Entrando numa fria – de novo

Desenhadas para terrenos extremos, as fatbikes não encontram um de seus habitats preferidos em nossas trilhas: a neve. Para encarar um desafio congelante e se embrenhar em uma crescente cena de apaixonados por fat, um ciclista amador brasileiro encarnou o espírito de “estranho do ninho” e foi até o Canadá, com sede de fazer bonito. Jonatha Jünge conta a seguir a experiência de colocar seu corpo a prova competindo pra valer sobre um lago congelado

O brasileiro Jonatha Jünge decidiu arriscar como amador em uma prova sobre um lago congelado no Canadá, usando uma fat bike. E completou... duas vezes

Temperaturas que variam de – 5° a – 30° C são a norma no inverno do Québec, a província mais a leste do Canadá. Nesta época, grossas camadas de neve cobrem cidades e florestas. Ao norte de Montreal, maior cidade da região, o grande lago Saint-Jean tem sua superfície congelada por até um metro de gelo duro. Com um cenário desse, o convite é simples e direto: que tal visitar o Canadá e atravessar o tal lago de fatbike?

As fat, bicicletas de rodas extragordas, já estavam no meu repertório ciclístico como algo exótico e divertido. Nas dunas de Florianópolis (SC), junto de um grupo de amigos, começamos a entender seu real significado dentro do universo do mountain bike. Imagine pedalar por terrenos antes impossíveis, percorrendo improváveis trilhas de areia por novas paisagens no quintal de sua casa. Foi quase como a descoberta de um novo esporte.

Tão supreendente quanto o efeito das fat foi o que aconteceu poucos meses depois. Uma mensagem vinda do hemisfério norte, perguntando se gostaríamos de participar de um novo evento, mais precisamente na região de Saguenay-Lac-Saint-Jean. O convite era do local David Lecointre, responsável por coordenar um popular circuito de cicloturismo ao redor do lago durante o verão.

Foto: Jonatha Jünge

Seu plano atual é fomentar um novo desafio de inverno: a Traversée du Lac-Saint-Jean à Vélo, uma prova de 32 km em fatbike sobre o lago congelado. Soava como algo imperdível. Ainda que nem todo ciclista se sinta atraído pela neve — especialmente aqueles que já se meteram nestas roubadas.

Totalmente ignorante sobre o que significa pedalar abaixo de zero, mas igualmente empolgado pelas novas possibilidade da fatbike, aceitei o desafio-roubada e embarquei ao Canadá para minha primeira participação na Traversée em 2016. Resumo da ópera: uma nevasca de grandes proporções rolou bem no dia da prova; dos 120 malucos que partiram da largada apenas 24 alcançaram a chegada; após 4h21min, brigando com o equipamento e afundando na neve fresca, terminei com um digno 13° lugar; meus dedos e minha cara estavam congelados.

Foto: Jonatha Jünge

Um ano depois, estou novamente no Québec com a equipe da RootRiderTV e a brasileira expert em downhill Patricia Loureiro. Desta vez, venho mais preparado e confiante — aproveito também para cruzar os dedos, torcendo por um clima menos radical. David sabe que nossa equipe brasileira tem um desconforto extra para se adaptar ao clima. E Patrícia está em sua primeira prova na neve.

O organizador também está preocupado, pois, ao contrário do ano passado, a temperatura no começo de 2017 está demasiado alta, com termômetros marcando graus positivos, em picos de até 5° C. Com isso, a camada de neve compactada sobre o lago começa a derreter e se transformar no temível slush. Traduzindo: pense em todas as características nocivas da lama para a bike aliadas ao poder congelante da neve. Ou seja, você pode atolar e depois ainda ter de retirar sua bike do lago dentro de um cubo de gelo.

Foto: Jonatha Jünge

Mesmo assim, procuro seguir confiante, embalado pela experiência da edição anterior. Já entendo um pouco melhor como as fats se comportam na neve, e também aprendi com meus diversos erros, entre eles, dar melhor uso ao equipamento de inverno.

APESAR DA CHUVA FINA, algo quase nunca visto neste canto do mundo em fevereiro, ápice do frio na região, saímos para um pedal de reconhecimento na companhia de David. A neve é um terreno ainda mais dinâmico do que a areia, podendo apresentar diferentes consistências que fazem a bike reagir de formas variadas. Pedalando, lembro daquela história de que os esquimós possuem uma centena de nomes para a neve e penso que talvez meu limitado vocabulário ártico seja uma desvantagem crítica para a travessia nesse clima.

Para evitar muitas surpresas, o truque é abusar da baixa pressão nas rodas da fatbike. David é um especialista, já que passa todo o inverno pedalando na neve, e não tem pudor em tirar quase todo ar da rodas tubeless. O limite dos conservadores é 5 psi, mas tanto nos dias mais secos nas dunas como na neve fresca, vale ousar para aumentar a tração e estabilidade.

Depois dos testes, finalmente chega o dia da prova. Apesar de o frio ter aumentado, como David e os demais envolvidos nos bastidores esperavam, uma chuva fina e insistente nos acompanha no pedal do hotel até o ponto de largada, já na beira do lago. Devido a minha relativa boa colocação no ano passado, ganho o número 7 e estou alinhado na primeira fila. Ao meu lado, vejo alguns canadenses muito concentrados, incluíndo Erick Auger, atual campeão da prova e designer responsável por algumas das melhores fatbikes do mercado.

