Conheça os alleycats: driblando o caos no meio do trânsito

Mais alucinante e underground cena competitiva do universo das bikes, as provas de alleycat têm ganhado espaço nas ruas do Brasil, criando campeões improváveis e acendendo polêmicas por onde passam

O bike messenger e organizador de alleycats carioca Thiago Gonçalves dá um sprint em frente à Praça do Ciclista, no Rio de Janeiro

Por Bruno Romano
Fotos por Thiago Diz

O TRÂNSITO caótico das grandes cidades também pode ser um imenso parque de diversões. É com essa visão emblemática que uma modalidade bem underground sobre duas rodas tem chamado a atenção nas ruas brasileiras: as provas tipo alleycat. Motivo de orgulho e objeto de desejo de um crescente “pelotão” de ciclistas urbanos, muitos deles bike messengers e/ou apaixonados por bikes fixas, essas competições não oficiais ainda são um tanto desconhecidas por grande parte dos ciclistas. Ao ganhar força nos últimos anos, no entanto, as provas vêm agitando os bastidores de quem vive o assunto no dia a dia, ajudando a provocar reflexões sobre uma ampla gama de polêmicos temas que envolvem bicicleta e cidade.

No último mês de abril, foi a vez de o Rio de Janeiro organizar mais uma alleycat, com seu pega alucinante de habilidosos ciclistas amadores, que precisam pedalar a todo vapor, tirando fina de veículos e rasgando o asfalto, para percorrer um trecho específico e chegar ao ponto final. Em eventos como o Bike Selfie Alleycat, quem se destaca costuma combinar ótima capacidade de navegação, estratégia, alta habilidade e grande resistência física. Ter pernas e cabeça funcionando em parceria é a chave para o sucesso em um evento desse tipo. Só na capital fluminense, para pegar como exemplo um grande centro nacional, o movimento já se espalhou via Alleypussycats, um alleycay só para mulheres, o Bike Scavenger Hunt, um evento em estilo gincana, além do Pista Monstro e do Nightcats, precursores do Bike Selfie Alleycat.

Geralmente, participantes pedalam até pontos de controle, ou “checkpoints” (veja mais no quadro desta reportagem), espalhados pelas ruas, até que, de parada em parada, alcançam a chegada. O percurso em si costuma ficar por conta de cada um. Nesse caso, dominar o ambiente e seus atalhos é um dos diferenciais para se dar bem. Mas, em um estilão superinformal, os alleycats não têm regras ou formato definidos que sirvam para todos – há edições em que vence quem chega mais rápido do ponto A até o B; e outras nas quais o último colocado é o grande campeão, recebendo um prêmio simbólico – quase sempre algo ligado a zoação.

“De início, isso tudo não me parecia uma boa ideia”, conta o carioca Thiago Gonçalves, 31, organizador do Bike Selfie Alleycat. Ele fundou recentemente uma empresa de entregas, a Bikers, na qual atua como diretor e ciclista-mensageiro. “Para mim, o formato dos alleycats era uma loucura total, achava que as pessoas poderiam se machucar feio”, conta ele, que descreve a sua rotina como “um alleycat por dia” em meio a bairros e cruzamentos da Cidade Maravilhosa. Depois de se interessar por ciclismo frequentando a Massa Crítica carioca – reunião ativista em prol da segurança e do uso da bicicleta em centros urbanos, que rola em vários cantos do mundo –, Thiago passou a não se identificar mais com o movimento. Resolveu, então, buscar outro caminho.

Ao procurar mais gente para realizar encontros frequentes e rolês em alta velocidade, acabou criando o Night Ride RJ, um grupo espontâneo e anárquico que se reúne semanalmente para pedaladas noturnas pelo Rio de Janeiro. Ao unir várias cenas e diferentes tipos de ciclistas, o coletivo virou terreno fértil para novas ideias, transformando- se em um berço dos alleycats na capital fluminense. Na última década, outras importantes cidades do país receberam eventos do tipo, incluindo uma edição nas FixOlimpíadas, que promove um encontro anual de fixeiros Brasil afora e costuma sempre contar com um alleycat abrindo os trabalhos. É exatamente no único cenário onde uma competição assim faz sentido – as grandes cidades – que as experiências têm despertado uma nova relação com as magrelas. “Além dos benefícios que a bike me traz à saúde, passei a enxergá-la como um poderoso meio de exploração do meu entorno”, afirma Thiago. “Participar de um alleycat também está ligado a ter um pouco da cidade para si, retomando o espaço público.”

Um sentimento semelhante atrai competidores de todo o mundo para a Monster Track, disputa anual de alleycat realizada em Nova York (EUA), berço desse movimento, geralmente no mês de março. Com status de Copa do Mundo no assunto, ainda que se mantenha na ilegalidade, o evento coloca lado a lado ciclistas de vários continentes, competindo obrigatoriamente em bikes fixas e sem freio – foi o Monster Track, aliás, que inspirou o Pista Monstro carioca. Para Chris Thormann, nativo de Nova York e duas vezes campeão da prova, quando a corrida começa não sobra espaço para se pensar em mais nada, apenas na direção a seguir. “Cada quadra da cidade vira uma aventura”, resume Chris, um dos fanáticos pela competição, criada por dois bike messengers locais no ano de 2000.

