Descida de bike a Santos vai voltar a acontecer, promete governo estadual

Um encontro raríssimo entre representantes do governo de SP e cicloativistas enfim colocou em marcha uma solução para um dos mais vergonhosos episódios ocorridos contra ciclistas nos últimos tempos

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Por Erika Sallum

Nesta semana, um encontro raríssimo entre representantes do governo do Estado e cicloativistas enfim colocou em marcha uma solução para um dos mais vergonhosos episódios ocorridos contra ciclistas nos últimos tempos em São Paulo. Em dezembro de 2017, a Polícia Militar impediu, com jatos de água e bombas de gás lacrimogênio, que mais de 3.000 ciclistas que faziam a “Tradicional Descida a Santos”, na rodovia Anchieta, continuassem o passeio na manhã daquele domingo (10), em cumprimento a uma decisão da Justiça. O evento, organizado via redes sociais, foi proibido pelo juiz Celso Lourenço Morgado, da Vara de São Bernardo do Campo, pois “ameaçaria a circulação de veículos no sistema Anchieta/Imigrantes”. Resultado: a Descida, que atrai muitas famílias e que existe há quase dez anos, foi interrompida, e milhares de pessoas acabaram obrigadas a voltar para casa. Em resumo, uma tristeza só.

Em 20 de dezembro, houve uma audiência pública na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo para discutir e cobrar do poder público sobre o ocorrido. Até o início desta semana, nada de concreto havia sido resolvido, apesar da mobilização de diversos grupos de ciclistas.

Mas uma luz felizmente parece surgir no fim desse túnel de confusão. Em uma reunião inédita, participaram um grupo de cicloativistas ligados à história da Descida a Santos, o secretário do meio ambiente Maurício Brusadin; Laurence Casagrande Lourenço, secretário de Logística e Transportes do Estado de São Paulo; Rui J. Klein, diretor superintendente da Ecovias (concessionária do sistema Anchieta-Imigrantes), entre outros representantes da Polícia Militar e do governo. Os dois lados expuseram seus pontos de vista, com a Polícia Militar e os dois secretários reconhecendo a necessidade de que a Descida a Santos volte a acontecer, de forma pacífica e segura para todos os envolvidos.

O evento acontece, entre outras razões, para mostrar que existe demanda para o cicloturismo em direção ao litoral paulista e para que se oficialize a Rota Márcia Prado (homenagem à ciclista morta na avenida Paulista em 2009) da capital ao litoral. No encontro desta semana, decidiu-se que a próxima edição da Descida a Santos vai acontecer, sem nenhum impedimento, e que haverá a colaboração conjunta de todos os participantes da reunião para que os milhares de ciclistas possam passar por aquele trecho da rodovia. A data será fechada ainda neste mês de fevereiro, e provavelmente será em dezembro deste ano ou março do ano que vem — quando o volume de carros para o litoral está mais tranquilo que no auge das férias.

“Dá para organizarmos um belíssimo evento, com muito mais que 10 mil ciclistas, em um dia de festa para cicloturistas”, disse Brusadin, durante a reunião.

Outro ponto discutido — e prometido pela Ecovias — é que, dentro de seis meses, a Estrada de Manutenção da Imigrantes, também conhecida como Estrada de Serviço, será liberada. Devido a desabamentos, trechos da estrada estão interditados. A Manutenção, em grande parte de sua extensão fechada a carros, desce a serra cortando o Parque Estadual da Serra do Mar, acompanhando de perto os traçados da rodovia. Ela integra a Rota Márcia Prado que vai da capital até o litoral.

O clima da reunião era de esperança de que não apenas a Tradicional Descida a Santos possa acontecer sem truculências do governo, mas que uma política pública para bicicletas seja fortalecida – pelo menos até o fim desta gestão. Os cicloativistas prometeram ajudar no que for preciso — e também ficarão de olho para checar se essas promessas serão de fato cumpridas.

Onde ela estiver, Márcia Prado deve ter aberto um sorriso, afinal seu sonho de termos uma São Paulo um tiquinho mais bike friendly pelo menos vislumbra sair do papel e se tornar realidade (ainda que estejamos a anos-luz de uma sociedade verdadeiramente aberta a todos os benefícios que a bicicleta traz).

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