Corrida maluca: o Atravecity é uma prova urbana com regras improváveis

Nossa repórter sentiu na pele a adrenalina da Atravecity, prova de bike urbana mais alucinante e imprevisível de São Paulo – e, de quebra, ficou com o topo do pódio

Competidores leem charadas que conduzem a competição no centro histórico paulistano

Por Fernanda Beck
Fotos de Alírio de Castro

Bicicletas dominam o centro de São Paulo na tarde de sábado, dia 28 de maio. A “invasão” tem um bom motivo: o Bicicultura, evento de mobilidade urbana e promoção da vida sobre duas rodas que movimenta a cidade. Oficinas, palestras, apresentações e competições de bicicleta rolam em vários espaços espalhados pela região. Nesse cenário, bem em frente ao Teatro Municipal, começa a movimentação da 16ª edição do Atravecity. Inserida pela primeira vez em um contexto maior, essa singular corrida de bikes recebe ali as inscrições de seus competidores. Desde 2004, a prova desbrava as ruas de São Paulo, promovendo uma disputa de velocidade, garra e estratégia entre as duplas.

Logo na largada, dois ciclistas (independentemente do sexo) recebem a primeira “pista”, que a leva para a segunda e assim por diante. O percurso é livre. A única coisa que importa é passar por todos os pontos de controle (ou PCS), não importa a ordem. Como já havia participado de um Atravecity, no fim de 2014, estava ansiosa para pedalar o meu segundo. Minha dupla seria novamente meu amigo Gustavo Meyer, bike messenger que pedala muito e manja tudo dos caminhos – o que seria muito favorável para mim, que não sou tão rápida na bike e me considero uma perdida, mesmo na minha própria cidade.

Da primeira vez que participamos, em uma noite chuvosa, muitas duplas desistiram em cima da hora. Eu andava treinando um pouco de ciclismo, o que nos ajudou a ficarmos com a medalha de prata. Mas, desta vez, as condições não eram tão favoráveis. Prova marcada para a tarde, mais gente competindo e chão totalmente seco. Sem falar que eu já não pedalo tanto como naquela época. Convenci o Gu, mesmo assim, a embarcar nessa comigo. E lá fomos nós em direção ao centro da cidade.

A ideia original de organizar o Atravecity foi do paulistano Tom Cox, de 41 anos, um dos sócios da Bornia & Cox Cycles, oficina que fabrica quadros sob encomenda. Junto com alguns amigos, Tom decidiu criar um evento que, para ele, nada mais era do que uma celebração a todos que viviam a cidade em cima da bike. Sem saber, ele dava luz a sua própria versão de um alleycat (competições urbanas, sem paralisação do trânsito e com regras “maleáveis”). “Não achávamos que estávamos fazendo nada novo, pois aquilo já era nosso estilo de vida”, diz Tom. “O que queríamos era incentivar, divulgar e proteger o lugar das bicicletas na cidade”, explica.

Participantes do Atravecity se concentram na frente do Teatro Municipal, decifram dicas e “voam”pelo centro de São Paulo

O Atravecity 2016 contava com o próprio centro paulistano como fio condutor de suas charadas. A Praça da Sé, o Pátio do Colégio e a Pinacoteca figuravam como algumas das soluções dos enigmas. “As dicas são um mergulho pela história de São Paulo”, indicou Tom, antes de gritar mais algumas instruções do alto da escadaria do Teatro Municipal. A largada estava prevista para as 16 horas, mas aconteceu mais perto das 17 horas, no melhor estilo Atravecity. As 27 duplas inscritas teriam de passar por 12 pontos de controle antes de retornar ao teatro. “O legal do Atravecity é que não basta pedalar rápido, tem que saber decifrar a localização de cada PC”, diz o professor de inglês Ricardo Bruns, 36, que estava disputando a corrida pela quarta vez. “E, mais importante que isso, os participantes reafirmam que é possível chegar a todos os pontos usando somente uma bicicleta”, completa.

Um celular com internet acabou sendo uma arma quase indispensável para levar a melhor na corrida, já que as dicas estavam especialmente nebulosas. “No verso do cartão da prova com o número de vocês, está o telefone da organização do evento e do Samu. Espero que vocês não tenham de usar nenhum deles”, disse Tom, pouco antes de jogar para o ar as filipetas de papel com as instruções para chegar ao primeiro PC. Pegamos um dos papeizinhos, lemos a dica e já disparamos na pedalada. Muitas das duplas que participam do Atravecity se divertem mais com a parte da “caça ao tesouro” e fazem a prova em um ritmo tranquilo. Nós, no entanto, fomos para correr.

