Ciclistas de São Paulo pedalam um “Everest” numa tacada só

O grupo de amigos do clube Fuga.cc, durante o Everesting coletivo, em Campos do Jordão (SP)

Por Erika Sallum

Um grupo de ciclistas de São Paulo realizou um feito inédito entre os dias 7 e 8 de julho, em Campos do Jordão (a 175 km a nordeste da capital): pedalaram, juntos, toda a altimetria do Everest (8.848 metros) em uma única tacada — isso mesmo, foi como se tivessem subido o monte Everest pedalando.

Eles entraram para a história do ciclismo brasileiro, incluindo a primeira mulher a completar o desafio no país!

Galera que pedalou o equivalente a um "Everest"
Da esq. para dir., Bruno, Rafael, Vic, Paulo e Fred, que completaram o Everesting coletivo

Pedalar um “Everest”

O feito, conhecido como Everesting, foi criado há alguns anos por um clube de ciclismo australiano batizado de Hells 500 e, em linhas gerais, funciona assim: o ciclista precisa pedalar a altimetria da maior montanha do mundo — ou seja, 8.848 metros — de uma só tacada. Não pode parar para dormir, o pedal precisa acontecer em uma só subida, de uma só vez. Não há tempo limite para o feito ser realizado, porém não pode haver pausas entre uma subida e outra (apenas por alguns minutinhos, para comer e ir ao banheiro).

Trata-se de um esforço brutal. O máximo que pedalei na vida foi 4.700 metros, no desafio Triplo Stelvio, em junho deste ano. Depois de nove horas pedalando na mítica montanha italiana, eu estava exausta. Imagine pedalar o dobro disso, e em uma só subida…

O desafio

Para cumprir o equivalente a um Everest, os amigos paulistanos Bruno Rosa, Victoria de Sá, Rafael Chacon, Paulo Zapella e Fred Costa Pinto pedalaram um dia todo, uma noite inteira e mais uma parte do dia seguinte. Fizeram 14 vezes a estrada da “Serra Velha” de Campos do Jordão, que tem 12,6 km e média de 5% de inclinação. Começaram no dia 7 (sábado) cedinho  e terminaram só no domingo depois do almoço.

Cada um completou o Everesting em um tempo diferente, com alguns pedalando 18 horas e outros mais de 20 horas seguidas. Foram mais de 330 km (incluindo as descidas), e uma madrugada fria que bateu na casa dos 5 graus Celsius durante a madrugada, com picos de 25 graus por volta do meio-dia — quase um frio do Everest.

Everest: Ciclistas encarando a Serra Velha de Campos
Victoria (esq) e Rafael em uma de suas 14 subidas da Serra Velha de Campos (Foto: Fuga.cc)

Os ciclistas do “Everest”

Os ciclistas fazem parte do clube paulistano Fuga.cc, que organiza treinos semanais em locais como a Universidade de São Paulo (USP) e pedais em estradas e trilhas nos finais de semana. Também organizam eventos temáticos, com palestras sobre temas que vão de Tour de France a bate-papo com ciclistas profissionais.

Um dos integrantes, o veterinário, professor e pesquisador Fred Costa Pinto, veterano em Everesting, foi além e pedalou 10.000 de altimetria, entrando para a seleta High Rouleur’s Society do Hells 500.

Everest: A galera do Fuga, com os amigos que foram para dar uma força durante o Everesting
A galera do Fuga, com os amigos que foram para dar uma força durante o Everesting (Foto: Fuga.cc)

A advogada Victoria de Sá, cofundadora do Fuga, se tornou a primeira brasileira a completar um Everesting. No total, pedalou 21h35min; 343 km e 8.890 metros de ascensão acumulada. Aqui ela conta um pouco como foi a experiência:

Como e por que o Fuga pensou na ideia de um Everesting coletivo?

VICTORIA DE SÁ: Ficamos inspirados quando o Fred realizou o Everesting em uma subida de terra. Para a gente fez todo sentido organizar um evento coletivo a partir disso. Primeiro, porque a gente adora se meter nessas loucuras; segundo, porque um desafio desses exige uma logística grande, então parecia lógico a gente juntar essa complexidade em um evento só. A cereja do bolo é o apoio psicológico das pessoas. Se eu estivesse ali sozinha, teria desistido.

Qual foi a maior dificuldade durante seu Everesting?

Por incrível que pareça, a maior dificuldade foi a descida. Nesse momento, o frio atacava muito. Além disso, na segunda metade do desafio, eu comecei a ter dificuldades para conseguir frear porque a mão começa a doer demais. No fim das contas, eu sofria mais fisicamente descendo do que subindo.

Que lições e aprendizados você tira dessa experiência?

Acho que saí com duas lições importantes. A primeira é que não se consegue cumprir um desafio desse porte sozinho. Mesmo que ninguém te acompanhe na subida, é essencial ter alguém te ajudando com a alimentação, te mimando, trazendo conforto com um cafezinho, massagem, casaco e apoio moral. A segunda lição é que o melhor jeito de cumprir um desafio é pensar nele por partes e sempre olhar para trás e ver o que você já construiu.

Que momentos marcaram essas suas mais de 20 horas seguidas de pedalada?

O frio que a gente pegou durante a madrugada. Eu nunca passei tanto frio em cima da bike. Não dava para colocar muita roupa porque o corpo esquentava demais na subida. Só que a descida era longa e gelada! Eu pensei em desistir algumas vezes. A primeira foi às 22h30. Eu tinha feito 4 das 14 subidas. Estava escuro, frio e eu sentia muito sono. Não conseguia pensar em nenhuma razão para continuar. A segunda foi às 3h30 da manhã. Eu tremia tanto na descida que minha bike tremia junto. Pensei em subir mais vez a serra e daí parar. Mas, logo depois desse subida, quando cheguei de novo lá embaixo, havia uma turma nota dez que me recebeu com café quente, comidinhas e frases de incentivo. Eu sabia que, se me mantivesse até as 7 da manhã, conseguiria completar. Então, quando amanheceu, para mim foi muito fácil seguir, até a penúltima subida.

Teve alguma hora que bateu desespero?

Nas últimas subidas. Meu marido, Bruno Rosa, estava uma subida na minha frente e quis fazer a última dele (minha penúltima) junto comigo. Conforme fomos subindo, eu fui quebrando. Quanto estávamos na metade, tive que diminuir ainda mais o ritmo. Estava fazendo uma média de 6-7 km/h. Mesmo assim, eu ainda não conseguia achar forças para pedalar. Nunca tinha passado por isso. Não tinha um pedaço do meu corpo que não estivesse urrando de dor, parecia que eu tinha virado um zumbi. Bateu um pânico. Eu não iria ter forças para fazer a última subida. Logo a última! Isso acabou me desestabilizando bastante.

Eu cheguei ao ponto de apoio depois da descida sem forças para desclipar o pé do pedal. Eu estava tão travada que não conseguia nem mexer de posição e sair da bike. Ainda bem que tinha um pessoal junto para ajudar. Eu me troquei porque estava um calor de 30 graus. Comi a melhor combinação para dar aquela animada: Fandangos e Coca-cola.

Depois de ter pedalado do lado de vários amigos, foi a vez de minha amiga Rose me acompanhar. Ela foi essencial para eu conseguir fazer a última subida. Colocou um ritmo bom e fomos conversando e, quando me dei conta, já estávamos no topo!