Mais ciclovias representariam 10 mil vidas salvas por ano na Europa

Um estudo envolvendo 167 cidades europeias demonstra os efeitos positivos e limites de investimento em mais infraestrutura cicloviária

Imagem: Flickr/ Tejvan Pettinger

Por Verônica Mambrini

Os benefícios de construir mais infraestrutura cicloviária são muitos e daria para falar sobre isso por dias, mas um estudo europeu conseguiu chegar a um benefício demonstrado em números mais relevante que todos: aumentar as redes cicloviárias, é possível evitar 10.000 mortes precoces por ano. “É o primeiro estudo que avalia as associações potenciais entre o tamanho da rede cicloviária e impactos na saúde em cidades europeias”, diz Natalie Mueller, pesquisadora do Instituto de Saúde Global de Barcelona e responsável pelo estudo.

O estudo foi produzido pelo Instituto de Saúde Global de Barcelona, com objetivo de verificar se houve uma relação entre o aumento da popularidade das bikes como meio de transporte urbano e taxas de mortalidade. Os resultados, compilados de 167 cidades e publicados no jornal Preventive Medicine, são chocantes. Se 24,7% de todos os deslocamentos fossem feitos de bicicleta, Londres teria menos 1.210 mortes por ano, Roma teria 433 vidas prservadas, e Barcelona, 248. Considerando todas as cidades incluídas no estudo, é um número de vidas considerável.

Como a bike evita mortes?

Três fatores principais entram na equação: melhoria na qualidade do ar, na saúde pública geral e colisões de trânsito. O incentivo para que mais pessoas mudem de outros modais de transporte para a bicicleta (com exceção de caminhar, modal que o estudo considerou como uma variante estável), implementar mais ciclovias aumenta os níveis médios de atividade física e aumenta benefícios para saúde na população. A redução de emissão de partículas por veículos cai, tornando o ar menos nocivo à saúde. E finalmente, se os modais motorizados são menos usados, o número de pessoas que esses veículos matam em colisões de trânsito também cai.

Apesar do valor inquestionável de salvar vidas, pode ser difícil garantir os investimentos para levar a essa redução da mortalidade. Para atingir 24,7% de viagens diárias feitas de bike, seria necessário ofertar à população 315 quilômetros de ciclovias para cada 100 mil habitantes – na prática, algo próximo de ter uma faixa dedicada em cada rua.

O custo disso, de acordo com o relatório, considera que na Holanda, cada novo quilômetro de ciclovia custa cerca de €2 milhões (o valor parece alto, mas é um cálculo que inclui remodelar totalmente a via e o tráfego, e não apenas aplicar tinta). Em cidades com redes cicloviárias mais frágeis, seria necessário uma injeção de investimento para gerar uma mudança real. Em Londres, apenas 3% das jornadas diárias são feitas de bicicleta, em Barcelona são 2% e, em Roma, apenas 1%. Em cidades assim, o valor para atingir o uso de quase um quarto dos deslocamentos diários seria enorme.
Vale quanto custa?
O impacto financeiro das redução de mortalidade compensa, contudo. Em Roma, aumentar os deslocamentos de bike em 10% já pouparia €70 para cada euro investido em ciclovias. Em Barcelona, esse retorno é de €35, e em Londres, €8.

Outra previsão interessante do estudo é que o maior retorno está em locais onde a infraestrutura é mais rudimentar, uma vez que o incremento inicial em estrutura cicloviária já causa um efeito enorme no uso de bicicletas cotidianamente. Por isso Roma teria um benefício financeiro tão grande ao incentivar mais bicicletas nas ruas.

Uma vez que os deslocamentos de bicicleta cheguem a um quarto do total, os investimentos adicionais, contudo, podem não trazer resultados tão impressionantes. Isso ficou claro vendo os exemplos de Antuérpia, na Bélgica, e em Örebro, na Suécia, duas cidades com alta proporção de ciclistas na rua. Örebro tem 2,5 vezes mais quilômetros de ciclovias por habitantes do que Antuérpia, mas muito poucos ciclistas a mais (25% na cidade belga contra 23% na cidade sueca). Se existe algum tipo de ponto de saturação, talvez Antuérpia tenha chegado nele.

Isso não quer dizer que 25% dos deslocamentos seja um teto impossível de ultrapassar. Copenhagem e Amsterdã, por exemplo, passam em muito essa proporção. O estudo revela que, a partir de um quarto das viagens diárias feitas de bike, para aumentar esse percentual, é preciso outras medidas, como restrição de veículos e redução do espaço viário dedicado aos carros. Mas mesmo na Europa, pouquíssimas cidades atingiram um uso tão alto de bicicletas no cotidiano.

Um dos pontos fortes do estudo é fazer a avaliação econômica dos benefícios da bicicleta como parte de uma administração municipal saudável – não apenas mantendo a fluidez no trânsito, mas aliviando impactos no sistema público de saúde e tornando espaços públicos mais limpos e aproveitáveis para a população.

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