Ciclista une aventura e ciência em uma pedalada pelas geleiras da América do Sul

A intenção de Marcos Cole é fotografá-las e colaborar com a ciência

Marcos em frente ao Glaciar da Sierra Velluda, a montanha mais alta de Bio Bio

Em setembro de 2017, o geógrafo e explorador chileno Marcos Cole pegou sua bicicleta e partiu para uma pedalada pelas geleiras da América do Sul. Em uma viagem de seis meses Marcos pedalou do Altiplano (nos Andes centrais, norte do Chile) até a Patagônia (a região ao sul do continente sul-americano, que engloba Chile e Argentina.

Ele atravessou o Chile do mar ao Andes, das montanhas do deserto do Atacama ao extremo frio e chuvoso da Patagônia. Sempre de bike.

Claro que a pedalada pelas geleiras da América do Sul foi uma mudança total de estilo de vida, mas a missão principal de Marcos foi observá-las e registrá-las.

Acampamento na Villa O'Higgins
Acampamento na Villa O’Higgins

Na América do Sul, o Chile contém a maior área de terra coberta por gelo glacial (23.000 km2). No entanto, sabe-se que o aquecimento global e outros fatores têm colaborado com o derretimento de várias dessas geleiras. Uma das constatações feitas por cientistas é através de comparação, entre fotos antigas e atuais. Esta técnica, conhecida como “fotografia de repetição”, permite avaliar esses impactos. E foi a forma que Marcos encontrou para colaborar com a ciência e, de alguma maneira, ajudar as pessoas a se conscientizarem sobre a importância desses imensos blocos de gelo que o mundo está perdendo em ritmo acelerado.

Como geógrafo, Marcos sempre se interessou pelas geleiras. Posteriormente, se tornou guia de montanha, participando de expedições em todo o Chile. Até que decidiu fazer a pedalada pelas geleiras da América do Sul. 

A expedição Glaciers by Bike, o nome que ele deu a esse projeto, combinou, portanto, ciência, esporte e fotografia. Abaixo, Marcos descreve um pouco de sua viagem que, além da colaboração científica, o ajudou em uma mudança radical no estilo de vida.

Geleira em Valle Exploradores

A viagem, por Marcos Cole

“Em setembro de 2017, peguei minha bicicleta e parti em busca do gelo. Durante seis meses, pedalei do Altiplano à Patagônia, atravessando o país do mar até os Andes; das montanhas do deserto do Atacama até os extremos frios e chuvosos do sul do continente. Uma viagem de meio ano que começou em Arica e terminou em Villa O’Higgins, no Chile.

Leia também: Pedalada sem marcha, do Atlântico ao Pacífico

 

Glaciar Calluqueo (Fotos: Marcos Cole)

Durante todo o tempo, a bicicleta foi minha grande companheira de viagem. No começo, passei pelo Parque Nacional de Lauca, onde fiz as primeiras fotografias do projeto. Depois de uma semana de pedalada, baixando mais de 4.000 metros de altitude, cheguei ao Lago Chungará. Lá, pude contemplar e fotografar as geleiras localizadas nos vulcões Parinacota, Pomerape e Guallatiri, entre outros. O frio, o vento e a altitude foram fatores que não dão descanso, prejudicando muito a minha experiência em Parinacota.

Depois de voltar a Arica, continuei pedalando para o sul, ao longo da costa do norte do Chile. Ao longo da Cordilheira dos Andes, nas regiões de Coquimbo, Valparaíso e Metropolitana, fiz várias fotos. A viagem passou por rotas de montanha conhecidas, como a estrada para o Complexo da Fronteira Libertadores e para Farellones, uma cidade montanhosa localizada perto de Santiago. Também tive a oportunidade de acompanhar um grupo de cientistas realizando medições “glaciológicas” no Universidad Glacier, na região de O’Higgins. Quando fiz meu caminho para o sul, a quantidade e o tamanho das geleiras aumentaram. Durante os primeiros três meses de viagem, aprendi muito sobre as pessoas, os glaciares e o turismo de bicicleta. Mas ainda tinha mais da metade do país para viajar.

Mapa da primeira fase da expedição Glaciers By Bike

Continuei pedalando em direção às geleiras de Nevados de Chillán e Antuco. O traçado da rota não era simplesmente uma travessia longitudinal, mas também uma constante subida e descida de montanhas, explorando lagos, florestas, cachoeiras e um mosaico de cores e formas que dão vida às paisagens do sul do Chile.

Quando cheguei a Puerto Montt, a ansiedade queimava nas minhas pernas só de pensar que começaria a pedalar na Carretera Austral. Depois de atravessar as florestas chuvosas e espessas do Parque Nacional de Pumalín e fotografar um grande número de geleiras, entre elas o famoso glaciar suspenso de Quelat, cheguei a Coyhaique, capital da região de Aysén, e ponto estratégico para estocar suprimentos em preparação para as seções mais remotas da Patagônia.

Fazendo fronteira com as águas cintilantes do Lago General Carrera, cheguei a Puerto Río Tranquilo, um lugar onde diariamente dezenas de turistas embarcam em barcos que os levam às catedrais naturais de mármore. Mas a partir daí também se pode pegar a estrada para um dos locais mais espetaculares do Chile para observação de geleiras: o Vale dos Exploradores. Há cerca de 75 quilômetros de estradas que margeiam os limites norte do campo de gelo da Patagônia. Lá, pude ver enormes massas de gelo, como os glaciares Exploradores e Grosse, bem como um número significativo de glaciares sem nome, muitos dos quais se agarram aos lados das montanhas.

Seguindo a bacia de Chelenko, um pouco mais ao sul, fui em direção à geleira Leones, outra das línguas gigantes que se estendiam do campo de gelo do norte da Patagônia. Nesse ponto, minha bike começou a sofrer com a longa e difícil rota percorrida, mas, apesar de algumas peças quebradas, consegui chegar a Cochrane. De lá, pedalei aos pés de um dos gigantes da Patagônia: o monte San Lorenzo, de onde desce o Glaciar Calluqueo, o mesmo que o padre Alberto María de Agostini também fotografou na década de 1940.

A estrada para o sul passava por paisagens belas e solitárias, às vezes cruzando as águas do Rio Baker e seguindo em direção ao leste, onde fica o Campo de Gelo Patagônico do Sul. A cerca de 40 quilômetros da Villa O’Higgins, sofri uma queda que me deixou com alguns ferimentos, além de danificar um pouco mais a minha bike. Mesmo assim, consegui pedalar até a última aldeia ao longo da mítica Carretera Austral e, assim, chegar ao final da primeira parte da minha jornada.

Geleira Leones

Próxima pedalada

O projeto “Glaciares em uma bicicleta” significou uma mudança radical no estilo de vida: envolve uma vida nômade para viajar e trabalhar entre as geleiras. É um sonho que se tornou realidade, talvez impensável para mim apenas alguns anos atrás. Mas ainda há um caminho a percorrer. Em outubro, iniciarei a próxima fase dessa iniciativa, viajando para a região de Magallanes, no extremo sul do continente. Depois, seguirei para a Argentina e outros países sul-americanos em busca de novas geleiras a serem documentadas.

(Via patagonjournal.com)