Colômbia: destino certo para quem quer montanhas e cultura ciclística

Foto: Gregg Bleakney

Por Aaron Gulley
Fotografias por Gregg Bleakney

Um casal de cachorros abandonados se esquiva para dentro da mata verde e úmida. Passaram-se apenas 15 minutos desde minha partida em direção ao Passo Matarredonda, e o ruído rítmico e constante dos 8 milhões de habitantes de Bogotá virou apenas um som distante.

No alto dos Andes, na borda escarpada da Cordilheira Oriental, estou no coração cultural e geográfico do país, em busca da alma do ciclismo colombiano. Fiquei obcecado pelo país em 2013, durante uma viagem para ver o Tour de France, onde pude presenciar um ciclista escalador franzino encher de preocupação alguns dos atletas mais fortes do planeta. Era, claro, Nairo Quintana, o mais famoso da nova leva de ciclistas colombianos profissionais. Desde então, um exército de compatriotas de “El Condor” tem conquistado façanhas incríveis nas provas da União Ciclística Internacional (UCI). No ano passado, Esteban Chaves subiu ao pódio no Giro d’Italia e na Vuelta a España; Miguel “Superman” López venceu o Tour da Suíça; Sergio Henao levou a melhor na Paris-Nice; e Jarlinson Pantano abocanhou uma etapa de montanha do Tour de France. A maior parte do sucesso deles vem das altas montanhas, embora o país também seja pátria do sprintista Fernando Gaviria, que arrebatou um monte de etapas planas e velozes de provas da UCI, incluindo o Tour de France de 2017. Ao longo das últimas quatro temporadas, o país acumulou mais pódios (dez) em Grandes Voltas que qualquer outro. Também é colombiano um dos nomes mais sortudos do pelotão: Winner (“vencedor” em inglês) Anacona, ciclista de 28 anos da equipe Movistar.

Dominada por uma história de tráfico de cocaína e por 52 anos de luta armada que deixaram mais de 220 mil cidadãos mortos e quase 7 milhões de pessoas deslocadas internamente em suas fronteiras, a Colômbia é uma incubadora ciclística pouco comum. Durante décadas, guerrilhas de esquerda lutaram pela independência, paramilitares direitistas se defenderam deles, cartéis de trafico de drogas acabaram com qualquer um que se intrometesse em seus negócios e bandidos armados fizeram reféns constantemente interessados em resgates. As coisas começaram a mudar por volta de 2002, quando o então presidente Álvaro Uribe parou de negociar com as guerrilhas e começou a suprimi-las pela força – uma abordagem polêmica, mas que reduziu os sequestros em 79% durante seu mandato e fez com que os rebeldes se rendessem. O sucessor de Uribe, o atual presidente Juan Manuel Santos, venceu o Prêmio Nobel da Paz no ano passado por assinar um acordo para terminar com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

O que falta à Colômbia em estabilidade, o país compensa com uma topografia impressionante. A minha primeira pedalada até o Matarredonda começou a 2.600 metros de altura e ascendeu por subidas com grau de inclinação médio de 4% durante 17,7 km até um passo de montanha a 3.330 metros de altura. Perto do topo, meu companheiro de pedalada e guia, Gregg Bleakney, um fotógrafo e cinegrafista norte-americano que se estabeleceu na Colômbia depois de uma cicloviagem do Alasca à Patagônia, vira para mim e diz: “Bom aquecimentozinho, né? Não se preocupe, faremos algumas escaladas de verdade durante esta semana”.

Mais longo que Alpe d’Huez, na França, onde Nairo Quintana começou a se tornar conhecido em 2013, o Matarredonda é um percurso pouco frequentado por quem está se aquecendo para as montanhas maiores. Nem mesmo Nairo o pedalou, apesar de vir dessa região, o que revela o amplo potencial ainda inexplorado da Colômbia. Eu já voltaria para casa feliz se esta fosse minha única pedalada no país. A apenas uma hora da capital, pedalo sob a sombra de carvalhos, e o ar é preenchido por cantos estridentes de pardais e pelo som de uma chuva fina.

