Ando devagar porque já tive pressa

Eu estava sempre com pressa – até começar a pedalar pelo mundo bem devagar

Devi, sua bike e uma das mensagens que acompanham sua aventura: "Conte-me sua história sobre a mudança climática". Foto: Jacob Howard

EM JANEIRO DE 2015, cheguei à base do Monte Messenger, na Ilha Norte da Nova Zelândia. Uma placa amarela e azul anunciava: “Estrada sinuosa! Seja paciente”. Ela está lá por um bom motivo. Esse trecho da State Highway 3 percorre uma série de curvas íngremes. Chegar ao topo da montanha é a única maneira de completar os quase 90 km de Awakino até New Plymouth, seguindo pela costa. Estou pedalando minha bicicleta para um hui (“encontro”, em maori, o idioma dos povos indígenas que migraram para lá séculos atrás) de ativistas pela justiça climática de New Plymouth. Estou atrasada.

Durante os últimos dois anos viajei, quase sempre de bicicleta, para coletar 1.001 histórias de pessoas que conheci sobre mudanças envolvendo o clima do planeta e o uso da água (o número, claro, veio do clássico da literatura As Mil e Uma Noites, no qual a heroína Sherazade passa as tais 1.001 noites contando histórias de reis assassinos para salvar a própria vida). Até o momento, ouvi mais de 500, passando pelos Estados Unidos, Fiji, Tuvalu, Nova Zelândia, Austrália, Tailândia, Laos e Camboja.

Quando eu era estudante na Universidade de Harvard (EUA), há dois anos, associava velocidade com sucesso. Eu ia correndo da aula para o treino de remo e, dali, para a república onde morava para, depois, voar de volta à aula. Minha vida era calculada em minutos. Eu sabia quanto tempo exato levaria para tomar banho, para chegar de bike até a avenida Massachusetts ou ir até o rio. Eu me desdobrava em meio a uma agenda meticulosamente calculada. Eu era boa em viver com pressa.

Mas meu corpo decidiu se rebelar. No verão seguinte ao meu segundo ano da faculdade, rompi o ligamento cruzado anterior jogando futebol. A cirurgia de reconstrução me obrigou a diminuir o ritmo. Fiquei arrasada. E já não sabia mais quem eu era fora do paradigma de trabalhar duro para me movimentar mais rápido. Quem sou eu? O que quero? Para onde vou? Escolhi buscar as respostas em um projeto em movimento. Assim nascia a ideia de uma cicloviagem.

Em agosto de 2013, voei até Memphis, no Tennessee (EUA), com meu gravador, minha bike Surly Disc Trucker e um desejo profundo de ouvir histórias. Meu plano era pedalar 800 milhas (cerca de 1.300 km) pela trilha do rio Mississippi, em Memphis, até o Golfo do México. Eu coletaria histórias de pessoas que encontrasse e escreveria poemas inspirados nessas narrativas para minha tese em folclore e mitologia.

DEPOIS DAS DUAS primeiras curvas do Monte Messenger, eu estou, digamos, esbaforida. Sem ar. Apertando os olhos sob o sol de verão em janeiro. Xingando cada objeto que havia trazido comigo – quando, afinal, eu vou usar um purificador de água? Por que trouxe minha gaita? Treino meus olhos para enxergar alguns metros preciosos à frente na estrada e rezo para que os caminhoneiros percebam minha roupa refletiva.

No topo, paro logo antes da entrada estreita de um túnel para curtir a vista da copa das árvores, o vale e o céu imenso pairando sobre mim como um quebra-cabeça de mil peças. Fico olhando as nuvens, que parecem bolas de algodão, passarem acima da minha cabeça.

Enquanto bebo água em goles longos, uma van branca encosta ao meu lado, arrastando cascalho sob os pneus. O motorista abaixa o vidro. “Vi você no início da subida quando estava indo para o trabalho”, diz o homem, sorrindo atrás da barba. “Você quer uma carona para descer? Também sou ciclista, e este trecho é sinuoso. Não há acostamento. É perigoso quando os carros vêm em alta velocidade.”

Alguns minutos depois, minha bike está equilibrada na parte de trás da van dele.“Meu nome é Tony”, ele diz. “Sou tapeceiro. Que diabos você está fazendo no alto desta montanha?”

