Croácia: Europa all included

Visuais que dispensam apresentações temperados com uma culinária farta fazem da Croácia um destino certeiro

Por Maria Clara Vergueiro

Visuais que dispensam apresentações temperados com uma culinária farta fazem da Croácia um destino certeiro

O ano já começou em ritmo acelerado, com acontecimentos bombásticos e previsões apocalípticas. É preciso focar, estabelecer metas e economizar energia. Por isso, preste atenção: antes que o mundo “acabe”, é fundamental conhecer a Croácia, de preferência pedalando. Qualquer outro projeto de viagem que esteja roubando sua atenção deve ser adiado porque esse país menor do que Portugal é capaz de reunir muito do que a Europa tem de melhor, deixando do lado de fora de suas fronteiras os principais vícios e clichês do Velho Mundo. Banhado pelo mar Adriático, esse pequenino e estratégico pedaço de terra que separa o ocidente do oriente (e que, por isso mesmo, teve seu território disputado a tapa por tudo quanto foi império ao longo dos séculos) combina os mais fantásticos atributos naturais – mar turquesa, praias de areia clara, rios, cachoeiras, lagos, bosques, montanhas – com patrimônios da humanidade, incluindo muralhas, templos religiosos, palácios e cidades medievais. Temperando isso tudo, está a ótima gastronomia local (trufas brancas, ostras e vinhos artesanais brotam naquelas bandas), além de um povo hospitaleiro disposto a receber. Tudo isso com uma estrutura para o cicloturismo que deixa muito país vizinho azul de inveja. A seguir, tudo o que você precisa saber para planejar sua próxima cicloviagem.

Croácia por regiões O território croata faz fronteira com Eslovênia, Hungria, Servia, Bósnia e Herzegovina e Montenegro, e já viveu conflitos terríveis como a guerra da antiga Iugoslávia (1991 e 1995). Tem seu extremo oeste colado no extremo nordeste da Itália. O formato é quase o de um “T”, um pouco atrofiado: na parte baixa está a região costeira da Dalmácia, a ponta esquerda (mais curta) corresponde à região da Península de Ístria e a ponta direita (mais comprida) abriga as regiões interioranas da capital, Zagreb, Croácia Central e Eslavônia (não confundir com Eslovênia, país que está do lado oposto). Parte dos 645 km dos Alpes Dináricos atravessa a Croácia e crava no seu território algumas das montanhas mais imponentes, como as de Velebit, uma cadeia que tem seu ponto mais alto no Parque Nacional Paklenica, na Dalmácia. Existem outros sete parques nacionais distribuídos de norte a sul da parte oeste do país. Um dos mais conhecidos é o dos Lagos de Plitvice, com 30 mil hectares esplendorosos e trilhas bem marcadas para todos os tipos de ciclistas.

Península de Ístria A parte mais a noroeste do país é uma charmosa península que por muito tempo ficou sob o domínio de Veneza. Ístria é uma das regiões com melhor estrutura para o cicloturismo: são mais de 1.000 km de rotas, que beiram a costa ou adentram pequenas cidadelas medievais. Pela costa, o que se vê é o azul do mar Adriático, ruínas romanas, mosaicos bizantinos e basílicas históricas. O conceito de Bed & Bike, que combina boas acomodações com estrutura especialmente voltada ao ciclista, reina absoluto. Os bike friendly points são outro ponto alto: áreas de serviço que oferecem ferramentas e infra para que qualquer ajuste ou conserto possa ser realizado de maneira simples e rápida, no melhor estilo faça-você-mesmo. Muitos dos percursos passam por vinícolas (como a Kabola, a Rino e a Stari Podrum, próximas à cidade de Momjan) e por campos de oliveiras que produzem um dos azeites mais renomados do mundo. No site Istriabike. com, você encontra absolutamente todos os percursos, com informações como distância, tempo, altimetria, tipo de terreno e um descritivo detalhado das rotas e das atrações de cada uma. Informações sobre acomodação, mapas e pacotes também estão à mão no mesmo site. Se você quer combinar turismo e competição, a península tem o próprio Gran Fondo, que costuma atrair cerca de 800 ciclistas de dez países, com duas provas distintas: a Small, de 88km, e a Classic, de 128 km, que neste ano acontecem entre os dias 6 e 8 de outubro.

Na porção norte do mar Adriático, a pequena Rovinj é a base para explorar a Península de Ístria

Gorski Kotar Vizinho de Ístria está o condado de Gosrki Kotar, que separa a península da região da Dalmácia. Aqui, costa, ilhas e montanhas se combinam. Na Trilha de Gorski Kotar, dividida em sete estágios, as distâncias variam de 28 km a 43 km, com subidas e descidas que chegam a somar 5.000 metros de puro mountain bike. Se bater uma vontade louca de ir para o mar, atravesse para a ilha de Krk (a maior do Adriático) e passeie pelas trilhas compartilhadas por pedestres e ciclistas para conhecer vilas de pescadores e ruínas antigas. Vale visitar outras ilhas, como as de Rab, Cres e Lošinj que, com a de Krk, formam a 4 Islands MTB Stage Race, prova em duplas, de quatro estágios, que passa por todas elas, ao longo dos 270 km de percurso.