A estrada desce em direção leste até Choachí e Rionegro, antigos refúgios de rebeldes. Há apenas dez anos, guerrilhas das Farc paravam ônibus aqui para sequestrar qualquer pessoa cuja família pudesse pagar para tê-la de volta. Julián Manrique, um amigo colombiano de Gregg que revezaria entre dirigir o carro de apoio e pedalar ao meu lado durante esta viagem, diz que ele e seus amigos só começaram a explorar o percurso um ano atrás, pois antes tinham medo da violência. Agora ele faz treinos intervalados aqui mais de uma vez por semana.

Considerando a descida leste do Matarredonda, parece que a própria estrada substituiu as guerrilhas como o maior obstáculo para os ciclistas. A pavimentação se alterna entre um asfalto duro como vidro e trechos superesburacados, e há placas mal colocadas indicando obras tão em cima da hora que elas se tornam mais assustadoras que a inconstante superfície. Automóveis são escassos, porém a mescla imprevisível de caminhões vacilantes e motoristas impacientes torna difícil entender o trânsito. Várias vezes desviei por pouco de um veículo para, em seguida, me dar conta de que outro carro vinha em minha direção, mal conseguindo me espremer entre os dois. Diversas galinhas confusas, cães mal-humorados e mulas que não estão nem aí para nada agravam ainda mais a situação.

Uma placa escrita à mão com os dizeres “Palacio del Zancudo” indica a entrada da fazenda que Gregg alugou para ficarmos esta noite. A partir do Matarredonda, pedalamos 35 km e descemos mais de 1.800 metros, e a estrada continua para baixo até o nível do mar na bacia do Amazonas. O ar aqui é denso, pegajoso e repleto de mosquitos. Colombianos ricos mantêm propriedades como a que alugamos, com exuberantes limoeiros, laranjeiras, cerejeiras e pés de café, onde escapam do caos de Bogotá e “recarregam as baterias”, como se diz por aí. “Você come melhor aqui, pode ficar acordado até tarde, dorme melhor”, diz o caseiro de 72 anos, Don Salamon. Com oito dias pela frente, todos com pedaladas mais longas que o “aquecimento” de hoje, o corpo começa a pedir arrego.

Foto: Gregg Bleakney

EM NENHUM OUTRO lugar a febre colombiana pelo ciclismo se revela com mais nitidez que em Bogotá nas manhãs de domingo, quando mais de 110 km das ruas normalmente congestionadas da cidade ficam restritas para veículos. Criado desde a década de 1970, esse fechamento semanal das ruas, chamado “Ciclovía”, é o modelo de todos os movimentos que promovem o uso da bicicleta como meio de transporte ao redor do mundo. Das 7h às 14h, estima-se que 2 milhões de pessoas – 25% dos habitantes da cidade – tomam as ruas a pé ou de bike para fazer exercício, dar uma volta e ir a suas cafeterias favoritas. Na manhã depois que voltamos da fazenda, eu me junto à festa, pedalando pelos bulevares sombreados de eucaliptos ao lado de mães em bicicletas compradas em lojas de departamento tentando encurralar os filhos que pedalam trançando de um lado para o outro como vaga-lumes. Uma mulher superarrumada, vestindo shorts branco curtinho e óculos de sol tipo gatinho, toca um sino onde se pode ler “Minha bicicleta é meu carro”.

Toda semana antes do Ciclovía, em uma avenida da região leste da cidade chamada Via La Calera, ciclistas se encontram antes de o sol nascer para pedalar ribanceira acima 5,8 km de um trecho chamado Patíos, que sobe 500 metros de desnível com uma inclinação média de 7%. Hernan Acevedo, que dirige a agência Pure! Colombia, especializada em turismo ciclístico, encontra comigo lá às 6h45. Uma enxurrada de ciclistas, lado a lado em grupos de três ou quatro, ataca a montanha. Um em cada dez veste a jersey preta e verde da equipe Movistar de Nairo Quintana.

