Ficando em paz com a balança

Uma ciclista viciada em se pesar decidiu largar esse hábito por um mês -- e o resultado é surpreendente

USE COM MODERAÇÃO: Alimentos são muito mais que calorias e números

Por Christina Bonnington

COSTUMO ME PESAR toda manhã. Isso virou parte da minha rotina diária. Eu não estou desesperadamente tentando perder alguns quilos, mas, sim, manter meu peso e identificar tendências entre o que eu como, como me sinto e quão bem pedalo.

Verificar o peso regularmente tem seus benefícios. Você pode observar se repôs as energias de forma adequada durante ou após uma longa pedalada (se você perdeu peso, não consumiu calorias suficientes). Da mesma forma, ao se pesar antes e depois de uma competição, você pode observar quanto de água perdeu no suor. Tanto profissionais quanto entusiastas do ciclismo podem usar essa informação para descobrir o quanto devem se hidratar durante um treino.

Mas eu me perguntei se haveria desvantagens nesse meu hábito.

Stacy Roy, nutricionista norte-americana de São Francisco, não recomenda que seus pacientes se pesem. “Eu estimulo uma relação saudável com a comida e com o corpo, e acredito que a balança geralmente interfere nisso”, diz ela. Os alimentos são muito mais que calorias e números, explica Roy. Eles dão energia e desenvolvem músculos e, se você ficar focado na balança, vai deixar de comer seguindo seus instintos.

Robin Farina, ex-ciclista profissional e co-proprietário do centro de treinamento Revolution Coaching, nos EUA, também é contra pesagens diárias. “Não é necessário se pesar todos os dias”, conta Robin. “Para meus clientes que estão especificamente tentando perder peso, eu recomendo que se pesem uma vez por semana, no mesmo horário do dia, usando a mesma balança.”

Então, eu decidi parar de me pesar por um mês e ver o que aconteceria. Veja a seguir o que eu descobri.

Meu peso havia se tornado um vício…
A primeira semana foi inesperadamente difícil. Naqueles primeiros dias, eu ficava sempre me perguntando: “Quanto estou pesando?”. Tive problemas em resistir à tentação: acabei pedindo a meu namorado para que anotasse meu peso e escondesse o valor de mim enquanto eu subia na balança de olhos fechados (assim, eu poderia ver aqueles números ao final de um mês). Mesmo depois de eu ter parado de me pesar, totalmente compromissada com meu experimento, de vez em quando eu me pesava sem querer, por uma mera questão de hábito.

… depois, deixei de ligar para isso.
Após cerca de duas semanas, eu finalmente me senti bem sem me pesar. Percebi que ver (ou não) o número na balança não tinha nenhum impacto no restante do meu dia. Saquei também que, se houvesse uma flutuação de peso com a qual eu devesse me preocupar, com certeza perceberia ao vestir minhas roupas, ou ainda se meus tempos em subida diminuissem repentinamente.

Comecei a ouvir mais o meu corpo.
E isso significou comer mais, porém não muito mais. Eu comia carboidratos com mais frequência ao longo do dia, mas também fiz um melhor trabalho no sentindo de tomar líquidos com eletrólitos. Posso até ter cedido a uma terceira fatia de pizza de massa grossa no jantar quando, em outras épocas, eu teria ignorado a sensação de que “ainda estou com fome”.

Fiz treinos ótimos.
Embora seja difícil dizer se me pesar melhorou meu desempenho no ciclismo em algum momento, certamente não o prejudicou. Fiz alguns treinos espetaculares ao longo desse mês e fui superbem em treinos intervalados com os quais tive dificuldade no passado. Por outro lado, se você precisa perder alguns quilos, é importante ver o quanto seu desempenho vai melhorar quando você perder peso.

No fim, eu ganhei peso.
Eu me pesei no final do mês e descobri… que havia ganhado alguns quilos. Há algumas explicações para isso, segundo Jason Boynton, técnico de ciclismo e fisiologista do exercício. Um possível culpado: como as moléculas de carboidrato são hidrofílicas e eu havia aumentado minha ingesta delas, é possível que eu tenha elevado meu estoque corporal de carboidratos e ganhado peso em água.

Qual é a lição final?
Se é para ficar obcecado com um número diário, talvez seja melhor acompanhar a qualidade do sono, hidratação ou frequência cardíaca em repouso, em vez de apenas olhar os números na balança todos os dias. Daqui para frente, eu provavelmente vou me pesar com menos frequência, no máximo uma vez por semana. Como Roy sugere, quando eu me peso todos os dias, penso no que minha alimentação significa para o número que verei na manhã seguinte. Eu me senti mais feliz (e pedalei melhor!) me alimentando intuitivamente. Para fazer isso, preciso focar no que coloco no meu prato, e não no que a balança me mostra.