Giro d’Italia 2018: Christopher Froome é mesmo herói?

Team Sky (Froome de Maglia Rosa) é consagrado no Giro 2018 (Foto: Facebook Team Sky)

O BRITÂNICO CHRIS Froome (Team Sky) venceu a 101ª edição do Giro d’Italia (veja um vídeo com os melhores momentos mais abaixo), que terminou no último domingo (27/05/18), com o pelotão “passeando” por Roma. Foi uma prova meio atípica, com um “roubo” da Maglia Rosa, a “camisa“ que indica o atleta que está liderando na classificação geral, durante a penúltima etapa para valer – um renascimento meio que inesperado do tetracampeão do Tour de France, que se tornou o primeiro britânico a vencer o Giro. Por essas e outras, muita gente considerou o Giro d’Italia 2018 a melhor corrida de bicicletas dos últimos tempos. Mas nem tudo foi – ou melhor, é – só alegria. Leia a seguir um resumo do que mais representa esta edição.

SE DEPOIS DE quase duas semanas de prova o Giro d’Italia 2018 parecia “missão impossível” para o britânico Chris Froome, durante o 14º estágio (de 21) ele conseguiu finalmente vencer uma etapa, e bem no mítico Zoncolan. Por algum tempo, alguns voltaram a acreditar no poder dele. Mas Simon Yates voltou a vencer, e conseguiu deter a Maglia Rosa até a 19ª etapa. Foi quando Froome transformou sua “missão impossível” em um roteiro de filme de Hollywood.

Froome e seu Team Sky imprimiram um ritmo insano no Colle delle Finestre (a 2.178 metros, a maior altitude que o Giro d’Italia chegou neste ano). E Froome ainda atacou faltando 80 km para o final. Todos pensaram que neutralizá-lo seria uma questão de tempo, mas o britânico venceu a etapa mais dura do Giro com 3 minutos de vantagem para o segundo colocado, o equatoriano Richard Carapaz. Froome pegou a Maglia Rosa e ficou 40 segundos à frente do vice-líder da competição até então, o holandês Tom Dumoulin. E ninguém então ouviu mais falar em Simon Yates, que, ao que tudo indicava, conseguiria bem mais do que seus 15 minutos de fama neste roteiro emocionante do Giro 2018.

Froome: começo desacreditado

Froome pareceu começar este Giro meio desacreditado. Além de ele ter sua participação questionada – em razão de um caso de doping ainda em aberto contra ele –, tomou um tombo antes mesmo do primeiro estágio, um contrarrelógio individual em Jerusalém, enquanto fazia um pedal de aquecimento. E caiu novamente durante uma curva na oitava etapa, em razão da pista molhada. Apesar de não ter se contundido nem sido prejudicado na classificação geral, seu compatriota Simon Yates vinha sendo o personagem principal ao imprimir ataques vitoriosos. E dificilmente Froome conseguiria se juntar a Eddy Merckx e Bernard Hinault no panteão dos ciclistas que já venceram três ou mais Grandes Voltas na sequência.

O retorno, as dúvidas

Mas ele conseguiu. Mesmo assim, os entendedores do ciclismo preferiram caracterizar o que ele fez de “inacreditável”, em vez de “incrível”, “majestoso” ou “heroico”. Não vamos fingir que fechamos os olhos paro o ciclismo competitivo só por que Froome conseguiu algo que parecia impossível. Depois que a sua equipe Sky passou a ser citada em casos mal esclarecidos sobre o uso de substâncias proibidas e sistemas controversos de medicação, toda dúvida ainda parece ser pouca.

O ciclismo, com sua história de ética e credibilidade tão manchadas, parecia estar recuperando, pela enésima vez, sua confiança em caras como Yates e Dumoulin. Mas a vitória de Froome deixou as Grandes Voltas com um pouco do gosto do salbutamol (uma medicação indicada para o alívio no sistema respiratório e que consta na lista de dopantes da WADA), com o qual Froome foi pego na Vuelta a España em 2017 (edição que ele inclusive venceu).

Até julho, talvez o Tour de France, que nos últimos anos sentiu os amargos efeitos do doping com o escândalo de Lace Armstrong, não deixe Froome competir com um caso de acusação de doping ainda em aberto.

Por enquanto, ficamos sem saber se estamos diante de um script verdadeiro ou de uma chanchada.