual queria ficar – a outro viciado que estava em situação parecida.

De certa forma, esses detalhes não importam muito para Artis. “O que me motiva é a sensação de completar alguma coisa”, diz. Sentir o sol no pescoço e as mãos em uma bicicleta, ajudando um estranho nesse caminho, é recompensa suficiente.

DE VEZ EM QUANDO, Artis depara com uma bike especial. Pode ser uma relíquia europeia dos dias em que os ciclistas do Tour de France fumavam sentados no selim. Ou uma das primeiras Schwinn com peças originais. Às vezes aparecem bikes fixas sem freio, ou bikes de estrada de carbono caras. Dois monociclos de diferentes alturas estão encostados na parede do galpão.

Hoje ele pegou uma pequena bicicleta vermelha que já rodou muitos quilômetros. É pesada, velha e tão antiquada que já está na moda de novo. Guidão borboleta. Rodas de 20 polegadas. Protetor de corrente e freio contrapedal. O selim banana há muito tempo foi substituído por um de BMX, baixo e inclinado para trás.

O nome no quadro está apagado: Vista Torino 400. Artis nunca ouviu falar dessa marca, mas parece familiar. Ele reconhece uma imitação perfeita de uma Schwinn Stingray. Essa era a bike desejada por todas as crianças do universo quando Artis tinha 10 anos de idade. Precisa de uma reforma. A corrente está preta, coberta com a poeira de mil odisseias no quintal. O quadro tem as cicatrizes de cada acidente. Os pneus estão desgastados por um milhão de voltas por terrenos baldios e poças de lama. A pintura desbotada é testemunho de uma quantidade interminável de verões. Se os anos de bicicleta são como os de cachorro, essa bike é muito mais do que uma anciã. Em idade humana, deve ter uns 50 anos. Mas, mesmo através de meio século de sujeira, Artis consegue vê-la como era — e como poderia vir a ser.

Uma bicicleta é um veículo para muitas coisas. Ir para a escola. Entregar jornal. Uma fuga do mundo dos pais. Com o passar dos anos, ela se torna o que o dono deseja. Então, um dia, a criança deixa de precisar ou quer coisas que ela não pode ser. Esse é o dia em que as rodas giram até a pedalada final, ou talvez girem para outra pessoa.

Enquanto trabalha, Artis frequentemente ouve jogos de beisebol em um rádio que era tecnologia de ponta durante a era Reagan. O estalo do taco faz seu coração disparar e as horas desaparecem ouvindo os gritos da torcida. Em sua imaginação, ele enfia uma luva de beisebol no guidão de uma bicicleta emprestada e aposta corrida com os amigos.

Quando tinha 10 anos de idade, nas horas em que não estava jogando bola no campinho de areia, podia ser encontrado descendo as colinas com a bike de seu melhor amigo. Aqueles eram os tempos de joelhos esfolados e ausência de capacete. Curly tinha uma Schwinn Stingray. Curly deixava o amigo pedalar – os dois tinham que se revezar –, mas o jovem Artis ansiava por uma bicicleta própria.

Um dia, quando estava no ensino fundamental, seu pai o surpreendeu. Essa, aliás, é uma das suas histórias favoritas, embora cada vez que ele conte os detalhes mudem. Em uma das versões, seu pai lhe diz para entrar no carro, pois vão pescar. Em outra, estão indo para um churrasco. Em outra ainda, vão ao estacionamento de um parque para uma aula de direção. Uma vez que chegam lá, o pai lhe diz esperar ali.

O pai desaparece. Então alguém vem e leva Artis Monroe para onde seu pai está — em pé, ao lado da grande revelação. Duas bikes – uma grande e uma pequena. Eles pedalam para uma colina e descem-na juntos, voando. Essa é uma das histórias adoráveis. Em outra, a bicicleta (apenas uma desta vez) está escondida em uma perua Country Squire com painéis de madeira. Às vezes o pai e o filho apostam corrida no asfalto brilhante do estacionamento. Ou ele sai com Curly, que também ganhou uma nova bicicleta. Em outro relato, a bicicleta está encostada a uma árvore em uma praça, onde todos preparam um churrasco. “Tem uma bicicletinha lá, Renny”, diz o pai, acenando para a árvore. “É sua!”