Hernan e eu estabelecemos um ritmo constante Patíos acima, e ele me diz que o interesse estrangeiro pela Colômbia está aumentando. “O processo de paz é bom para os negócios”, afirma. A equipe profissional norte-americana United Healthcare veio à cidade de Medellín neste ano para um training camp. E Gregg acaba de terminar um documentário chamado Thereabouts 3, que acompanha o australiano Lachlan Morton, da equipe Dimension Data, e seu irmão, Gus, que compete pela Jelly Belly-Maxxis, ao redor do país. Ciclistas pedalam ao lado de cafeterias, onde pedem copos de suco de laranja recém-espremido e arepas de queso, um tipo de crepe de milho recheado de queijo que pode ser encontrado em todas as esquinas da Colômbia.

Na descida de volta à cidade, passo rápido ao lado de placas que me fazem brecar de descrença: “Ciclistas são heróis de civismo”; “Ciclistas são a prioridade da nossa comunidade”. Uma série completa dessas mensagens pró-bike emoldura a estrada. O homem por trás delas, e também da crescente infraestrutura para o uso da bike como meio de transporte em Bogotá, é o prefeito Enrique Peñalosa. Apesar de ser a segunda pessoa mais poderosa do país depois do presidente Juan Manuel Santos, o prefeito pedala pelas ruas de Bogotá todo domingo. Após descer o Patíos, eu giro até o apartamento dele para um encontro. Alto, com um volumoso cabelo grisalho, ele aparece vestindo uma jaqueta preta da The North Face e um capacete Kask, empurrando uma mountain bike Trek Superfly hardtail. Ele se despede de seu único e taciturno guarda-costas.

Peñalosa me guia por um tour de 8 km pelo norte de Bogotá durante o Ciclovía e fala com entusiasmo de planejamento urbano. Esta é uma parte abastada da cidade, com parques arborizados e calçadas com cafeterias movimentadas, mas os muros protegidos com espirais de arame farpado, as grades nas janelas e os ocasionais seguranças armados lembram tempos turbulentos. O fluxo de ciclistas é constante. Na maioria das bifurcações, recrutas de idade escolar, chamados guardiães, vestindo estilosos uniformes vermelhos e amarelos, direcionam o trânsito e atuam como a “cara” do Ciclovía.

Alguns ciclistas que estão passando acenam e exclamam “Alcalde!” (prefeito em espanhol), e Peñalosa para para cumprimentar e posar para selfies. Como prefeito, construiu mais de 320 km de consagradas ciclovias, que ele chama de símbolos de igualdade. “Elas demonstram que alguém com uma bicicleta de US$ 30 é igual a alguém com um carro de US$ 30 mil”, diz. Comenta aos sussurros sua ideia de proibir completamente a circulação de carros nas horas de pico – é uma declaração importante, que poderia acabar com a carreira de um político nos Estados Unidos. Neste domingo, no entanto, a torrente de ciclistas radiantes reflete o apoio do povo às ideias de Peñalosa, ou pelo menos às bicicletas.

Foto: Gregg Bleakney

BOGOTÁ E SUAS inabaláveis montanhas são apenas uma pequena parte de um país que vai até as praias do Pacífico, atravessa três ramais da Cordilheira dos Andes e chega às densas florestas da Amazônia. Quase todas as regiões têm lugares bons para pedalar, então Gregg, Julián e eu caímos na estrada para conferir. A primeira parada é Cómbita, a cidade natal de Nairo, a duas horas em direção norte, no departamento (ou província) vizinho de Boyacá. É uma típica aldeia de altiplano, com alguns coqueiros tristonhos em uma praça central abandonada e uma catedral exageradamente grande da cor de gema de ovo batida pairando debaixo das montanhas.