O fenômeno havia surgido não muito longe dali, mais especificamente na cidade de Toronto, no Canadá. Durante a década de 1980, um coletivo chamado Back Alley Boys criou uma corrida noturna no meio dos carros. A expressão “alleycat” apareceu em um pôster promocional da prova e acabou virando sinônimo desse tipo de competição. Porém o assunto ganhou repercussão mundial com a chegada do norte-americano Lucas Brunelle à cena. Diretor do filme Line of Sight, de 2012, Lucas foi pioneiro em trazer uma perspectiva de filmagem em primeira pessoa, com câmeras presas na bike e no capacete, reunindo experiências de tirar o fôlego em cidades como Berlim, Boston, Dublin, Tóquio e a própria Nova York.

“WAVE” É A PALAVRA preferida de Lucas para descrever o estilo de pedal que melhor representa um alleycat. É como se o ciclista fosse capaz de seguir o rumo em águas turbulentas, driblando obstáculos pelo caminho e deixando a bike fluir em um ritmo único. “Quando você pedala dessa forma, seus hormônios ajudam a criar um enorme senso de percepção”, explicou ele em uma recente entrevista à Bicycling. Ao registrar o que isso significa de dentro de suas próprias corridas, ele deu visibilidade planetária aos alleycats – e começou a somar milhares de fãs, de um lado, e um número proporcional de críticos ferrenhos, do outro. “Todos nós fazemos escolhas e corremos riscos na vida”, observa. “Minha mensagem é simples: você pode viver de acordo com o que acredita”, defende o biker, que já foi do BMX na infância, competidor profissional de estrada na adolescência e entregador no começo da vida adulta.

A tal onda de Lucas despertou pessoas em várias regiões do mundo. É o caso do paulista Tom Cox, que há mais de uma década trocou cenas de vídeos e mensagens com o norte-americano sobre a cena que começava a ganhar forma. “Foi divertido e gratificante na época, até porque nossas intenções eram as mesmas. Com os vídeos pretendíamos mostrar a realidade das corridas e colocar os espectadores dentro delas”, recorda Tom, hoje com 39 anos, cuja vida é totalmente dedicada às bicicletas (ele tem sua própria marca de bikes customizadas, a Bornia & Cox Cycles).

Em 2004, ele fundou o Atravecity, um inovador evento no país no estilo alleycat – ele, aliás, descobriu só muito depois que a prova se enquadrava na tal “modalidade”. Iniciado em São Paulo, o modelo segue firme desde então e já se espalhou por mais quatro estados em parcerias diretas, atingindo o dobro desse número em eventos indiretos, inspirados no original, alguns deles autorizados por entidades locais, outros não. No Atravecity, duplas de ciclistas precisam desvendar charadas cujas respostas estão espalhadas por vários cantos da cidade.

“É o tipo de rolê que poucas pessoas estão dispostas a organizar, pois implica em colocar a ‘cabeça a prêmio’ em nome de um estilo de vida”, destaca Tom. Em seu evento, não participam apenas bikes fixas, e qualquer um pode competir.

Longe dos holofotes das grandes competições, com premiações mais modestas e inscrições em conta, os alleycats, na prática, têm aproximado pessoas. Por trás da diversão, os organizadores levantam justamente as bandeiras do incentivo e da difusão do espaço da bicicleta nas cidades, mesmo que seja sem o consentimento do poder público.

Abecedário das ruas

A linguagem e os termos mais comuns da cena

Carimbo
: Será usado nos checkpoints para provar a sua passagem.
Manifesto: Um guia de pistas/ dicas para os pontos de parada da prova. Serve de base para cada participante traçar o seu trajeto.
Pontos de controle (PC, ou checkpoints): Algum lugar da cidade onde a passagem será obrigatória. Ali, um integrante da organização fica de prontidão. Em alguns casos, as dicas estão espalhadas pelos checkpoints.
Skitching: Termo em inglês que se refere a segurar em um veículo em movimento para pegar “embalo”. É comum entre ciclistas experientes, ainda que ilegal, perigoso e pouco recomendado.
Spoke card: É o seu número de corrida, normalmente feito com o logo da prova em um formato que permite encaixá-lo entre os aros da roda.

Vai encarar?

O que você precisa saber antes de embarcar na crescente onda das provas informais de alleycat
> Não há calendários fixos e regras oficiais.
> Para descobrir um alleycat, aproxime-se da sua comunidade local de ciclistas.
> Competir no trânsito envolve riscos. Saiba bem quais são os seus limites.
> Não se intimide com a aparente rebeldia da cena: os participantes costumam ser receptivos e amigáveis com os novatos.
> Alguns eventos exigem bikes fixas, porém a maioria é aberta a qualquer tipo de magrela.
> Além da bike e de acessórios de pedal, é bom carregar celular, mapa (impresso ou digital), dinheiro, água e comida.

*Matéria publicada originalmente na edição #11 da revista Bicycling, de julho/ agosto de 2017

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