Ela quer ser a primeira ciclista profissional negra dos EUA

Quando a ativista norteamericana Ayesha McGowan decidiu transformar sua paixão pelas bikes em competição, acabou levando um enorme susto: ela poderia se tornar a primeira negra na elite do ciclismo de seu país

Por Adriana Vodvodic, do Canela

AYESHA McGOWAN não é apenas uma norte-americana que trabalhou por anos em organizações em prol da inclusão no ciclismo. Em seus maiores projetos, do WE Bike NYC, incentivando mulheres a pedalar, ao InTandem, em que ela atuou a favor de pessoas com deficiência, Ayesha sempre se dedicou a levar a bicicleta para muitas pessoas e comunidades. Mas esse era só o começo.

Em 2014, ela arriscou se aproximar de um grupo que ainda lhe parecia intimidador. No caso, eram ciclistas aficionadas por bicicletas de estrada, com seus kits impecáveis, sapatilhas de alto desempenho e um foco total na performance. Em meio ao receio inicial no novo ambiente, surgia um sentimento bem conhecido por Ayesha, o de “não pertencimento”, o que a levou a uma questão importante: quantas ciclistas negras eram profissionais nos Estados Unidos?

Ao descobrir que a resposta era “nenhuma”, ela não pensou duas vezes. Queria de todas as formas ser a pioneira. A decisão pessoal virou um projeto, o qual Ayesha compartilha em seu blog A Quick Brown Fox, mostrando o passo a passo dessa empreitada – algo que tem funcionado tanto para motivá-la a seguir em frente quanto para inspirar outras mulheres e meninas que buscam objetivos parecidos. Na conversa a seguir, Ayesha fala com a Bicycling Brasil sobre seus planos e a importância de uma maior integração no ciclismo.

Foto: Maloney Huck

Bicycling Brasil: Quando exatamente você decidiu se tornar a primeira mulher negra no ciclismo de elite dos Estados Unidos?
AYESHA McGOWAN: Foi em dezembro de 2014. Estava procurando por outra ciclista profissional de estrada negra e imaginei que não deveria haver muitas. Comecei a pesquisar de verdade e descobri que, de fato, não havia nenhuma. Nessa época, queria entender como era a representatividade das mulheres negras no ciclismo norte-americano no passado e fiquei surpresa (e ao mesmo tempo não tão surpresa assim) quando caiu a ficha de que essa era uma página vazia na história. Imediatamente eu me senti impelida a fazer isso. Não foi algo que passou por um processo de decisão muito longo. Eu simplesmente percebi que essa missão era minha! Desde então trabalho para chegar nesse objetivo.

Ao tornar esse objetivo público, você escolheu lidar com a exposição. Isso te atrapalha ou te incomoda de alguma forma?
A minha geração inteira de jovens negras já cresceu nesse cenário e com essa mentalidade, logo, de certa forma, eu exponho a minha vida desde a adolescência. A diferença é que desta vez há um objetivo maior. De todas as experiências que vivi, esta fase é de longe a mais aplicável e útil para outras pessoas se inspirarem, então a exposição não me incomoda. Faço isso justamente para que outras, se quiserem, possam fazer o mesmo. Ou, no mínimo, que se sintam empoderadas. Quando alguém vem me falar que realizou algo por conta do que leu no blog, vejo que estou ajudando de verdade, mesmo que seja apenas uma pessoa. Não tem como se incomodar com isso.

Como você tem feito para dar fôlego e visibilidade ao projeto?
A maior parte acontece na base do boca a boca mesmo, e as pessoas vão compartilhando a história e os relatos com seus amigos. A comunidade do ciclismo é grande, mas, ao mesmo tempo, pequena a ponto de, quando coisas novas aparecem, meio que todo mundo fica sabendo. Sinto que há mais pessoas que me descobrem e me procuram do que o contrário, algo que ainda me deixa surpresa. No mais, sigo firme, escrevendo e postando no blog.


Já parou para medir o tamanho do seu desafio?
Eu carrego uma grande sensação de isolamento, algo inexplicável, pois ninguém consegue entender por que me sinto isolada tendo tanta gente à minha volta. Acontece que, muitas vezes, você é a única ou uma das poucas pessoas negras de um lugar. Mas já percebi também que não quero ter que ficar explicando isso o tempo todo. Afinal, uma das principais questões que enfrento é que muitos sequer entendem a razão de tudo isso que estou buscando ser algo importante ou, no mínimo, algo que alguém deveria se importar.

Como tem lidado com isso no dia a dia?
Ficou óbvio para mim que seguir falando do meu sentimento de isolamento não seria um bom uso da minha energia emocional. Prefiro usar essa energia para treinar e me preparar para as próximas provas. Então eu até escrevo sobre isso no meu blog, quando encontro as palavras corretas, mas normalmente procuro focar menos nessa questão e mais na representatividade, pois acho que isso é algo que todos conseguem entender melhor. Basta olhar em volta para notar que não há outras pessoas como eu. Isso, sim, as pessoas conseguem entender.