Chegamos a todos os postos com pressa, exigindo a próxima dica, e perguntando quantas duplas já tinham passado por ali para compararmos nosso progresso com o dos outros competidores. Trabalhávamos rápido para desvendar logo a charada e decidir que caminho tomar até o próximo ponto. Nos quatro primeiros PCs, estávamos entre as cinco primeiras duplas. A caminho do quinto, no entanto, as outras equipes desse “pelotão de frente” cometeram um erro: interpretaram mal o texto da charadas e acabaram no lugar errado. Nós seguimos para a Estação da Luz, o local correto, e solidificamos nosso lugar na dianteira. Acontece que, ali na hora, não dá para saber. Como cada um faz seu trajeto, é impossível ter certeza em que colocação você está.

As regras do Atravecity simplesmente fogem às regras de tão incomuns

O Atravecity é uma prova cujas regras simplesmente fogem às regras: a inscrição é feita na hora, pode-se usar qualquer bike e os números de identificação são feitos em pedaços de antigos raios-X. Também é permitido conversar sobre o percurso, dar dicas para outras duplas, usar o celular e até pedir ajuda externa, assim como não há contra indicações para formar alianças ou seguir outros competidores. Basicamente, após a largada, é cada um por si. “Damos uma ajudinha se alguém nos liga e diz que está perdido ou que está pedalando muito, sem saber mais onde procurar. Mas sempre digo que, se você está indo longe demais, provavelmente segue na direção errada”, conta Tom, que calculou um percurso de aproximadamente 15 km, a ser percorrido em cerca de uma hora e meia.

No meio da prova, pedalando por cima do Viaduto do Chá, gritando em busca do representante do evento com a próxima dica, alguém nos perguntou se tínhamos perdido um cachorro chamado PC, tamanha quantidade de gente indagada sobre o tal posto de controle do pedaço. Durante a corrida, pedalamos o mais rápido que conseguimos, carregamos as bikes nas costas, despistamos outras duplas, passamos no farol vermelho, tiramos fina de pedestres, resolvemos as charadas juntos e levamos o ouro para casa.

Adepto do Atravecity acelera nas ruas de São Paulo

O último posto de controle estava na Praça da República. Depois dele, corremos para retornar ao Teatro Municipal e constatar, felizes, que tínhamos chegado antes de todo mundo. Pedalamos 25 km, dos 15 km imaginados pela organização, em pouco menos de uma hora e meia, o tempo esperado para a dupla campeã. Houve quem pedalasse quase 50 km. E mais de uma hora após nossa chegada, ainda havia gente voltando para o ponto de partida para concluir a corrida. O Gustavo teve que me esperar em alguns momentos do percurso, especialmente para subir a rua da Consolação quase inteira – o que, na verdade, era desnecessário, nós que tínhamos errado o caminho.

No começo de sua história como peça de divulgação, promoção e conquista do espaço urbano pela bicicleta, o Atravecity era divulgado só no boca a boca, entre amigos, e disputado somente pelos “malucos” da bike. “As largadas eram sempre na hora do rush de sexta-feira, era uma loucura, mas para nós era normal. Na época, a bicicleta ainda não tinha uma presença tão forte na capital paulista, e era mais difícil cavar espaço nas ruas”, lembra Tom.

Ele vê com entusiasmo as mudanças pelas quais o cenário da bike nas cidades já passou, como o aumento da malha cicloviária e a explosão na quantidade de ciclistas urbanos, que têm na bicicleta um dos pilares de seu cotidiano. Hoje em dia, Tom se considera “muito mais civilizado” na hora de pedalar: “Precisa rolar um amadurecimento por parte dos ciclistas, temos que respeitar aquilo que já conquistamos para que isso seja mantido”, diz. Sua prova, que tanto trabalhou para promover a cultura da bicicleta e cresceu junto com ela, também se adaptou aos novos tempos: “Hoje tentamos criar algo muito mais aberto, para que mais gente possa participar, exatamente como é agora a dinâmica da bicicleta na cidade: para todos”.

* Matéria publicada originalmente na Bicycling 5, de julho/agosto de 2016.