Nós paramos no El Punto del Sabor e pedimos o que o atendente diz que Nairo come diariamente: uma rosca com massa de ovos salpicada com açúcar chamada roscón e um café com leite para acompanhar. Mal podemos reconhecer a única loja de bikes da cidade, que é apenas uma porta aberta do outro lado da praça, com três pneus velhos pendurados. Dentro, duas bicicletas simples estão presas na parede, e componentes já maltratados enchem um mostrador coberto com um vidro rachado. O proprietário, Tito Aguilar, conta que vendeu à família de Nairo sua primeira bicicleta, uma parecida com os modelos baratos expostos na vitrine. “Nairo já não vem muito à loja”, diz o mecânico. “Mas é um cara humilde. Nunca esquece de que foi aqui que começou.” Na verdade, para decepção de sua equipe espanhola, Nairo insiste em morar e treinar em Cómbita quando não está competindo. O fator mais importante da vida diária aqui é a família, e muitos ciclistas colombianos preferem estar em casa sempre que podem.

Quando subo na minha bike, fica claro por que os ciclistas colombianos são tão bons nas montanhas. Da praça de Cómbita, a 2.780 metros de altitude, Nairo encara toda vez que sai para pedalar um paredão de 3,7 km com uma inclinação média de 6%. Logo depois que saio da cidade, um garoto alto e magricela em uma surrada Giant TCR aparece de repente da beira da estrada e começa a pedalar no mesmo ritmo que eu. Miguel Aguilar (nenhuma relação com o proprietário da loja de bike) é um promissor ciclista local de 19 anos. Ele acaba de terminar o treino e pergunta se pode pedalar conosco até sua casa no alto da colina – uma brincadeira com a qual eu me familiarizaria em breve, chamada “grude no gringo”. Ele ataca, eu acelero, nós repetimos ad nauseam. Apesar de estar sofrendo com o ar rarefeito, fico animado em aumentar o ritmo por causa das vistas para o vale e para uma massa de nuvens que se move rapidamente. No topo, Miguel ri da minha respiração ofegante, aperta minha mão e vai embora pedalando por uma trilha de terra.

A estrada com uma faixa em cada sentido sobe e desce pelo meio de amplas zonas de pasto, passando pela casa dos pais de Nairo. Um mural de 4,5 metros com duas pinturas do campeão usando as jerseys de líder do Giro d’Italia e da Vuelta a España dá para a estrada, e uma pequena loja vende tradicionais ponchos de lã, chamados ruanas, nas cores rosa do Giro e vermelha da Vuelta. Quando os moradores passam de carro, param para admirar o mural. O vendedor tira fotos para os transeuntes, e quando digo que não há lugar na parede para acrescentar uma pintura de Nairo com o amarelo de líder do Tour de France, ele me garante: “Deixamos exatamente o espaço necessário”.

Em seguida encaramos a descida Canión Peligroso. Este não é o seu nome oficial, e ela nem é uma descida perigosa, mas a pedalada era desconhecida para Gregg, então ele se deixou inspirar pelas placas de “Peligroso”, que advertem a proximidade de penhascos. Descendo quase 50 km com zero tráfico por amplas colinas que vão se fechando até um sulco de calcário, a pedalada faz a descida do primeiro dia parecer insignificante. Descer o Matarredonda foi hilariantemente divertido; o Peligroso é uma estrada monumental para a qual eu viajaria para pedalar repetidas vezes.

“Apenas os locais a conhecem”, fala Gregg, no topo, em Moniquirá, aldeia produtora de cana-de-açúcar e de café. “Nós a descobrimos a partir de uns boatos.” Ele lembra que uma grande operadora de turismo que organiza viagens de bike chegou aqui um ano atrás para fazer o reconhecimento do terreno. “O guia chegou e perguntou: “Quais são as rotas?’. Mas na Colômbia as coisas não funcionam assim”, afirma. “É um lugar inexplorado, imprevisível.”

