Como dar dicas de bike sem ser um chato

Dar conselhos de bike para ajudar é uma forma de arte — veja como não ser o ciclochato com boas intenções

Ajuda é bom, quando não atrapalha. Na dúvida, o melhor é perguntar se ela é bem-vinda

Por Verônica Mambrini, com Caitlin Giddings

O cara na sua frente está com o selim tão baixo que dá dor no joelho só de olhar. O capacete da moça que acabou de entrar na ciclovia está escorregando de tão folgado. passa uma bike com a corrente rangendo de tão seca. E lá está você, que já passou por essas coisas em algum momento da vida e está cheio de sabedoria para distribuir que poderiam resolver os cicloproblemas da humanidade.

E aí, é hora de metralhar suas dicas para galera?

Pode ser uma boa ajudar as pessoas – mas tem um jeitinho certo para isso. Se você achar o tom, pode ajudar de verdade, fazer novos amigos e espalhar o senso de fraternidade universal entre pedalantes.

Se você vacilar, pode acabar sendo até ofensivo, como se a pessoa não fosse capaz de usar corretamente a própria bike, ou fazer com que ela se sinta inadequada e desajustada. E pode tomar até um tapa com luva de pelica de volta. “Já ouvi de um cara, na metade do Caminho da Fé, que a minha bicicleta não era apropriada e que o ideal era uma igual a dele. Expliquei que a minha era perfeita afinal; estávamos no mesmo ponto com a diferença que eu ia sozinha e carregando as minhas coisas. E ele tava no pelote com carro de apoio!”, conta a jornalista Adriana Marmo, do blog Vento na Saia.

Mas não tema: não é tão difícil assim dar aquela dica sem ser chato. O principal ingrediente é não fazer julgamentos apressados.

O que não fazer

De cara, não julgue pelas aparências. Aquele senhor de 60 anos indo de Caloi 10 para o supermercado pode ser um atleta aposentado se recuperando de uma lesão. Ou a moça de salto toda trabalhada no cycle chic pode ser um monstro do enduro nos fins de semana. É mais divertido imaginar as possibilidade do que fazer presunções. Depois de dois anos praticamente só usando uma bike fixa, o advogado Guilherme Moraes da Silva estava com uma mountain bike quando outro fixeiro emparelhou no semáforo. “Ele começou a falar da da agilidade das fixas, das boas formas de conseguir dar skids. Eu me resignei a ouvir. Mal sabia ele que, além de o achar um mala, eu já havia pedalado nos últimos anos alguns milhares de quilômetros na minha fixa”, conta.

 

Pode ser uma boa dar dicas de mecânica se de fato a pessoa não tiver ainda muita intimidade com a bike. Um “parece que a corrente está meio seca… Quando você passou óleo da última vez?” pode cair bem. Mas evite a todo custo de intrometer na rotina de treino da pessoa e dizer que ela deveria treinar mais de um jeito ou de outro. Não tem nada pior do que estar num dia ruim numa prova e alguém chegar e dizer “você devia fazer mais treinos de tiro”, ou “você precisa treinar mais horas por semana para esse tipo de prova”. A maioria dos ciclistas amadores só não treina mais por falta de tempo, e se a vida da pessoa não permite mais dedicação no momento, esse tipo de comentário soa extremamente cruel. Até falar de upgrades na bike pode soar arrogante: será que a pessoa não prefere cromoly por gosto pessoal em vez de carbono?

Em rolês em grupos, evite fazer comentários condescendentes com alguém que está ralando para chegar no fim de uma subida ou que tomou um rola, principalmente se a pessoa parece estar tranquila com a situação. Frases como “Ah, todo mundo já foi iniciante um dia” são mais babacas que bacanas, principalmente se você falar algo assim para alguém que tem décadas de experiência. Que tal trocar esse tipo de comentário por um “valeu pelo rolê” ou “bora tomar uma cerveja”?

