A ciclista das longas distâncias

Uma britânica está redefinindo o conceito de "aventuras épicas com uma bicicleta"

A britânica Emily Chappell não se contenta apenas em redefinir o conceito de “aventuras épicas de bicicleta“. Ela também aposta que qualquer um é capaz de completar uma. Pioneira em um coletivo que estimula longas distâncias nos pedais pelo mundo, o Adventure Syndicate, esta ex-entregadora de bike de 35 anos percorreu os 4.184 quilômetros da  Transcontinental Race duas  vezes, e já cruzou trinta países pedalando sozinha. Sua missão atual? Usar grandes pedaladas para desafiar nossas crenças ligadas a noção de segurança e limitações de cada um.

Por Tracy Ross

Bicycling: Por que você decidiu começar, junto de outras ciclistas de longa distância, o Adventure Syndicate [“Sindicato da Aventura”, em tradução livre]?

Emily Chappell: Quando eu comecei a trabalhar como bike messenger em Londres, aos 23 anos, eu fiquei apavorada. Mas, duas semanas depois, senti que eu conseguia fazer aquilo. Essa é a mesma sensação que ainda tenho quando faço minhas longas e solitárias viagens de bicicleta. Neste nosso projeto, queremos semear este sentimento e torná-lo acessível a quantas mulheres for possível.

Esse plano tem funcionado?

Temos tido muito sucesso. Muitas vezes, as inscrições dos nossos eventos se esgotam antes mesmo do anúncio oficial. Nos últimos dois anos, mais mulheres começaram a pensar em fazer saídas longas e difíceis. Oferecemos aulas e workshops sobre como tornar isso uma realidade. 

Qual foi sua primeira “mega” pedalada?

Eu já tinha feito algumas viagens de longas distâncias — de três dias a três semanas — antes de decidir pedalar ao redor do mundo, em 2011. Dezoito meses depois, eu cheguei ao Japão e decidi dar uma parada. Um tempo se passou, retomei e percorri 21 países, incluindo França, Holanda, Gales, Eslovênia, Sérvia, Turquia, Irã e Paquistão. 

Você fez muitas dessas longas distâncias sozinha. Não é perigoso, às vezes?

Não. Eu me senti segura em mais de 90 % do tempo. Você se dá conta de que a maioria das pessoas são bacanas, querem te ajudar e estão curiosas sobre você. Em praticamente todos os dias na estrada eu tive algum tipo de encontro que me aquecia o coração. No Japão, por exemplo, estava pedalando em uma noite fria, sob uma tempestade, e notei que estava com fome. Logo que este pensamento passou pela minha cabeça, vi um cara encostar seu carro e acenar para que eu parasse. Ele tinha comida para mim. Eu não entendo japonês, mas pelo que pude decifrar, ele estava dizendo: “Eu vi você e achei que estava com fome. Toma aqui este hambúrguer.”

O que você tira disso?

Que a magia existe e está por aí. Você fica muito mais sintonizada com as coisas quando está na estrada. E suas necessidades são bem óbvias. Logo, você é um alvo fácil da boa vontade das pessoas.

Você já teve experiências ruins?

A pior coisa que aconteceu foi ser convidado a ficar em um posto de gasolina no oeste do Irã, por alguns caras que deixaram claro, à medida que a noite passava, que esperavam certos “serviços”. A situação atingiu um limite. Gritei muito, fugi e acampei na beira da estrada. Mas não tive exatamente medo. Fiquei muito irritada, isso sim, por ter de fazer as malas de novo e subir na bike quando já estava exausta. Uma pena isso ter acontecido justo no Irã, que, fora esta situação, havia sido o lugar onde encontrei mais bondade e generosidade por onde viajei. Estar sozinho não é brincadeira, para mulheres ou homens. E eu não caio no mundo sem entender os riscos. Eu sou uma geek do perigo. Eu peso todos os riscos. Se você os conhece e fica alerta, consegue tomar decisões objetivas em relação à sua segurança.

E você também fez a Transcontinental duas vezes?

Sim. A primeira foi 2015, mas eu não terminei.

E então decidiu encarar de novo?

Sim, em 2016. E aí eu ganhei, mesmo tendo feito um desvio enorme, acidentalmente, para a Albânia. Quando me dei conta do que tinha feito, me senti muito, mas muito mal mesmo por um momento. Faltavam mil quilômetros e três dias para terminar. Não tinha jeito. Subi na bike e voltei a pedalar. E essa é a verdade sobre esses desafios: a maior parte do tempo não há o que fazer senão sentar na bicicleta, observar a estrada lá na frente e girar os pedais. Já as pedaladas longas, sem competição, são mais fáceis. Você nem precisa de tanto planejamento assim. É bom ter um mapa e alguma forma de navegar — um celular ou um Garmin. Mas não é preciso ficar preso a uma rota. Você acorda, observa como se sente naquele dia, pega a estrada e vai. Se não estiver com pressa, por que não curtir mais locais interessantes, como uma montanha ou um lugar perto de um rio…

Qual é a sua mensagem final?

No Adventure Syndicate, gostamos de dizer que você é capaz de muito mais do que pensa. Não me vejo como uma pessoa “iluminada”. Também sinto receio e, na maior parte do tempo, isso demora para passar. Mas eu sigo em frente. Pela liberdade. Pela aventura.

[Matéria publicada na revista Bicycling nº 14; janeiro/fevereiro de 2018]