Dor na virilha e outros problemas que ciclistas sofrem: como resolver

Por Selene Yeager, da Bicycling USA

Imagem: Shutterstock

Estava em uma mesa com algumas atletas ciclistas profissionais quando caímos em assuntos tabu: dores na virilha, inflamação nos lábios e ardências sem explicação. “Toda temporada eu tenho uma coleção de problemas”, disse uma atleta. “Tenho vergonha até de fazer check up no ginecologista porque ele fica meio chocado com o inchaço lá embaixo, fico muito constrangida.” Em minutos, ficou evidente que um assunto urgente são a dor na virilha e outros problemas que ciclistas sofrem.

Os sofrimentos citados eram infinitos: pêlos encravados aos montes, inchaço tão severo nos lábios que algumas estavam pensando até em fazer plástica. Mais tarde, procurei na agenda o contato da pessoa no planeta que mais têm experiência com o assunto “selins e mulheres” no mundo: Andy Pruitt, fundador do Centro de Medicina dos Esportes e Performance da Universidade do Colorado, e consultor médico de muitas equipes do World Tour e de ciclistas – além de consultor por décadas na Specialized, onde criou conceitos e produtos que mudaram o mercado. 

“Mulheres costumam ter mais problemas que homens, mas não costumavam tocar muito no assunto”, diz Pruitt. “O bom é que geração atual de ciclistas não tem medo de falar dos seus problemas. Quanto mais entendermos os problemas que elas têm, melhor podemos resolvê-los. Ninguém devia sofrer em silêncio.”

Estes são os problemas mais comuns para mulheres que pedalam, como preveni-los e como resolvê-los. 

1 – Vaginite 

dor na virlha
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Causa: Um dos problemas mais comuns em mulheres, ciclistas ou não, são infecções vaginais, como candidíase. Mas ciclistas de fato estão mais expostas: quanto mais horas usando bermuda de ciclismo, mais tempo para as bactérias e fungos se multiplicarem, de acordo com Mary Jane Minkin, professora de obstetrícia clínica e ginecologia na Escola de Medicina de Yale.

Mulheres que pedalam muito passam horas suando em roupas justas. O calor e a umidade favorecem a proliferação de fungos”, diz Mary Jane. 

Sintomas: corrimento fora do normal, mudanças no cheiro, coceiras e ardor, principalmente ao fazer xixi.

Solução: Previna passando o mínimo de tempo possível com a bermuda de ciclismo, principalmente no calor. Troque de roupa assim que terminar o pedal. “Depois do banho, usar um secador de cabelo na virilha pode ajudar”, diz Mary Jane. Ela recomenda também lencinhos umedecidos, produtos calmantes a base de hamamélis e secar a pele bem com uma toalha. A forma e a frequência de lavagem das roupas de treino têm influência também.  

Alimentos probióticos podem aumentar a resistência a esse tipo de infeções também. Uma alimentação com pouco açúcar e muitas verduras e legumes, complementada por probióticos como kefir, iogurte e fermentados ajuda as bactérias boas e enfraquece a colônia de bactérias ruins. 

Se você já tiver o corrimento, procure um médico, que irá prescrever o medicamento exato. “Não fique testando produtos vendidos sem receita aleatoriamente. Você precisa de algo que seja efeitvo para controlar os fungos e talvez um estereóide em creme para aliviar a coceira”, diz a médica. 

2 – Dormência

dor na virilha
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Entre ciclistas profissionais, 62% declararam dormência na virilha, formigamentos ou dores nos últimos 30 dias antes da pesquisa. O estudo ouviu 48 atletas e foi publicado no Journal of Sexual Medicine. 

De acordo com Andy Pruitt, 62% é muito mais do que deveria ser. “Dormência pode causar danos de longo prazo”, ele explica. “É um sinal de que você está comprimindo nervos e que algo está errado.” Ou seja, nada de achar que é normal e que uma hora vai acostumar.

Causa: Tem algo errado no formato do seu selim para você, ou na posição dele, ou as duas coisas. “O selim certo ajustado errado é tão ruim quanto o selim errado ajustado certo”, diz Pruitt. 

Solução: “Teste vários tipos de selim e faça um bike fit profissional”, diz Pruitt. O seu peso deve estar apoiado principalmente nos ossos isquiotibiais (os ossos da bacia que apoiamos ao sentar) ou os ossos ramos púbicos (parte mais para cima dos ísquios), e nunca apoiado nos tecidos moles. Isso significa ajustar também seu alcance do guidão – ficar muito esticado joga pressão nos tecidos moles da virilha, a altura do guidão, a altura do selim, o ângulo de posição, assim como forma e tamanho do selim. 

3 – Hipertrofia labial 

hipertrofia labial dor na virilha
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O nome é autoexplicativo: é quanto os pequenos ou grandes lábios (ou ambos) incham e aumentam de tamanho. 

Causa: Pressão. “O inchaço acontece porque quando os tecidos moles são pressionados, a drenagem linfática natural do corpo não acontece e a região retém líquido”, explica Mary Jane. A partir de um certo ponto, além da pressão, o próprio inchaço começa a dificultar a drenagem do líquido linfático, causando um círculo vicioso. 