Depois de uma refeição composta por frango assado, arroz, feijão e mandioca, acompanhada por uma jarra de suco de framboesa, subimos em direção ao sul por uma faixa de asfalto deserta e estreita, que depois de cruzar uma vegetação densa se transforma em uma estrada de terra repleta de pedras. Nos prados que nos rodeiam, vacas ossudas abocanham o capim. Gregg, Julián e eu estamos começando a subir, ainda digerindo o almoço, quando um homem atarracado pedalando uma mountain bike bufa atrás de nós. Ele gira um pouco na nossa velocidade e depois ataca. Ninguém disse a Daniel Hurtado, 56, que as mountain bikes aro 26 já estão obsoletas, e quando chegamos novamente à sua roda, ele sorri, encabulado. Quando eu elogio seu condicionamento, ele diz: “Eu não pedalei durante duas décadas por causa dos meus filhos. Eu costumava ser realmente rápido”.

Depois de quase uma hora, Daniel abandona o grupo, e nós pedalamos mais outra hora, subindo por estradinhas esburacadas até Villa Leyva, a 2.100 metros de altitude. Com fachadas de cal, arcos de arenito e telhados de telhas avermelhadas, é o tipo de lugar deslumbrante, que deveria estar repleto de turistas. No entanto, na Colômbia, o vilarejo ainda é mais ou menos como quando foi fundado, em 1572. Na praça principal, coberta por paralelepípedos tão grandes que descemos da bike e caminhamos, meninas de uniforme escolar conversam durante o caminho de volta à casa, enquanto gaúchos usando ruanas e chapéus de caubói se sentam nos terraços e bebem aguardente de copos de cerâmica. O ruído das charretes com mulas preenche o ar, e nós nos jogamos na fonte central, pedimos cervejas em um bar na esquina da praça e brindamos o dia.

Foto: Gregg Bleakney

SE OS CICLISTAS conhecem algo mais da Colômbia além de seus profissionais, é provável que seja o Alto de Letras, a subida por estrada mais longa do mundo. Começando a 492 metros e acabando a 3.633 metros de altitude, a estrada sobe 80 km com uma inclinação média de 4% até o topo do passo Letras. As míticas subidas europeias como o Monte Ventoux, o Alpe d’Huez, o Col d’Izoard e o Gavia pareceriam lombadas ao lado do Letras. Quando planejei esta viagem, previ que o Alto de Letras seria a etapa rainha, o lugar onde finalmente compreenderia a magnitude do ciclismo colombiano.

Mas desde minha chegada, Gregg e Julián têm falado de outro desafio ainda maior. Ao que parece, há uma estrada secundária, o antigo passo Letras, que é mais longa, inclinada e alta, e acaba com 40 km de terra. Apesar de curioso, também estou apreensivo e quase não lhes dou ouvidos. Então Gregg me mostra o Thereabouts 3, e há uma cena em que Gus Morton, logo depois de escalar o antigo Letras, afirma: “Esses caras que pedalam o Letras novo são uns impostores. Não é nem mesmo a maior escalada do mundo”. Malditos australianos e seus ataques de menosprezo. Sinto-me pressionado, e não apenas pela condição atmosférica: onde está a glória de subir a segunda maior escalada do mundo quando você tem a possibilidade de subir a maior?

Para chegar lá, dirigimos três horas em direção sudoeste, de Villa Leyva, depois subimos no selim para uma imersão de 80 km da cidade de Facatativá até o rio Magdalena. Três ramais dos Andes atravessam a Colômbia de norte a sul, e nós estamos pedalando pelo extremo oeste da cordilheira mais a leste, a Cordilheira Oriental. Amanhã, escalaremos a Cordilheira Central.

