Lenda do bike fit da Specialized, Andy Pruitt se aposenta

Andy Pruitt, lenda do design da Specialized, se aposenta
Andy Pruitt, lenda do design da Specialized, se aposenta

Por Selene Yeager, da Bicycling USA

O bike fitter que mudou a indústria e inovou nos produtos do mundo do ciclismo fala sobre sua carreira que marcou história

Ciclismo não deve ser desconfortável. Como co-fundador do CU Sports Medicine and Performance Center em Boulder, Colorado, e consultor exclusivo da Specialized há anos, Andy Pruitt, doutor em educação, sempre trabalhou a partir dessa premissa absolutamente simples. 

É claro que você vai sofrer. Mas não importa se você está competindo em um World Tour ou está num pedal de clube de ciclismo em um sábado de manhã, pedalar só deveria causar aquele tipo de agonia interna gloriosa e devastadora, não a sensação de agulhadas no corpo ou de membros ficando dormentes, doloridos ou extremamente desconfortáveis. 

A crença inabalável de que não apenas ciclismo não deve machucar, mas também de que conforto te permite ser mais veloz fez Pruitt, o filho desbocado de um quiroprata, nascido no estado americano de Kentucky, se tornar um dos mais influentes e inspiradores especialistas em biomecânica do ciclismo moderno. Seu legado inclui as sapatilhas Body Geometry, novos conceitos na forma de fazer bike fit, além de inovações no design e em propostas de fazer selins com variedade de tamanhos – tudo isso sempre pensando em otimizar a performance baseada na anatomia individual. 

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Pruitt completa 70 anos em breve e abandonou o trabalho com biomecânica há 5 anos atrás. Em 20 de novembro, depois de trabalhar por duas décadas como consultor exclusivo da Specialized, ele se aposentou oficialmente da marca. Batemos um papo para refletir sobre sua carreira e o que vem pela frente.

Bicycling: Por que se aposentar agora?

Pruitt: Foi o vigésimo aniversário do conceito da sapatilha Body Geometry. Vendi a ideia para a Specialized em 1999.  Pouco depois, o Mike [Sinyard] me ofereceu um posto de consultor exclusivo, e eu tenho trabalhado com a Specialized como consultor independente pelos últimos 20 anos. Nós fizemos sapatilhas, selins, bike fit, e criamos o Retül [tecnologia de bike fit da Specialized]. Foram duas décadas incríveis e maravilhosas. 

Mas eu estava com medo de passar mais um inverno viajando. Morrendo de medo mesmo. Fica mais difícil encarar um voos de 8 ou 10 horas atrás do outro conforme você fica mais velho. Eu tinha na agenda ir para Morgan Hill, trabalhar lá por dois dias, voar de São Francisco para Paris, depois de Paris para a Espanha, trabalhar lá, depois ir para Frankfurt. Voltar para casa no Natal e depois de novo para Morgan Hill, e fiquei com medo disso tudo. Vinte anos disso foram suficientes.   

Estou me aposentando com um ótimo trabalho no legado que eu deixei. Treinei profissionais pelo mundo todo; criei sapatilhas que estão aos milhares pelo mundo; vendemos 40 mil selins Mimic nos primeiros seis meses de lançamento. Foi uma época ótima. E, para ser honesto, eu tenho outros interesses agora que não quero ignorar para sempre. Gostaria de fazer muita coisa na área de bem estar e saúde. Não vou parar de trabalhar, óbvio. Não consigo parar quieto. Gosto de fazer coisas. 

Qual você considera ser sua inovação mais importante?

Ah, o selim feminino. Absolutamente. 

Quero dizer, a sapatilha Body Geometry realmente fez o mundo acordar para a necessidade de se concentrar na linha Z durante o bike fit, e a importância do alinhamento quadril-joelho-pés. A sapatilha era tão complexa que ninguém nunca tentou copiá-la. Eles tentaram copiar o conceito da forma do calçado, mas não da sapatilha, que era realmente revolucionária na época. Mas a sapatilha era um produto que ninguém sabia que queria – mas eu sabia que quando eles experimentassem iam querer. 

Já o selim era um projeto que as pessoas me procuravam para dizer que tinham um problema e me pediam ajuda para resolvê-lo. Se eu voltar para minhas raízes na área clínica, essa era a base do meu dia: 20 pessoas em frente de você te falando: “eu tenho um problema”, e eu pensando “como vou resolver isso?” E foi isso que o selim feminino me ajudou a fazer. 

A resposta ao lançamento foi uma loucura… os e-mails que eu recebia das pessoas. Não posso quebrar o voto de confiança, mas uma ciclista muito famosa disse que eu salvei a vida dela com esse selim, e ela saiu mesmo vencendo tudo quanto era prova depois dele. Além disso, um terço dos Mimics são vendidos para homens. Tem equipes continentais masculinas inteiras usando o Mimic.

Selim Specialized Mimic
O selim Mimic, da Specialized, foi um dos projetos mais testados até virar um produto que mudou o ciclismo

Eu usei de base o trabalho que o Roger Minkow [o médico que criou os primeiros selins Body Geometry da Specialized em 1998, a partir de uma matéria da revista Bicycling sobre disfunção erétil de 1997] fez a partir do fluxo sanguíneo masculino e fui adiante.

Acho que fui capaz de empurrar a indústria para inovar em coisas que não tinham sido feitas ainda e poderiam não ter sido feitas nunca se nós não tivéssemos dado esse empurrão. Mesmo desenvolver selins com numeração, com diferentes tamanhos, foi algo enorme. Quando Todd Carver trabalhou comigo no BCSM [Centro de Medicina Esportiva do Colorado], nós tínhamos um mapa de pressão colado na mesa dele e todo mundo que ia ao laboratório, não importa quem fosse, sentava na mesa dele e medíamos as tuberosidades isquiais da pessoa.