Ele ainda consegue visualizar a Schwinn Stingray azul de três velocidades e selim banana (em algumas versões, não é um Schwinn real, mas uma imitação). Mas, qualquer que fosse, aquela bicicleta o levou até o fim do mundo e o trouxe de volta. Ele se lembra de percorrer campos, pedalando sem as mãos para impressionar as garotas, ou pulando poças de lama (ou mirando bem no meio). Lembra-se direitinho da sensação de apostar corrida nas ladeiras de São Francisco, íngremes feito pistas de esqui.

Alguns dos detalhes podem ficar distorcidos pelo tempo, idade ou nostalgia. A única coisa que não muda é o sentimento, tão verdadeiro hoje quanto há meio século. Liberdade.

Artis sabe exatamente o que fazer com a Vista Torino 400. Ele procura por manoplas mais novas, um selim banana e pneus de banda branca. São necessárias peças de três bicicletas para fazer tudo isso. Ele tira as teias de aranha, limpa o quadro e remove cinco décadas de sujeira. Por baixo, ela ainda é uma beleza. Atemporal. Ainda tem muitos quilômetros pela frente.

EM UM DIA TENSO após minha primeira visita, a prisão está fechada. Houve uma fuga na noite anterior. O fugitivo não cavou um túnel nem fez um buraco na cerca. Ele simplesmente saiu da Fazenda.

Artis não vai trabalhar hoje. Nem ninguém mais. Durante o bloqueio, todos os detentos param onde quer que estejam quando é hora da contagem. Artis é o único preso que tem permissão para sair, uma exceção generosa feita pelo diretor para este que vos escreve, que viajou 2.000 km para falar novamente com o detento. O abraço de um braço, legal-te-ver-de-novo, é interrompido por um agente penitenciário, em um momento espetacularmente estranho.

Muita coisa mudou no ano que passou. Outros caras receberam condicional. Landon Bravo, o supervisor com os sapatos brilhantes, foi promovido. O que significa que Artis tem um novo supervisor. Ele não parece muito feliz com isso. A ideia de começar de novo, construir confiança, foi quase o suficiente para fazê-lo desistir. Mas o cara novo olha nos olhos, trata-o com respeito e pediu para ele ficar. Pois então, aqui está ele.

Dia de bike nova para a pequena Amaya Andrews (com a sua mãe), que recebeu esta bike Vista Torino restaurada por Artis

Uma bola de beisebol solitária fica em sua mesa no galpão, ao lado do rádio, do calendário, da tabela dos jogos dos Giants e de fotos de lugares bonitos. Os caras que jogavam futebol na Fazenda há muito tempo já saíram. Em suas camas, dormem outros homens, que não dão a mínima para o beisebol. Eles só querem jogar futebol e basquete.

“Os tempos mudam”, diz Artis. “Nós mudamos.”

Ele continua com sua rotina na Fazenda. Caminha até a entrada da prisão para pegar as bicicletas que os doadores deixaram. Em uma manhã normal, ele encontrará três ou quatro. No galpão, encontram-se 200 bicicletas prontas para serem doadas. Mais 47 em outro. Há uma fila de 127 bikes esperando para serem consertadas e cerca de 99 doadoras de órgãos.

As manhãs ainda são seu santuário. Inclinado sobre uma bicicleta, ele pensa muito. Fica se imaginando comprando uma casquinha de sorvete no Golden Gate Park, assistindo a um concerto grátis em um parque e vendo o sol se pondo nas intermináveis ​​ondas que batem em Ocean Beach. Ele planeja sua primeira refeição do lado de fora – ela muda de peixe para ostra para cordeiro. Sonha em ir até Lake Tahoe com os amigos.

“Apenas ser capaz de fazer o que eu quero”, diz ele. “Apreciar a liberdade da qual nós, tão voluntariamente, desistimos fazendo coisas idiotas.” Essas “coisas idiotas” também são detalhes inconsistentes. “Conspiração para distribuir narcóticos” não é o que dizem os registros da prisão. Eles dizem assalto. Roubo. Furto.

Quando gentilmente questionado, Artis começa a suar. Enxugando o rosto com um pano azul da oficina, ele murmura algo sobre ser “pego cometendo o furto de pegar de volta algo que era meu”, e acrescenta algo sobre conseguir redução da pena.