Santuários católicos improvisados erguidos por viajantes enfeitam as beiradas das estradas colombianas. Meu favorito está nesta descida: uma Virgem Maria se aconchegando dentro de um pneu de trator pintado de branco. Onde quer que você vá, há avisos inesperados de estradas em construção que acabam fazendo motoristas esperarem durante horas. Os trabalhadores costumam deixar as bikes passarem se você conversar com eles – ou agir como um norte-americano que não está entendendo nada –, mas sempre sob sua responsabilidade. Em Boyacá, os operários de uma escavação lançavam rochas em cima da estrada e simplesmente disseram que eu podia pedalar; as rochas caíam tão perto que senti o chão tremer. Não há nenhum drama desse tipo no último dia, e desfrutamos dos 32 km em uma descida cheia de curvas fechadas e sem carros. Ao longo do rio Magdalena, cinza e melancólico como uma pista de aterrissagem, o anoitecer atrai grilos cantantes, sapos coaxantes e um eletrizante zumbido de cigarras que compõem uma estranha trilha sonora durante os 25 km finais.

Embora o turismo na Colômbia tenha passado por um enorme crescimento – um salto de 87% em 2006 –, ainda está engatinhando. Em 2015, o país recebeu menos de 3 milhões de visitantes, bem pouco em comparação ao México, que atraiu 32 milhões. Em cidades do interior como Lérida, na base do antigo Letras, a oferta de acomodação é escassa. Nossa única opção é um motel no qual os quartos são alugados por hora e incluem vagas cobertas de estacionamento. Julián diz que há cada vez mais lugares assim porque os jovens não saem de casa até depois dos 30 anos e precisam de momentos longe dos olhos intrometidos dos pais. A ausência de hotéis de padrão internacional ao redor do país tem sido um impedimento para que agências gringas de viagens de bike se instalem na Colômbia – mas o quarto modernoso com uma garagem enorme serviu superbem para eu espalhar minha bike e meus equipamentos.

Julián e eu começamos a pedalar às 4h da madrugada para evitar tempestades e frio lá em cima, o que parece ridículo com o ar tão denso da bacia do Magdalena. Gregg vai nos acompanhar de carro. Em outras situações, Julián, que tem a cabeça repleta de selvagens dreadlocks, costuma ser extrovertido, mas não se trata de uma pessoa madrugadora, por isso subimos em silêncio, com os faróis do carro nos transformando em marionetes com sombras desconjuntadas sobre a cortina de selva.

Quando o sol nasceu, tínhamos subido durante duas horas para chegar à primeira das duas aldeias desta ascensão, El Líbano, onde paramos para comer um bolo ainda quente recheado com geleia de goiaba. A escalada que costumo fazer no Novo México – a Ski Santa Fe – sobe 25,7 km e termina a mais de 3.000 metros de altitude, então estou acostumado com montanhas grandes. Assusta perceber que já estou subindo há um tempo equivalente ao dobro do que levo para fazer aquela ribanceira, e ainda não fizemos nem um quarto do caminho até o topo do antigo Letras. A boa notícia: não há uma só nuvem no céu.

A subida aumenta, e o avanço é marcado pelos diferentes tipos de agricultura: primeiro pés de café, depois frutas típicas como lulos e tamarillos e, finalmente, batatas e mandiocas. Dos campos, lavradores acenam e gritam “Fuerza!” ou “Venga! Venga!”. Homens velhos se apoiam em cercas capengas na frente de fazendas de laticínios, esperando o caminhão que passa diariamente para recolher os recipientes de aço cheios de leite fresco. Com uma inclinação de 5%, a subida nunca é muito íngreme, mas sua uniformidade entorpece. A vista de todas as esquinas são mais e mais curvas fechadas serpenteando em direção ao horizonte. É como pedalar em uma escada de um quadro do holandês M. C. Escher.

Outras duas horas nos levam até Murillo, a 2.950 metros, uma cidade com fachadas sem graça no fim do asfalto, onde nos energizamos com aguapanela. Essa infusão de rapadura em canecas com pedaços de queijo salgado e derretido é deliciosa. “É o ‘dopping’ de Nairo”, conta Julián. “Quando eles o examinam, isto é tudo o que podem encontrar no seu sangue.”