Parque Nacional dos Lagos de Plitvice A região de Lika e Karlovac (próxima da parte mais central do país) abriga o maior número de parques nacionais croatas. Entre todos os parques do país, nenhum brilha mais do que o Plitvice, com seus 16 lagos e cachoeiras, cercados de florestas e distribuídos por 30 mil hectares protegidos pela Unesco. O mais famoso é também o mais antigo reserva trilhas para ciclistas de todos os níveis. E são eles, os ciclistas, que melhor aproveitam as belezas do parque, tendo acesso a pontos que não se alcançariam de outro modo. Um dos roteiros mais desafiadores é o que sai da cidade de Korenica pela estrada de Plitvice e segue para a parte alta do parque, cruzando rios que alimentam os lagos de lá. São 45 km de percurso que te levam a 882 metros acima do nível do mar. Quem preferir um passeio mais tranquilo pode optar por circundar os lagos pelas trilhas pavimentadas e passar pelo Prošcansko, o mais alto dos 15 lagos e por onde as cachoeiras desabam para formar os outros. É possível ficar hospedado em um dos quatro hotéis ou dois campings do próprio parque. Dalmácia A “perna” da Croácia é um dos seus pedaços mais prestigiosos, com praias que atraem turistas (espertos) do mundo inteiro e deixam as areias com um ar às vezes meio “Saint-Tropez” ou “Monaco”: drinks à beira-mar, restaurantes caros com mesas ao ar livre e muitos barcos de luxo atracados. Mas qualquer semelhança é mera coincidência. Por ali tudo é bem mais interessante do que nas já conhecidas badaladas praias europeias. Além de toda a bagagem histórica – o Palácio de Diocleciano, na cidade de Split, é uma atração para não perder de vista –, existem mais de 3.000 km de trilhas demarcadas para a prática de ciclismo (com planos de expansão para 2017), tanto na parte mais continental da região quanto na costa e ilhas. As de Brač e Hvar são mais conhecidas e oferecem mapas e trilhas imperdíveis. Em Brač, não deixe de visitar a praia de Bol, uma das mais lindas da Croácia. Hvar é conhecida pelas lavandas, vinícolas, oliveiras e vistas impressionantes.

O forte Lovrijenac, na Costa Dálmata, é um dos cartões-postais da acolhedora Dubrovnik, parada obrigatória em uma bike trip

Dubrovnik Batizada de “a pérola do Adriático”, a cidade de Dubrovnik, no extremo sul da Dalmácia, é deslumbrante e proclamada patrimônio mundial pela Unesco. O Parque Nacional de Mljet, a ilha de Korčula (antiga colônia grega onde nasceu o lendário explorador Marco Polo) e a etílica vila de Pelješac são cheias de atrações. Perto delas, também está a vila de Ston, com a segunda maior muralha do mundo (atrás apenas da Muralha da China), de 5 km de extensão. Saindo de bike desde Pelješac, pegue uma balsa para Mljet, cheia de percursos que geralmente desembocam em uma das praias mais famosas da Croácia, a de Saplunara. A ilha conhecida como Verde é coberta de vegetação, tem uma população bem pequena e metade do território ocupado por um parque nacional. Rotas históricas Carolina, Rudolfina, Jozefina e Luisiana são os nomes de quatro estradas que ligavam o continente ao mar nos séculos 18 e 19, em uma homenagem a à família real austríaca. Hoje elas são rotas de ciclismo com pouco mais de 100 km de extensão, perfeitas para quem quer um pouco de tudo o que a Croácia tem, de florestas a vilas históricas. Percursos urbanos Além da capital, Zagreb, com vida urbana agitada, as cidades de Split, Dubrovnik e Zadar são passagens obrigatórias para quem quer conhecer a Croácia. Zadar é uma das mais antigas de toda a Europa, tem um pôr-do-sol mítico e um célebre órgão marinho gigante feito de mármore, tocado pelas ondas do mar graças a um conjunto de tubos submersos. Terra, mar & ar Dá para chegar, sair e rodar pela Croácia de diversas formas. Existem seis aeroportos (Bol, Dubrovnik, Pula, Split, Zadar e Zagreb) que recebem voos das principais cidades da Europa. Uma travessia noturna de balsa entre Veneza, na Itália e Pula, a segunda maior cidade croata, leva menos de 12 horas. É comum ver imensos veleiros de milionários russos atracados nas ilhas ou no continente da Dalmácia. Os simples mortais fazem todos os deslocamentos até essas ilhas em barcos e balsas devidamente equipados para transportar bicicletas. As estradas são bem abastecidas de linhas de ônibus que ligam as cidades de todo o país, e a linha ferroviária foi modernizada em 2004, com conexões domésticas (só não chega até Dubrovnik, no extremo sul) e internacionais, com viagens diretas da Áustria, República Tcheca, Suíça, Alemanha, Hungria e Eslovênia. A maioria dos trens domésticos não requer reserva de assento, mas no site Hzpp.hr é possível comprar tickets com antecedência e ter informações de horários e estações. Todos os trens transportam bicicletas e cobram uma taxa de 15 kuna (pouco mais de US$ 2) para os trajetos domésticos e 5 euros (cerca de 35 kuna) para os trechos internacionais.

Quem leva
Não é difícil planejar sua viagem à Croácia por conta própria. Os sites voltados para o cicloturismo são bastante completos e informam tudo sobre acomodação, transporte, serviços e mapas, com roteiros para qualquer ciclista. Mas se você quiser um pacote bem estruturado a Bike Expedition, operadora brasileira com 15 anos de experiência em cicloturismo, oferece quatro opções diferentes, que exploram a região da Dalmácia e os parques nacionais. Três delas combinam hospedagem em barcos de categoria luxo ou um pouco mais simples, com noites em hotéis. Um dos pacotes é self guided, ou seja, a operadora reserva tudo e o cliente fica livre para administrar o próprio tempo. Os valores variam de 2.000 a 5.000 euros, para até oito noites (de acordo com a acomodação e a categoria do barco) e a distância total percorrida gira em torno de 170 km, podendo ser estendida. bikeexpedition.com.br

* Matéria publicada originalmente na Bicycling 9, de março/abril de 2017.