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Isso fez muita diferença. Se você perguntar para um urologista de 60 anos se existe uma ligação entre ciclismo e disfunção erétil, ele vai dizer que sim. Se você perguntar a um de 40 anos a mesma coisa, ele vai dizer que não. 

Tudo que aprendemos e toda a tecnologia que descobrimos com o Mimic vai ser aplicada no Mirror, um projeto de selim feito em impressora 3D. Vai melhorar cada vez mais. É um projeto de selim que me deixa desolado por deixar de participar. Mas sempre vai ter despedidas tristes e contas deixadas em aberto.

Qual foi uma das suas transformações profissionais mais notáveis? 

Digamos que, quando Peter Sagan competia para o [Oleg] Tinkov, fazia um bom tempo que ele não vencia nenhuma prova e o Tinkov aparecia na imprensa dizendo que tinha gastado dinheiro demais com o Sagan, que ele não conseguia ganhar e blablablá. Bom, fizemos um bike fit muito detalhado no Sagan e ele começou no dia a seguinte a vencer o Tour da Califórnia. Até hoje ele continua usando alguns ajustes que fizemos.

Agora, eu não quero ninguém dizendo: “ah, o Andy acha que ele é responsável pelas vitórias do Peter Sagan”. Isso não é verdade. Ele tinha uma ou outra coisinha que estavam impedindo ele de colocar o motor para funcionar na potência máxima. Essas coisas se manifestaram na forma de lesão. Nós focamos nelas e liberamos a potência que estava presa.

Um fit e equipamento adequados podem liberar aquele percentual que não tinha sido aproveitado ainda, especialmente em ciclistas de elite. E, claro, pode prevenir lesões. Eu acho que o fit da Body Geometry realmente mudou a direção da indústria. Foi o primeiro a fazer capturas de movimento em 3D. Se você vai inventar novos sistemas de pedais e guidões e todo esse tipo de coisa diferente, você tem que responder pelas consequências.     

Se você voltasse ao trabalho full time, qual seria seu primeiro projeto?

A sapatilha de ciclismo não faz tudo que ela poderia fazer se fosse como uma coisa viva. O pé é uma estrutura complexa que foi projetada para andar e correr. No ciclismo, capturamos o pé e o usamos em um determinado nível funcional. Então, deixamos de lado várias propriedades mecânicas do pé. Não posso revelar ainda algumas das ideias que já dei à Specialized, e eles ainda não estão prontos para fazer o acessório para pés definitivo – não vou nem chamar de sapatilha – mas posso dizer que é algo que vai mudar o mundo. 

Pruitt tem clientes de bike fit como Tom Boonen (na foto), Fabian Cancellara, Alberto Contador e os irmãos Schleck, além de Peter Sagan

Você mesmo é um excelente atleta. Qual sua conquista pessoal no esporte que te dá mais orgulho?

[Pausa longa] Você é a única pessoa que já me perguntou isso e eu fico agradecido. Eu tive uma carreira como atleta que sempre andou em paralelo. Teve uma época em que eu estava clinicando, competindo e prestando consultoria para a Specialized. Eu tentei fazer os três ao mesmo tempo e a que pagou o pato foi a carreira atlética! Mas quando eu me aposentei da área clínica, as pessoas começaram a dizer “meu Deus, como você está pedalando bem!”. É impressionante o que 40 horas livres por semana podem fazer por você!

De qualquer modo, uma das minhas conquistas que mais me dá orgulho é que, como amputado [Pruitt perdeu a parte inferior da perna direita em um acidente de caça quanto tinha 14 anos], eu consegui atingir status de Categoria 2 como paratleta de ciclismo.  Eu fico realmente feliz de ter encontrado um esporte que me deixa ser eu mesmo e que me permitiu competir no mesmo nível com meus amigos que não tem nenhuma deficiência. 

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Eu também tenho dois Campeonatos Mundiais Paralímpicos. Se eu tivesse que escolher uma conquista, seria a vitória do Mundial de 1987. Foi tão difícil… estava muito quente, tinha muitas subidas, e eles tinham acabado de refazer o asfalto, então ele estava grudento e soltando pedrinhas conforme pedalávamos por ele. Os pedaços de asfalto voavam e batiam na minha prótese, então era como se estivesse no cascalho, só que pior. Foi um dia e tanto. Se eu tivesse que escolher um dia, seria esse. 

Agora, eu sou tão abençoado quanto dá para ser e continuo competindo. Eu vou fazer a Dirty Kanza 100 no meu aniversário de 70 anos esse ano. 

O que a maioria dos ciclistas ainda faz de errado apesar de duas décadas de bons conselhos?

Pedalar desconfortável! Você vê isso em qualquer grupo de pedal. Tem um pedal que sai de sábado por asfalto e outro que sai em roteiros de gravel de domingo de uma das bicicletarias do centro. Eu apareço várias vezes por mês e fico horrorizado com coisas que vejo. Minha vontade é sair espalhando meu cartão de visita! Eu tenho conversas assim: – Qual o problema com seu pé esquerdo? – Não tem nada errado com meu pé esquerdo. – Porque ele fica desse jeito? – Ah, é que eu quebrei ele quando era criança. – Dói? – Claro que dói! As pessoas sentem dor e acham que tem que tolerar. 

Querer que sua bike fique parecida com a de outra pessoa acontece muito também. Ou pensar que você tem que aguentar desconforto na bike para ser um ciclista veloz. Você realmente não precisa. Existem bike fitters qualificados e tecnologia que podem te ajudar. Não tem nada a ver com ser durão. Você pode sofrer fisiologicamente por pedalar forte, isso sim. Mas você não deve sofrer por estar desconfortável na bike.