Fique atento: o selim com recorte no meio, feito justamente para aliviar a pressão, pode funcionar perfeitamente para algumas mulheres, mas aumentar o inchaço em outras, de acordo com Pruitt. Selins vazados podem não funcionar para mulheres com lábios maiores, porque não ficam no lugar certo e acabam pressionados pelos recortes do selim. “Durante o pedal, quem tem essa fisiologia nem sente nada. Mas ao subir na bike de novo, os lábios já estão inchados e o pedal é desconfortável”, diz Pruitt. 

Sintomas: Inchaço é o principal problema, mas desconforto com pressão e irritação podem aparecer também. 

Solução: Achar o selim ideal e fazer um bike fit para a pressão ser distribuída corretamente, evitando inchaço por acumulação de líquidos. 

4 – Infeção urinária 

dor na virilha
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Assim como a vaginite, infecções urinárias são infecções bacterianas que podem acontecer em qualquer parte do corpo envolvida na produção e eliminação de urina, principalmente rins, bexiga e uretra. 

Causa: Podem ser mais comuns em ciclistas. A bermuda de ciclismo é um ambiente propício para a proliferação de bactérias, que podem ter acesso mais fácil ao trato urinário.

Sintomas: Se você tem ido muito ao banheiro e sofrido ardência, você pode estar com uma infecção urinária. Os sintomas mais frequentes são vontade constante de fazer xixi; urinar pequenas quantidades e ter uma sensação de ardência e queimação quando urina; e o xixi estar opaco, vermelho (com sangue misturado), ou com um cheio pungente. 

Solução: Tomar muita água é uma ótima forma de prevenir infecções urinárias, mas nem sempre é suficiente. As estratégias são as mesmas para evitar infecções vaginais: troque de roupa assim que terminar o pedal e se não puder tomar banho logo no fim do treino, capriche na limpeza com lencinhos ou água, sabão e uma toalha limpa e seca.

Se você tende a ter infecção urinária sempre, suco de cranberry ajuda naturalmente a preveni-las, porque contém uma substância química chamada proantocianidinas tipo A, que agem como uma película antiaderente na bexiga. Os estudos não são absolutamente conclusivos, mas alguns deles sugerem que beber suco de cranberry ajuda a reduzir a frequência das infecções urinárias em mulheres propensas. 

5 – Dor na virilha

dor na virilha
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“Dor na virilha” inclui muitos problemas: foliculite (pêlos encravados), atrito e feridas nas áreas de contato da virilha. Todas elas podem doer bastante. 

Causa: pressão constante e atrito sempre no mesmo lugar irritam e inflamam a pele. Em casos graves, pode até infeccionar. 

Sintomas: Dor na virilha geralmente causa irritações e vermelhidão na pele, ou poros inflamados que parecem espinhas. A região é bem sensível e costumam doer bastante. 

Solução: Como muitos tipos de dor na virilha ligados a selim inadequado, o selim certo com bike fit correto pode prevenir todos esses desconfortos. Mas há mais algumas medidas que podem ajudar: 

  1. Lubrificação: pomadas tipo chamois são próprias para reduzir o atrito entre pele e a bermuda. Passe tanto na pele quando na bermuda para aumentar a proteção. Evite produtos como vaselina ou hidratantes que não foram feitos para isso. Eles podem estragar suas roupas de ciclismo e engordurar o selim. 
  2. Tire só o excesso de pelos: depilação é ótimo para ir a praia e arrasar no biquíni, mas para mulheres que pedalam, pode ser um problema. Os pelos pubianos são uma proteção natural do corpo contra microorganismos invasores, e ao retirá-los, somado a pequenos cortes com lâmina ou mesmo a irritação e ultrassensibilidade da depilação com cera, a porta está aberta para mais irritações e inflamações. Se depilar, tome os devidos cuidados para evitar cortes e irritações e não pedale com a pele hipersensível. 
  3. Crie uma barreira protetora: algumas mulheres podem ter problemas de atrito com o selim na parte interna das coxas. Triatletas, que pulam da água para a bike e pedalam com o corpo molhado, usam muito géis anti-atrito a prova d’água. São produtos específicos para prevenir o atrito de pele contra pele, além da pele contra o tecido. Eles formam uma espécie de película protetora na pele. 
  4. Compre uma boa bermuda: o acolchoamento das bermudas e bretelles também tem diferentes formatos e espessuras. Ache um modelo que funciona bem com sua anatomia. O ideal é uma bermuda sem costuras nos pontos de atrito, que encaixe bem nas suas curvas e de tecidos confortáveis. Nunca use roupa íntima pedalando: é estranho para quem nunca usou, mas é o jeito certo e tem um motivo. Quanto mais camadas, mais atrito. 
  5. Cremes: a dor na virilha pode ser aliviada com cremes também: para irritação e assaduras, produtos tipo Bepantol ou Cicaplast hidratam e ajudam a recuperar a pele. Se tiver um problema durante uma viagem de vários dias de pedal, esparadrapo ou patches tipo Moleskin, usados para bolhas, podem ajudar a aliviar a dor enquanto a pele não se recupera.