Ciclistas recebem aumento, mas mulheres são deixadas de fora

A UCI não exige sequer que as equipes paguem um salário para as mulheres

A tricampeã do campeonato mundial, Giorgia Bronzini, precisou manter em paralelo uma carreira no exército para poder continuar competindo. BRYN LENNON

Por Jen See

A UCI anunciou essa semana que, pela primeira vez em cinco anos, alguns ciclistas profissionais vão ter aumento. O salário mínimo masculino vai subir para €38,115 para as equipes do World Tour e para €30,885 para as equipes do Professional Continental em 2018.

Foi notada a ausência de anúncios sobre o pagamento de mulheres. Isso se deve ao fato de que não existe um salário mínimo para mulheres no pelotão profissional. Na verdade, nas equipes femininas não existe sequer a obrigação de pagar salário.

A falta de igualdade entre as equipes masculinas e femininas tem uma história longa e persistente. Várias atletas de elite mantinham empregos fora da temporada para poder cobrir o rombo que competir traz aos orçamentos. A tricampeã pelo World Championship Giorgia Bronzini, por exemplo, serviu ao exército italiano durante toda sua carreira esportiva.

Para alguns comentaristas, a UCI vê o ciclismo feminino como algo secundário. “A razão pela qual a UCI nunca estabeleceu um salário mínimo feminino é porque eles não valorizam mulheres da mesma maneira que homens,” diz Kathryn Bertine, militante do ciclismo feminino e ex-ciclista profissional.

O fato da UCI reger o ciclismo feminino com as mesmas regras que usa para as equipes masculinas mais fracas, conhecida como equipes continentais, parece reforçar essa perspectiva. As equipes masculinas continentais (em oposição às equipes intermediárias continentais profissionais) não têm salário mínimo, então as mulheres também não têm. Não é uma boa perspectiva para nenhum grupo.

Tipicamente, as equipes masculinas continentais são uma espécie de vitrine de talentos para jovens ciclistas que esperam passar para uma equipe do WorldTour. É raro os salários virem a público no ciclismo, mas estima-se que o quatro vezes campeão do Tour de France Chris Froome ganha mais de 4 milhões de euros por ano. Muitos membros das equipes no pelotão masculino ganham salários de seis dígitos, o compensa os baixos salários de início de carreira.

Já as equipes do WorldTour feminino, em oposição, seriam a elite do esporte. Elas competem as corridas mais duras e os times têm campeãs mundiais. Apesar dessas equipes também desenvolverem jovens talentos, não é seu papel principal. “O fato de que não existe um salário mínimo no nível do WorldTour, e nem a obrigação de manter um salário para as atletas, está errado de qualquer ponto de vista”, diz Bertine.

Quando Brian Cookson assumiu a presidência da UCI quatro anos atrás, ele colocou o salário mínimo para atletas mulheres na lista de mudanças que ele traria ao esporte. A seu favor, ele de fato trouxe mudanças positivas para o ciclismo feminino. Nos eventos do campeonato mundial da UCI, as mulheres recebem prêmios equivalentes aos masculinos , e ano passado, a organização ampliou as distâncias das provas femininas para 160 quilômetros.

Talvez a maior mudança tenha vindo com o lançamento do Women’s World Tour, uma série de provas de um dia e em etapas, em 2016. As 20 equipes mais fortes do ranking da UCI competem, e organizadores da corrida devem prover os custos de participação dos atletas e divulgação.

Apesar do Women’s World Tour ter favorecido as equipes mais fortes, a falta de um salário mínimo feminino ainda segue sem solução. “Eu venho repetindo que precisamos ter isso há quatro anos,” disse Cooksonà Velonews em julho. “Mas não é simplesmente dar uma canetada.” Ele disse que muitas equipes são resistentes à ideia e que não tinham verba e patrocínios para implementá-la.

Leia também:
Ela quer ser a primeira ciclista negra dos EUA
Mulheres e o Tour de France: uma história de persistência

Bertine rebate esse argumento. “Muitas pessoas se condicionaram a pensar que estabelecer um salário mínimo para mulheres quebraria os times profissionais,” diz. “É essa isca que a UCI quer que a gente morda.” Em conversas em off, contudo, muitos diretores de equipe comentaram que buscariam essa verba se houvesse a exigência de um salário mínimo.

Por outro lado, quando a equipe feminina Specialized-lululemon foi lançada, em 2011, ela já veio como parte de uma nova geração de equipes que tornaram o salário uma prioridade. Desde então, equipes como Canyon-SRAM, WM3 Pro Cycling e Team Sunweb também buscaram melhorar o apoio de suas atletas profissionais.

“É óbvio que se uma pessoa escolhe se dedicar profissionalmente ao ciclismo, é um profissional. E deve ser pago como tal”, diz a diretora da Canyon-SRAM Beth Duryea. “Não interessa se é um homem ou uma mulher.”

COMPARTILHAR