Esta ciclista está passando uma mensagem poderosa sobre igualdade de gênero

Ellen Noble explica por que pular obstáculos é uma luta pela igualdade no ciclismo 

Ellen Noble, saltando a "sociedade patriarcal"

Para Ellen Noble, 22 anos e tetracampeã norte-americana de ciclocross, pular obstáculos de ciclocross também é uma luta pela igualdade de gênero. A seguir, ela explica por que:

Você já recebeu um conselho do tipo: “Nunca leia os comentários – é onde os ogros ganham vida.” Bem, eu sempre li os comentários nas redes sociais. Quando aparecem histórias que colocam em destaque a desigualdade de gênero no ciclocross [modalidade em que as provas ocorrem em circuitos fechados de terra e obstáculos, com bikes que lembram as de estrada], quero saber o que as pessoas têm a dizer.

E sempre aparece alguém que escreve “talvez as mulheres ganhassem mais se fosse mais divertido assisti-las. Mulheres competindo são entediantes de tão lentas”.

>> 6 mulheres que quebraram barreiras — no ciclismo e na sociedade

Tento ser uma pessoa pragmática, então se dizem que assistir a mulher competindo é entediante, eu pergunto: “Por quê? O que elas não estão fazendo? Como podemos melhorar?”.

Nossas competições são cheias de ação, com disputas apertadas para ver quem ganha. Estamos mandando muito bem em técnica e velocidade. O que está faltando? A resposta mais óbvia é que as mulheres não saltam tão bem os obstáculos de ciclocross. Ao me dar conta disso, minha reação foi: “Ok! Vamos mudar! Vamos eliminar a maior quantidade possível de razões para as pessoas pararem de dizer que as competições femininas não são interessantes”.

Hashtag por uma igualdade de gênero

Isso foi há três anos, bem antes de eu começar a postar #bunnyhopthepatriarchy (algo como “salte por cima do patriarcado”). “Bunny hop” é o nome que se dá a simplesmente saltar de bike, em geral para ultrapassar algum obstáculo. Comecei essa ideia na minha equipe da época, a norte-americana JAM Fund.

Para nos ensinar, meu treinador apareceu com uns obstáculos de 10 cm de altura, os quais era possível até passar por cima pedalando. Depois evoluímos para obstáculos de 30 centímetros, uma altura que, se você não salta, acaba batendo neles a coroa e os aros – o que eu estava fazendo superbem em todas as minhas tentativas.

Depois de praticar três ou quatro dias, fiquei completamente desanimada e não tentei mais saltar obstáculos durante um ano. No ano seguinte, estava participando de uma sessão de fotos de ciclocross para a marca britânica Rapha de roupas para ciclismo. Estávamos apenas eu e meu companheiro de equipe Jeremy Powers, e ele quis pedalar com obstáculos.

Eu não queria sair na foto como a mulher que aparece correndo, porque estaria transmitindo a mensagem de que as mulheres não pulam os obstáculos, somente os homens. Então saltei. Foi pouco elegante, mas pelo menos foi um salto.

Houve outras grandes lacunas na minha prática de saltos. Eu simplesmente não me sentia confiante. Tinha a sensação de que nunca aprenderia a saltar obstáculos de forma consistente. Então, um ano depois daquela sessão de fotos, antes da temporada 2017-2018, eu estava em um set de filmagens com Jeremy e outro colega de equipe chamado Spencer Petrov, gravando um episódio da série Behind the Barriers (Por Trás dos Obstáculos, em tradução livre). Jeremy colocou um par de obstáculos duplos, e os dois estavam lá os saltando enquanto eu pensava: “Ai meu Deus, não quero ser a única que não salta”. Então me livrei de toda a pressão que havia crescido dentro de mim durante tanto tempo e simplesmente mandei ver.

E consegui! Foi um salto surpreendentemente elegante. Acho que, de certa forma, o longo processo de evolução me ajudou a realizá-lo. Se tivesse tentando partir do zero e me tornar a estrela dos saltos em uma semana, provavelmente teria falhado todas as vezes. Mas dividir o processo em três temporadas parece ter ajudado. Não estou dizendo que não voltei a cair depois disso. Caí, e algumas vezes durante as competições. No final da temporada passada, eu estava bastante confiante de forma geral. Então, para minha desgraça, descobri que estava saltando errado.

Digo isso meio na brincadeira, mas é verdade. Eu estava saltando em dois movimentos diferentes. Precisei passar por um processo de reaprendizagem durante a temporada de mountain bike do verão do ano passado (nos EUA) e estou finalmente quase conseguindo saltar direitinho. Tudo bem, porque não se trata apenas de mim e minhas competições. É bacana ser uma das primeiras mulheres a pular nas competições e na Copa do Mundo de Ciclocross, porém mal posso esperar até que isso seja algo normal – que as pessoas vejam que as mulheres também têm habilidades técnicas formidáveis. Mal posso esperar para presenciar um pelotão de garotas saltando nos campeonatos nacionais juniores.

Ver a corredora sub-23 Ashley Zoerner saltando no campeonato Pan-Americano foi o mais insano de tudo. Quero ensinar garotas a saltar em meus training camps de ciclocross. Quero dar a essas atletas a atenção técnica que eu não recebi quando tinha a idade delas – pouquíssimas mulheres são encorajadas a trabalhar suas habilidades.

Também quero reunir mulheres e mostrar-lhes que é legal o apoio entre mulheres nesse sentido. Amo poder mostrar a essas jovens de 15 anos que outras mulheres também são bacanas! Quero criar uma geração de ciclistas ainda mais talentosa, habilidosa e fera para suceder a minha.

A hashtag #bunnyhopthepatriarchy começou como uma variação descarada da hashtag #shredthepatriarchy (arrase o patriarcado), que ficara na minha cabeça depois de um incidente no Tennessee, em que dois caras em um carro lançaram uma garrafa de vidro em mim depois que eu ignorei os gritos de “Ei, garota!” deles. A garrafa não me atingiu por pouco e se espatifou debaixo da minha bike.

Eu postei sobre o ocorrido e surgiram comentários e obtive um apoio incrível. Teve gente que colocou a hashtag #shredthepatriarchy nos comentários. Depois comecei a usar #bunnyhopthepatriarchy nos meus posts sobre o processo de aprendizagem do salto.

Nunca esperei que a #bunnyhopthepatriarchy fizesse tanto sucesso – há centenas de pessoas falando sobre isso no Instagram e no Twitter. Também nunca pensei que tanta gente acabaria se importando com meus saltos. Mas elas se importaram. Acho que é o momento perfeito para essa mensagem, agora que estamos lutando pela igualdade.

Ainda não alcançamos nosso objetivo. Há eventos incríveis, como a Waterloo World Cup, que dá prêmios iguais para homens e mulheres, mas existem ainda muitos que continuam insistindo em encurtar as provas das mulheres, ou não dando prêmios iguais. Estamos em uma encruzilhada acalorada na qual algumas pessoas gritam “Vamos garotas!” e outras gritam “Competições femininas são entediantes!”.

É um ótimo momento para as mulheres dizerem: “Realmente posso fazer isso. Sei que posso!”. As pessoas querem e precisam ouvir essa mensagem. O espaço considerável que conquistamos nos últimos dez anos tem sido maravilhoso. Espere para ver tudo que faremos nos próximos dez!