Toda essa história de treinar sério começou depois de um pedal de fim de semana no Central Park (EUA). Como foi?
Era um dia direcionado para pessoas que treinavam, todos tinham bicicleta de estrada e usavam kits de ciclismo e sapatilhas. Eram, inclusive, membros de clubes ou equipes locais. E eu não tinha nada daquilo! Estava com a bike que usava para me transportar na cidade, com cestinha e guidão “mustache” [risos]. Na época, eu trabalhava em uma organização chamada WE Bike NYC, e o convite para o pedal dizia ser aberto ao público, mas acho que ninguém se sentiu incluído de verdade. Além de mim, simplesmente não havia ninguém ali com uma bike urbana, usando camiseta e tênis.

E o que te motivou a estar ali?
Sou do tipo de pessoa que sempre pensa: “Está bom, vamos tentar e ver o que acontece…”. Naquele momento da minha vida de ciclista, eu me sentia totalmente intimidada por todas aquelas bikes e acessórios. Era tudo novidade para mim. Só que, depois do tal pedal, aquele arsenal me pareceu muito menos amedrontador. Por isso defendo que é muito importante misturar as diferentes culturas de bike. Percebo que às vezes as coisas ficam muito segregadas, mas ao mesmo tempo estão cheias de sobreposições que passam despercebidas.

Como fazer para que essas diferentes culturas possam interagir mais?
Usei a bike como meio de transporte por sete anos antes de me tornar uma ciclista de competições. Não foi um caminho imediato. A confiança para pedalar a minha bike eu já tinha. Mas, em termos de comunidade, eu não me senti superbem recebida pelas atletas profissionais no início. Felizmente as mulheres daquele grupo que escolhi estar eram muito legais e superamigáveis. E isso foi convidativo para mim. Acho que você se torna mais aberto falando com as pessoas, buscando ouvir o que elas querem. Talvez nem todos queiram usar sapatilhas e kits de ciclismo. Talvez elas estejam lá apenas porque querem pedalar. Não ser nem aberto à possibilidade de que alguém que não se parece ou se veste igual a você possa ser parte de sua comunidade é algo que me aborrece muito.

Isso está mudando?
Acho que as pessoas deveriam ser mais abertas, e vejo que isso já está acontecendo com mais frequência que antes. No entanto ainda existe essa parede que tem que cair. As pessoas precisam querer conhecer as outras pelo que elas são. Tem uma coisa pairando no ar no ciclismo que diz algo como: “Se você não entendeu ainda, eu te passo uma lista de todas as coisas que você precisa ter e fazer para pedalar ou então vou te olhar com preconceito e não vou te ajudar”. Esse tipo de atitude não é nada útil. Por outro lado, se você simplesmente pedalar junto de alguém novato, conversar e ser simpático talvez atraia mais gente ao esporte.

Por tudo o que você tem vivido, já se sente hoje como uma influência para outras pessoas?
Dizem que eu sou, então comecei a aceitar que pode ser verdade. Afinal, é meu objetivo inspirar outras mulheres. Fico sempre muito animada quando alguém me mostra que isso está acontecendo.

E quem te inspira no esporte?
Grande parte da minha inspiração para essa jornada não vem do ciclismo. Admiro, por exemplo, Serena Williams [tenista multicampeã] e Misty Copeland [bailarina clássica], além de outras mulheres negras pioneiras que fizeram muito barulho nas suas modalidades. No ciclismo em si, gosto das atletas profissionais de elite em geral, que são superfortes e realmente incríveis. Adoro ver como o esporte vem progredindo nestes três anos e meio e amo saber que já faço parte de tudo isso. As mulheres estão fazendo o esporte se transformar naquilo que elas querem que ele se transforme – e não naquilo que sempre disseram que tinha que ser.

Como tem sido a vida de competições?
Acabei de voltar de uma prova em Winston- Salem, na Carolina do Norte (EUA). Só na categoria pró havia 84 homens e 104 mulheres. Isso é incrível de ver. As coisas estão acontecendo, os números estão aí, crescendo. E, sinceramente, eu acho as provas femininas divertidas demais de assistir. As mulheres dão tudo de si e, para mim, esses eventos são em geral mais empolgantes que os masculinos. Acho que elas se colocam mais presentes nas provas porque a maior parte delas tem outros trabalhos e outras vidas fora do ciclismo profissional. Elas não estão ali pelo dinheiro, até porque simplesmente não há muita grana envolvida.

*Matéria publicada originalmente na edição #11 da revista Bicycling, de julho/ agosto de 2017

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