Amigo de um amigo, o ex-ciclista profissional César Grajales, 44, pedalou para encontrar conosco vindo de Manizales, no outro lado do passo. César, que competiu como profissional durante duas décadas e provavelmente é mais conhecido por superar Lance Armstrong, Chris Horner e alguns ciclistas europeus de elite para vencer a etapa rainha do Tour da Geórgia de 2004, insiste em nos encontrar quando fica sabendo que estou na Colômbia. “Estou muito feliz com sua vinda ao meu país”, diz. Como muitos escaladores colombianos, sua constituição lembra a de uma televisão dos anos 1950, com pernas espichadas e um tronco quadrado que armazena pulmões enormes. Ele e sua esposa norte-americana moram em Lyons, no Colorado (EUA), mas ele sempre passa alguns meses do ano na Colômbia, onde, ele explica, “pode-se pedalar como em nenhum outro lugar”. Esta é a primeira vez de César no antigo Letras, e ele elogia o fato de ir pedalando próximo ao Nevado del Ruiz. A nuvem em formato de cogumelo do vulcão ativo é visível desde Murillo. “Vaca sagrada!”, exclama César, deixando de lado sua atitude de ciclista pró e sério para revelar com espontaneidade seu entusiasmo. “Lá em cima é incrível. Mas a estrada é ruim. Espero que não chova.” Duas horas e 600 metros verticais mais tarde, o céu limpo matutino abre caminho para nuvens pesadas e chuva fina. Nós paramos para colocar os manguitos. A neblina nos envolve, a chuva aperta. “Vaca sagrada!”, diz César novamente. “Essa é a pior coisa que podia acontecer!” Não sei se é para rir ou chorar.

César é o único colombiano que não me ataca. Mas ele marca um ritmo implacável, atravessando campos minados com pedras do tamanho de cabeças de bebê e desviando de poças grandes como piscinas. Jorros de água escoam pela estrada, e nós derrapamos sobre correntes que chegam até os cubos de nossas rodas e entre frailejónes, plantas endêmicas da região da família dos girassóis que se chamam assim porque se parecem com as roupas dos monges (fraile, em espanhol). Eu não sou católico, mas rezo pela benevolência deles. Minhas pernas estão começando a ficar duras e com câimbras, e a comida que poderia controlar a fadiga está fora do meu alcance, atrás do colete e da jaqueta impermeável. É o tipo de dia que me instiga a entrar na van. Mas aqui, apesar do frio que endurece meus ombros e da sujeira da estrada que invade meus olhos, quero que o momento dure. Estas montanhas criaram uma geração com os melhores ciclistas do mundo e uma paixão nacional por pedalar como nunca vi em lugar nenhum.

Nove horas depois de começarmos, minhas mãos e meus pés estão dormentes de tanto frio, e nós nos arrastamos para dentro do Hotel Termales de Ruiz, um resort no topo do passo antigo Letras com quartos modernos e fontes termais que dizem ter propriedades curativas. Demora uma hora nas fontes termais e várias aguapanelas até que eu consiga pensar sobre o que acabamos de fazer. Não é o tipo de dia que você repetiria, pelo menos com essas condições tão extremas, mas é o tipo de dia que você gostaria de contar e se vangloriar para sempre. “Vaca sagrada!”, diz César, flutuando de costas sobre as águas fumegantes e balançando os dedos das mãos e dos pés. “Está vendo como as coisas são duras aqui! Este lugar te deixa forte. A questão não é se nós, colombianos, seríamos ou não bem-sucedidos no ciclismo. Mas, sim, quando.” (E, para ficar claro, qualquer um que suba o antigo Letras em um dia claro de sol é um impostor.)

Foto: Gregg Bleakney

DEPOIS DE OITO dias de pedalada, a segunda maior cidade da Colômbia, Medellín, é provavelmente o lugar errado para relaxar, mas de qualquer forma ainda não estou pronto para partir. Imortalizada pelo mandachuva do tráfico de cocaína Pablo Escobar e malafamada atualmente como um destino de festas, Medellín é uma cidade de gente bonita, vida noturna intensa e escaladas de bike em asfalto macio. No sábado à noite, o bairro mais glamoroso da cidade, a Zona Rosa, está vibrando ao ritmo de cúmbia e música eletrônica. Casais bronzeados saltam de bar em bar até chegar ao Parque Lineal la Presidenta, onde bebericam coquetéis em copos empapados de suor e dançam ao ritmo local. Essa atmosfera sensual é uma conquista recente da cidade – há apenas duas décadas sicários dos cartéis do tráfico assassinavam policiais e os moradores morriam de medo das ruas.