Meses depois, após muita pesquisa, uma velha reportagem de jornal mostra outro conjunto de fatos. Liga o nome de Artis a um suspeito conhecido como um grande “assaltante de banco”. Acusado de roubar cinco bancos de São Francisco em cinco meses, o suspeito supostamente não brandiu nenhuma arma – apenas um bilhete. Nele, os caixas liam que “viveriam para ir para casa” se lhe dessem o dinheiro que ele pedia. No tribunal, Artis Renard Monroe se declarou inocente de 13 crimes, incluindo roubo e assalto. O escritório da promotoria confirmou que seu caso não tinha nada a ver com drogas.

O que acontece quando os fatos não se alinham? Onde fica a verdade?

Sabemos de uma verdade: um detento que conserta bicicletas. As bicicletas ajudaram pessoas. Isso pode ou não ajudar em sua redenção. Mas tem significado.

Artis tem uma bicicleta reservada para si. Ele a estaciona perto de sua mesa. É uma Genesis Road Tech vermelha e preta com coroa tripla e selim de gel. O Walmart vende uma nova por US$ 129. Pode não ser uma bicicleta muito incrível, mas vem sendo sua companheira constante em um mundo onde tudo parece fluir em uma direção: para fora.

Os guardas lhe disseram que ele pode ficar com a bike quando sair. Talvez ele queira. Ainda não decidiu. Talvez isso lhe dê algo para pensar por quatro meses e sete dias antes de sair dos portões da prisão. Todos os dias, após o trabalho, Artis dá 15 voltas ao redor do galpão. Ele pode estar andando em círculos, mas sente que está indo em frente.

A poucos quarteirões da prisão, em um parque com playgrounds e trilhas de bicicleta, uma menina sorri timidamente para a Vista Torino 400. O nome dela é Amaya. Tem 7 anos de idade. Possui grandes olhos castanhos e brincos vermelhos. Ela sabe andar de bicicleta, mas a magrela parece esquisita. Não é o que ela esperava.

“Pode pegar”, diz sua mãe, Tresa Andrews. “É sua! Pega, querida!”

Sua bicicleta anterior era roxa, com adesivos de princesa. Mas os dois pneus estavam estragados, além de ser muito pequena. Esta tem cara e sensação estranhas. O guidão tem um formato engraçado. O capacete novo, doado por um estranho, não cabe sobre as tranças. O selim não se parece com nada que ela já tenha visto.

“É um selim banana”, diz a mãe. “Viu como é longo e fininho? É exatamente igual à que a mamãe tinha quando era pequena!”

A bike lembra a que a mãe de Amaya tinha, uma Schwinn amarela e branca que dividia com o irmão mais novo. Tresa andava descalça, de maiô, durante todo o verão. Por um minuto, ela é aquela garota novamente: faltando dentes, bochechas sardentas, cabelos claros de sol esvoaçando. A mãe de Tresa levou meses economizando para comprar aquela bike. O irmão ganhou uma rosa de segunda mão. Algumas noites antes do Natal, Tresa ajudou a mãe a pintá-la de azul. Ele não sabia que era uma bicicleta de menina, mas os outros garotos o informaram. Ele nem ligou. Era dele.

Esta Vista Torino fez Artis se lembrar de sua bike de infância — e a sensação de liberdade que ela lhe trazia

Aquela garota sardenta agora é mãe solteira, trabalhadora. Fotos de seus filhos – duas meninas e dois meninos – ficam grudadas em seu bloquinho de garçonete. O filho mais velho está prestes a lhe dar um neto. A mais nova está sorrindo com tímida confusão na bicicleta que não podia pagar, um presente da prisão local.

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A Vista Torino 400 é um pouco grande para Amaya. Ela tem que se equilibrar na ponta dos pés e se sentar na ponta do selim. Roda um pouco com os pés no chão, com medo. Então ela pedala, tímida e vacilante. A roda dianteira bambeia para um lado e para o outro. A mãe corre ao lado dela, segurando. Amaya continua olhando para o chão. De repente, o olhar de Amaya se move do chão para o horizonte. Ela pedala ferozmente. Seu sorriso tímido se transforma. A mãe solta a menina, que segue, firme, em frente.

PS: Artis já restaurou aproximadamente 1.000 bikes.