Pedalar – sendo mulher, por grandes distâncias, no meu próprio ritmo – dá início a muitas conversas. Todo tipo de gente falava comigo enquanto eu pedalava pela trilha do rio Mississippi: músicos, fazendeiros, guias do rio, enfermeiras, jornalistas, caminhoneiros. Em um mês, eu havia gravado mais de 50 horas de histórias.

A norte-americana Devi Lockwood cumprindo a rotina dos últimos dois anos: viajar de bike para coletar 1.001 histórias sobre alterações do clima no planeta e no uso da água. Foto: Jacob Howard

De volta a Boston, as narrativas do Mississippi se fixam na minha memória e não vão embora. Reconheci o padrão: quanto mais para baixo do delta eu viajava, mais pessoas me contavam casos sobre as mudanças climáticas. As tempestades estão mais intensas e frequentes. Os preços dos seguros ficaram altos demais para as pessoas mudarem suas casas de volta para perto da água. Algumas moram em trailers em espécies de palafitas. A extração de petróleo agrava a invasão da água salgada no continente.

Como você pode abandonar o lugar que um dia chamou de casa? O que acontece quando faixas enormes de terra deixam de existir? De quem é a culpa? Comecei a questionar essas mudanças em nível global. Em setembro de 2014, saí de casa novamente, dessa vez em uma viagem como bolsista da Universidade de Harvard para uma “peregrinação em busca de propósito” depois da graduação. Não sabia quanto tempo ficaria fora, muito menos onde isso iria terminar. O fato é que agora que tinha começado a ouvir as pessoas eu não podia parar.

Não tenho um plano fixo. Não viajo com um ciclocomputador medindo cada pedalada. Faço paradas frequentes. Levo comigo uma placa de papelão onde está escrito “conte-me uma história sobre água” de um lado e “conte-me algo sobre mudança climática” do outro. Em minhas viagens, aprendi sobre agricultura industrial, navios cargueiros e métodos de geração de energia.

Tony balança a cabeça enquanto escuta minha história. Seu labrador tenta subir duas vezes no meu colo, depois ele se ajeita no espaço entre os bancos da frente com o focinho sobre as patas. Minha bicicleta chacoalha lá atrás. Faço carinho nas orelhas do cachorro e lanço olhares para o oceano molhando os arbustos abaixo de nós. Sigo as linhas paralelas das ondas, pensando na distância que uma única onda viaja antes de chegar à praia. Que histórias a água tem para nos contar?

O ato de relatar minha própria história a Tony me faz lembrar de minha missão: ouvir. Não posso dar a alguém minha atenção total se estiver com pressa. Esqueço a estrada por um momento e foco em minha respiração.

Na escuta, dou o máximo de mim mesma – meus ouvidos, meu coração – para um contador de histórias. No ciclismo, dou o máximo de mim mesma – meu corpo, meu espírito – a um lugar. Eu me desloco pela paisagem, e a paisagem se move através de mim. A lentidão se tornou parte da minha prática diária.

Slow cycling significa acenar para as pessoas quando passo. Significa viajar com uma caneta na bolsa de guidão e escrever mensagens em postes telefônicos, muretas de proteção da estrada ou paredes de corredores: “Apenas brinque.” / “A calma é bela.” / “Leia mais poesia”. Significa, em alguns dias, parar a cada quilômetro para escrever mais uma linha do poema que está martelando na minha cabeça. Colher uma flor no topo do Parque Nacional Arthur’s Pass, em plena Nova Zelândia, colocá-la atrás da minha orelha e descer da bicicleta para fazer uma dancinha feliz porque, sim, cheguei ao cume de uma montanha com a força do meu próprio corpo.

Vejo o ciclismo como uma escuta ativa, uma ferramenta para aprender mais sobre este planeta lindo que chamo de meu. Quando Tony me pergunta se tenho tempo para almoçar com ele e a família, digo que sim. Entramos em uma fazenda no meio de um campo. Depois de compartilhar alguns pratos com torrada e abacate, ele desaparece em sua oficina de tapeçaria por meia hora e volta com uma bandeira amarela feita especialmente para minha bicicleta. “Assim os caminhoneiros vão poder enxergá-la com mais facilidade”, diz. Agradeço e sigo meu caminho. A propósito, cheguei ao tal hui na hora marcada.

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