Ex-catador de latinhas quer bater recorde da maior prova de ultraciclismo

O paulista “Mixirica” vai estar na RAAM 2019, a mais importante competição do ciclismo de longa distância

Comemoração de mais um bronze na Red Bull Trans Siberian 2018 (Foto: Denis Klero/Red Bull Content Pool)

A Race Across America, também conhecida como RAAM, é a prova do ciclismo de longa distância mais famosa e desejada do mundo. E se o esloveno Jure Robic e o austríaco Christoph Strasser são nomes que remetem a recordes nessa competição, o santista Cláudio Clarindo (1977-2016) é o brasileiro que fez história na RAAM: foram 5 participações na categoria solo (2007, 2009, 2011, 2012 e 2015) – todas completadas por Clarindo!

Agora, outro brasileiro, Marcelo Florentino Soares, conhecido como “Mixirica”, também quer fazer história na RAAM. De origem humilde, Mixirica chegou a ser catador de latinhas e trabalhar na ciclofaixa de São Paulo para seguir com o seu sonho de pedalar profissionalmente. Para participar das competições, além disso ele contava com o apoio de amigos. Era assim que conseguia comprar passagem e arcar com os gastos das viagens. E a bicicleta quase sempre era emprestada.

Mixirica na Red Bull Trans Siberian 2016 (Fotos: Divulgação)
“Mixirica”, ex-catador de latinhas e o próximo brasileiro a encarar a Race Across America

A RAAM cruza os Estados Unidos de oeste a leste (4.800 km). A prova mais conhecida do ultraciclismo e uma das mais duras do planeta, a RAAM tem largada marcada para o dia 11 de junho na Califórnia. A chegada será em Annapolis. Assim, cruzará 12 estados americanos. O recorde na categoria solo é do austríaco Cristoph Strasser, que em 2014 concluiu a empreitada em 7 dias, 15 horas e 56 minutos.

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Mas “Mixirica” já sonha grande: ele busca o recorde na categoria solo.

“Mixirica” é um ciclista de longa distância experiente, apesar de ser novato na RAAM. Ele já participou da Red Bull Trans Siberian Extreme por três vezes.

“Mas a RAAM é uma prova que eu sempre quis participar. No início, queria competir na categoria por equipes, mas as coisas foram evoluindo e acabei virando um ciclista solo. Mas não é por que eu já participei de algumas das provas mais longas do mundo que esta vai ser fácil. Pelo contrário”, admite.

Na Rússia, a prova era em várias etapas, sendo que a mais longa tinha 1.368 km de distância, com 12 mil metros de altimetria acumulada. Nos EUA, vai ser um “tiro” de quase 5 mil km.

Comemoração de mais um bronze na Red Bull Trans Siberian 2018 (Foto: Denis Klero/Red Bull Content Pool)
Os treinos para a RAAM

Os treinos para a Race Across America têm sido intensos. “Mixirica” pedala cerca de 200 km por dia por ruas e ciclovias de São Paulo e faz treinos físicos específicos para a bike. Ele também participa de competições de ciclismo de estrada e MTB. Sua equipe é formada por nutricionista, preparador físico, massoterapeuta, mecânico, fotógrafo e assessor de imprensa. Todos deverão acompanhá-lo nos EUA.

Na RAAM, os atletas têm uma equipe de apoio, que, além de fazer a navegação e traçar a estratégia da prova, também fica responsável pela alimentação do atleta e manutenção da bike. Para arcar com tudo, “Mixirica” lançou uma campanha de arrecadação virtual via Kickante.

“A maior dificuldade em uma prova como a RAAM é que você não dorme, chegando a pedalar 20 horas por dia. Para o staff, é cansativo também, porque todos têm que estar ligados o tempo inteiro”, explica o atleta, que aos 13 anos já fugia de casa com a bike para pedalar no Ibirapuera, em São Paulo.

Mixirica dorme no carro durante prova na Rússia, em 2018 (Foto: Denis Klero/Red Bull Content Pool)
“Mixirica”, paixão pela bike desde sempre

“Mixirica” tem a bike no sangue: aos 13, ele decidiu descer a Serra do Mar pedalando, até chegar ao litoral de São Paulo. Desde então, suas aventuras foram ficando mais longas, e passaram a ter como destino outros estados, como Rio de Janeiro e Santa Catarina.

Em 2015, ele bateu o recorde de travessia entre o Monte Caburaí e o Chuí – os extremos norte e sul do Brasil. Foram 10.332 km percorridos em 57 dias – 22 dias a menos que o recorde anterior. Desta travessia, veio o convite para integrar o seleto grupo de ultraciclistas que disputariam a Red Bull Trans Siberian Extreme, em 2016. Ele participaria ainda mais duas vezes desta competição extrema na Rússia, conquistando o bronze nas três edições.

“’Mixirica’ é um cara fora do normal”, diz seu treinador Mario Sanchez. “Ele criou uma adaptação de vida diferente das de atletas profissionais. Se você o chamar para algo louco, como um pedal de mil quilômetros sem apoio, por exemplo, ele topa na hora. Por isso acredito que ele consiga quebrar o recorde da RAAM.”

Pódio da Red Bull Trans Siberian 2018 (Foto: Pavel Sukhorukov / Red Bull Content Pool)

Na RAAM, além da longa distância, ele terá outros grandes desafios, principalmente a partir do segundo ou do terceiro dia. As temperaturas podem chegar aos 50ºC graus no deserto. Em seguida, terá de encarar as subidas extremamente íngremes e longas das montanhas do Colorado, que chegam aos 3 mil metros de altitude. Depois disso, o relevo alivia, mas o vilão passa a ser o vento contrário. E, para terminar, “Mixirica” ainda tem que transpor no pedal os Montes Apalaches, uma das famosas cadeias de montanhas da América do Norte.

Competição preparatória

Como parte da preparação para a RAAM, “Mixirica” vai pedalar por 12h consecutivas na região de Cabreúva, em São Paulo, no próximo dia 16 de fevereiro (sábado). Será possível acompanhá-lo em três percursos diferentes: de 40 km, 45 km ou 50 km. Este pedal terá carro de apoio com mecânico e água, e custará R$ 50 por pessoa — grana que será revertida ao seu projeto “RAAM 2019”.

Chuva na longa distância (Foto: Red Bull Content Pool)

Serviço:

Pedal com o “Mixirica” em Cabreúva
Quando: 16 de fevereiro, sábado
Horário: Saídas às 7h, às 9h e às 11h
Onde: Rua Conselheiro Rodrigues Alves de Melo, 12, Centro de Cabreúva (SP)
Quanto: R$ 50 por pessoa (com carro de apoio)