O que o Brasil tem a aprender com o ciclismo colombiano

Enquanto a Colômbia não para de produzir talentosos ciclistas, o Brasil não tem sequer um ciclista entre os top 100 no ranking mundial

Reunião de família: Miguel Rubiano (Colômbia), Sebastian Henao (Team Sky) e Nairo Quintana (Movistar), durante o Giro d'Italia 2014 (Foto: steephill.tv/sirotti)

Terminadas as Grandes Voltas deste ano, ficamos satisfeitos com a apresentações dos melhores ciclistas do mundo na atualidade, que deram show em escaladas, contrarrelógios, sprints… Mas vamos aos fatos: o Brasil, que há alguns anos teve Murilo Fischer e Luciano Pagliarini em etapas do UCI Pro Tour, teve que se contentar em aplaudir e vibrar com nossos vizinhos sul-americanos colombianos. Em todas as Grande Voltas – Giro d’Italia, Tour de France e Vuelta a España – a Colômbia teve ciclistas entre os top 10 na classificação geral. Tentamos enxergar o que podemos aprender com o ciclismo colombiano.

O Brasil atualmente não tem nenhum ciclista top 100 no raking mundial, e dificilmente essa realidade mudará tão cedo. Enquanto isso, a Colômbia, apesar de ser favorecida geograficamente, com montanhas que praticamente começam a desafiar ciclistas ainda na infância, vem dando um show nos últimos tempos.

Ciclistas como Daniel Martinez (22 anos), Egan Bernal (21) e Ivan Sosa (20) fazem parte da nova safra de talentos colombianos que já são muito bem falados nos pelotões das principais competições mundiais de ciclismo de estrada. Eles certamente são fãs de Nairo Quintano (28) e Rigoberto Urán (31), que ajudaram a trazer o ciclismo colombiano de volta à cena – e aos principais rankings. Fernando Gaviria (23) e Miguel Ángel Lopez (24), são outros jovens e talentosíssimos ciclistas vindos da Colômbia.

A evolução do ciclismo colombiano

Se a Colômbia incentiva o uso da bicicleta há mais de quatro décadas, ampliando a malha cicloviária de sua capital, Bogotá, e motivando cada vez mais famílias a pedalarem nas ruas, competitivamente o renascimento colombiano começou há uns 10 anos.

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Urán e Quintana, além de Esteban Chaves e Carlos Betancur, foram passar temporadas na Europa. Logo na sequência Gaviria e Lopez (3º colocado na classificação geral do Giro d’Italia neste ano) seguiram os mesmos passos.

Os mais novos entraram no WorldTour nesta temporada, em equipes como Sky e EF Education First-Drapac. E jovens colombianos não param de se propagar nos principais pelotões mundiais. Todos querem ter um ciclista colombiano em sua equipe. “É porque eles são ótimos ciclistas e também têm ambição”, justificou Patrick Lefevere, da Quick-Step, que contratou Gaviria em 2015.

Em 2018, 17 colombianos competem em nove equipes do World Tour. Sem contar os que estão prestes a subir para a primeira divisão do ciclismo profissional. Na Colômbia, a concorrência para se tornar ciclista profissional está grande.

Colombiano Fernando Gaviria vence a primeira etapa do Tour de France 2018

Martinez, que já sonhou em ser jogador de futebol, ganhou uma bicicleta quando tinha 13 anos e se apaixonou imediatamente. Ele morava ao redor de montanhas de até 4.500 metros de altitude, portanto, seu treino de verdade começou cedo.

O sucesso não é algo que acontece do dia para a noite – pelo menos no ciclismo. E obviamente que a tradição colombiana de incentivar o uso da bicicleta como transporte e lazer, uma realidade de quase meio século no país, foi fundamental para que a Colômbia colhesse hoje talentos em excesso.

Martinez começou a competir aos 15 anos, depois que sua família fugiu das crescentes ondas de violência que atingiam o interior da Colômbia. Ele concorda que houve um boom no ciclismo colombiano motivado por Rigoberto e Nairo. “Todo mundo queria correr de bicicleta, queríamos ser como eles”, disse. Eram tantos atletas que os organizadores tiveram que colocar um limite no número de participantes. E, como aconteceu na Bélgica e na Itália, há vários clubes locais de ciclismo na Colômbia.

Como um talento inato trabalhado, Martinez evoluiu rápido. Juntou-se à seleção nacional e competiu nos Jogos Pan-Americanos e no mundial de 2013 como júnior. “Eu estava ganhando muito, foi onde tudo começou”, disse.

O ciclismo colombiano antes de Nairo

Na verdade, o ciclismo na Colômbia começou bem antes de Nairo e Rigoberto. O esporte passou a ser levado a sério nas décadas de 1960 e 1970. O Tour da Colômbia então surgiu como uma corrida séria. E apesar de ciclistas como Luis Herrera e Fabio Parra (vencedor da Vuelta a España em 1987) continuarem fazendo bonito na Europa, o país viveu um hiato no ciclismo nos anos 1990. Equipes fecharam as portas e alguns especialistas chegaram a dizer que os colombianos foram “neutralizados” pelo uso de EPO e transfusões de sangue que passaram a ser recorrentes no pelotão.

Correndo limpos, os colombianos então poderiam estar sendo desfavorecidos. Talvez por isso não seja coincidência que os colombianos tenham voltado com tudo no final da década de 2000, quando a WADA passou a exigir passaportes biológicos. “Isso nos ajudou porque vivemos na altitude”, chegou a dizer o colombiano Carlos Betancur, que terminou em terceiro a Flèche Wallonne em 2013.

Colombianos fazendo a festa no Tour de France

O renascimento colombiano começou, de fato, há uma década. O diretor de ciclismo Luis Fernando Saldarriaga, hoje da equipe colombiana Pro Continental, foi o olheiro de atletas como Betancur, Quintana, Chaves e Sergio Henao. Foi ele que introduziu treinos baseados em medidores de potência.

Trabalho inteligente somado à paz civil que o país atravessa atualmente é a equação que permite que novos talentos ainda floresçam na Colômbia. O ciclismo de base está forte como nunca nesse país sul-americano. Há muitos jovens que querem ser como Nairo daqui a uns anos – talvez mais ainda, em matéria de resultados.

E, nem por isso, o futebol deixou de ser o primeiro esporte na Colômbia. O Brasil, pelo visto, tem muito o que aprender com a Colômbia para fazer ciclismo deslanchar.

(Informações retiradas do site velonews.com)