A chuva dá uma trégua. Todos aproveitam para acompanham os movimentos de motivadas moças que puxam um aquecimento, apesar da temperatura não passar de “confortáveis” -5° C. A adrenalina vai aumentando e verifico meu equipamento repetidamente. Com o bretele e sapatilhas específicos de neve (linha 686 da Specialized), me sinto muito bem preparado. Meu principal upgrade foi em optar por óculos tipo googles de neve em conjunto com bandana e touca sintéticas — poder respirar bem e evitar condensação no rosto é a lição que aprendi na nevasca do último ano.

Contagem regressiva em francês, para aumentar a emoção, e é dada a largada. Vou direto na roda de Erick, tentando manter um ritmo forte para não me perder do pelotão dianteiro. O terreno deste primeiro trecho realmente está melhor do que no dia anterior. Logo, penso que será uma prova rápida e sem grandes obstáculos.

Foto: Jonatha Jünge

Após poucos minutos, percebo que estou apenas na companhia de Erick, numa fuga desenfreada. Na noite anterior, resolvi aumentar a pressão dos pneus, confiante na melhor condição do terreno. Confesso que fui além do recomendado, de 10 para 14 psi. Não demorou para senti-los escorregando em trechos onde a neve derretida congelou novamente, formando finas capas de gelo. Erick não parecia se abalar e seguia forçando. Já eu me encontrava bem encaminhado para atingir meu limite.

Na medida que vamos em direção ao centro do lago, a chuva volta e um forte vento lateral nos atinge em cheio. A água se acumula na roupa e congela devido ao ar gelado. Os óculos são os primeiros a se inutilizar, me obrigando a retirá-los. Sinto agora pequenas gotas congeladas atingindo meu rosto como agulhas.

Já começo a ser alcançado por alguns competidores quando de repente vou pro chão. Uma típica “venda de garagem”, como dizem os locais. Não basta ter de se levantar de um tombo dolorido, é preciso recolher sua bicicleta e seus equipamentos espalhados pela neve no meio da trilha, como se tivessem em liquidação no seu bazar pessoal.

Foto: Jonatha Jünge

A partir deste ponto, entendo que estou em uma prova totalmente imprevisível. Encontro uma boa posição para me proteger do vento num pequeno grupo que se formou e sigo concentrado em não sair do caminho com neve mais ou menos estável. Mikel Calahorra, um triatleta do Bahrein e fatbiker vindo das dunas como eu, logo aparece e, juntos, ganhamos algumas posições. É uma importante ajuda.

Após alguns deslizes, resolvo finalmente parar no primeiro PC e esvaziar os pneus. O vento passa a nos atingir pelas costas e a neve quase parece ter estabilizado no centro do lago. Com as rodas mais vazias, a bike agarra um pouco mais nos trechos de gelo, o que me traz uma bem-vinda dose de motivação. Pelo caminho, vejo diversos corredores no chão, alguns deles sendo resgatados pelas motos de neve — cair no gelo não é nada mole.

A segunda metade da prova é marcada pelo cansaço e o início das cãibras, reflexo do esforço constante de pedalar na neve com quase nenhuma rolagem. Ao chegar próximo da margem norte do lago, a neve fresca aumenta, assim como os trechos de gelo, com toques de slush que, por sorte, eu já aprendi a identificar.

Foto: Jonatha Jünge

As motos de neve fizeram a marcação da trilha, a qual seguimos fielmente, ainda que, neste ponto, surgem valetas de gelo, tal como os meios-fios inimigos dos speedeiros. Tento retribuir o favor a meu amigo Mikel e lhe chamo para me seguir à reta final. Ele aceita a proposta, mas ao tentar sair de sua linha, acaba na neve com as pernas para o ar, exatamente como eu no início da prova. Sem dúvida, é preciso mais do que alguns dias de treino neste ambiente para querer vencer a Traversée.

A chegada da prova já aparece a vista, com uma leve subida até a rua de Roberval. A camada de gelo na transmissão dificulta a troca de marchas e só me resta empurrar a bike, mesma estratégia dos corredores que chegam na minha frente. Finalmente, cruzo a linha, recebo a medalha pelo feito, acompanhada de um cobertor e uma lista de perguntas para verificar se não há indicativo de hipotermia. Só consigo responder as questões depois de quebrar o gelo da minha barba. Aproveito o respiro para comemorar minha 27a colocação, com o tempo de 1h57min — uma melhora de mais de duas horas em minha marca da edição anterior.

Foto: Jonatha Jünge

Apesar de ter sido uma prova mais rápida, as diferentes condições de tempo e da neve no lago criaram um desafio pra lá de intenso. O título ficou com o fatbiker local Elliot Doyle (1h30min), que deve ter me ultrapassado lá no início da prova. A Patricia estreiou bonito, chegando em 8° lugar entre as mulheres, com 2h19min. Nada mal para quem subiu em uma fatbike pela primeira vez dois dias antes da prova.

Sentado ao lado de um aquecedor na barraca médica, vejo o restante dos atletas chegando com pequenas estalactites de gelo penduradas pelo rosto. Todos estão exaustos, mas sorriem como crianças saindo de um brinquedo em um parque de diversão. Entre eles, se misturam entusiastas do MTB e alguns competidores profissionais, que estão ali para experimentar esta nova brincadeira de cruzar um lago de bicicleta. A grande parte é canadense, mas a cada ano chegam mais competidores dos EUA, da Europa e, agora, também do Brasil.

David e sua equipe de organizadores e voluntários vindos de várias cidadezinhas da região estão no caminho certo, seguindo a tradição do MTB de explorar novas trilhas onde nenhum ciclista pensou em pedalar antes. Que bom que existem estes loucos sempre dispostos a criar eventos e bicicletas para amantes da bike fora do usual. É neste tipo de lugar, não importa onde for, que nos sentimos em casa.

* Matéria publicada originalmente na edição 10 da revista Bicycling, de junho/ julho de 2017.

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