Mulheres são vítimas potenciais do mala bem-intencionado. “Sei que não é por maldade e que fazem com boa intenção, mas sempre que vou devolver a bike compartilhada e tem homem perto eles se oferecem para travar. Incomoda a presunção de que mulher é tão frágil que nem levantar uma bike 10cm do chão consegue”, conta a ciclista Christiane Mise.

Até porque é impossível saber só olhando se alguém sabe mecânica ou se pedala bem. “Já aconteceu de ver uma pessoa parada, precisando uma chave 15 pra tirar roda. Ofereci ajuda e tomei como resposta: mulher nunca ajuda nessas horas, não sabe fazer nada e nem tem ferramentas”, conta Jaqueline Frutuoso Vieira, que por acaso tinha kit completo para trocar pneu, incluindo chave 15, e tinha acabado de fazer curso de mecânica básica. “Olhei pro cara e falei – se ferrou, eu tenho chave 15 mas não empresto mais. Torci pra ele ter empurrado até em casa”, ri a ciclista.

Não julgar é o primeiro passo para ajudar outros ciclistas

O que fazer

Se você perceber que alguém está claramente colocando a própria vida ou de outra pessoa em risco com algum comportamento imprudente ou problema na bike não percebido, vale interferir na questão (isso não se aplica ao uso de capacete, que é uma questão totalmente pessoal e não há obrigatoriedade no uso pelo Código de Trânsito Brasileiro). Mas sempre considere que você não sabe o que está acontecendo e pode ser que a pessoa tenha algum motivo para estar com selim tão baixo ou pneu quase vazio naquele dia.

Não seja impositivo. Dar um toque para alguém quer dizer que no fim, a decisão de seguir seu conselho é só da pessoa. Se ela não quer usar capacete ou mexer no fit da bike, a decisão é dela. Um jeito de não ser invasivo é algo mais ou menos assim: “Não sei se você já testou, mas quando eu subi uns 2 centímetros o selim, meu joelho parou de doer”. O tom faz toda a diferença. Ser tranquilo e estar de boa é melhor do que um tom professoral de quem está ensinando o jeito certo.

Perguntar gentilmente não ofende. A ciclista Ana Fediczko já aproveitou para ensinar outras pessoas a trocar de marcha na rua. “Uma moça de dobrável estava girando na mais leve sem sair do lugar. Parei do lado e perguntei se ela gostava de pedalar daquele jeito. Como ela disse que não, vi que ela não sabia mexer na catraca da frente. Ensinei rapidinho. Um senhor numa subida estava numa marcha pesada; sugeri outra e ele disse que não sabia nem que dava, que ninguém tinha ensinado”.

Se você está pedalando com alguém pela primeira vez, tente fazer amizade antes de sair disparando conselhos. Puxe um papo mais tranquilo antes de dar um toque sobre o pé no meio do pedal. Se não, mesmo que a intenção seja boa, o efeito é o contrário de dar boas-vindas.

No caso de pneu furado ou problema mecânico, pergunte se a pessoa precisa de ajuda. Se ela recusar, tudo bem. Não tem nada mais desagradável do que alguém coberto de boa intenção tomar a sua bike da sua mão e assumir o controle sem você ter pedido – especialmente se o problema for na bike de uma mulher. Mesmo ficar insistindo na ajuda ou “supervisionando”o trabalho da pessoa, além de distrair, é condescendente e irritante. Para não ser esse chato, Guilherme redobra o cuidado. “Primeiro pergunto se ela precisa de ajuda. Depois dou a letra de como ela pode fazer sozinha. Só então me ofereço para ajudar. Todo cuidado é pouco para que eu não seja um mala também.”

Claro, a coisa toda muda de figura se alguém pedir ajuda. Aí está totalmente liberado dar sua opinião, só tente não colocar as coisas como regras absolutas, já que existe mais de uma maneira certa de fazer tudo na vida. E ouça o que o outro está dizendo: se a pessoa está interessada e curiosa, ela vai pedir ajuda e querer saber mais. É bem mais fácil fazer amizade quando a conversa é uma via de mão dupla.

 

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