“Muita gente associa a Colômbia ao tráfico de drogas e à violência. Mas isso é passado”, conta Tomás Molina, proprietário da agência Colombia Cycling, ao lado de uma garrafa de aguardente no terraço de uma cafeteria lotada. Sua empresa organiza tours e training camps para ciclistas. “Eu quero trazer as pessoas aqui porque acho que elas ficarão impressionadas.” Todo ciclista colombiano te dirá que sua região tem o melhor ciclismo do país – acesso rápido em Bogotá, escaladas longas em Boyacá, clima variado em Manizales –, mas vindo de um paisa, um nativo de Medellín e dos arredores da província de Antioquia, provavelmente seja verdade.

Na manhã seguinte, a escalada de 11 km de Las Palmas, a resposta de Medellín ao Patíos de Bogotá, é realmente extraordinária. Com inclinação média de 7%, ela é mais inclinada que qualquer outra subida que conheci até agora aqui e está repleta de ciclistas com bermuda e camiseta combinando e bikes de carbono importadas. No topo, Tomás me encontra para tomar café, e depois saímos pedalando pelo asfalto liso como manteiga. Estradinhas estreitas se contorcem por montanhas baixas e inclinadas conhecidas aqui como repechos. Em comparação com o mau estado das estradas que vi no resto do país, esta poderia estar na França ou Itália, exceto pelos cavalos amarrados nas margens, pelas praças empedradas das aldeias e pelas arepas de milhos das paradas para um lanche.

O verde cintilante dos pastos, a fartura das comidas que te dão energia para chegar até a cidade seguinte, as montanhas que você quase não pode subir pedalando – entendo por que Nairo prefere pedalar aqui que no exterior. É uma das paisagens mais formidáveis e suntuosas onde já pedalei. Voltaria com minha bike bem antes de ir novamente à Europa.

O desafio da Colômbia agora, tanto como país quanto como destino, é o fato de as memórias sobreviverem ao progresso. No outono de 2016, quando o presidente Juan Manuel Santos criou um referendo para a aprovação popular do acordo de paz, os colombianos o rejeitaram por uma pequena diferença. O voto não era obrigatório, e o governo seguiu em frente com a reconciliação, mas a derrota mostra a importância dos desafios do país. Se os colombianos ainda não são capazes de esquecer o passado de violência, eu me pergunto quando os visitantes estrangeiros o farão. Pedalar aqui é gratificante, e o ciclismo tem um potencial enorme, mas ainda é uma área jovem e pouco desenvolvida. “Este é o maior processo de paz que já tivemos”, diz Tomás. “É hora de ir adiante.” Depois da parada, Tomás tagarela sobre os pratos colombianos que ainda tenho que experimentar e sobre as pedaladas em Antioquia que ele quer me mostrar. Então, no próximo repecho, ele sorri, olha para frente e ataca.

Vaca sagrada! Eu coloco uma marcha mais pesada, aperto os pedais e colo de novo em sua roda. Pode ser que eu tenha que perseguir a Colômbia pelo resto da minha vida.

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A empresa Colombia Cycling com sede em Medellín é especializada em viagens de pedais longos e escaladas duras incluindo training camps de vários dias no inverno O proprietário Tomás Molina é nativo da região, então todas as pedaladas passam por aldeias tranquilas e estradas de interior que de outra forma você dificilmente conheceria. Além de circuitos culturais por algumas das principais atrações do país incluindo Cartagena e o Parque Nacional Tayrona a Pure! Colombia Travel oferece uma ampla variedade de rolês de bike para quem procura uma imersão tanto cultural quanto ciclística.