Mallorca: tudo sobre este paraíso do ciclismo de estrada

Por Erika Sallum | Fotos: Wagner Araujo

Que a Europa é cheia de lugares imperdíveis para se pedalar, isso a gente já sabe. Mas todo o burburinho em torno da ilha de Mallorca, no arquipélago das Baleares, não é exagero. Mesmo para os altos padrões do continente europeu, difícil encontrar em uma mesma região tantas paisagens sensacionais, estradas perfeitas e hordas de ciclistas apaixonados pelas mesmas coisas que você.

Encravada na parte ocidental da costa espanhola no Mediterrâneo, essa província e comunidade autônoma espanhola recebe centenas de bicicletas nos meses que antecedem o verão (na verdade, são 40.000 no ano todo), quando a temperatura já começa a subir, mas ainda não há a algazarra dos turistas festeiros à procura de baladas ali e na vizinha Ibiza.

Logo nos primeiros pedais, bate a certeza de que poucos destinos no planeta vão rivalizar com suas estradas cercadas de mar azul-turquesa vivo, montanhas de vegetação rasteira, luz solar laranja mediterrânea e um vai e vem magnífico de magrelas explorando cada canto. Ao se pedalar ali no comecinho de uma manhã, não há como evitar a emoção que chega nas curvas e nas subidas – assim como uma indescritível sensação de se estar no lugar certo, na hora certa.

A seguir, algumas das melhores atrações ciclísticas da ilha, para você se preparar para suas próximas férias:

SA CALOBRA 

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As inesquecíveis e sinuosas curvas da montanha mais famosa deMallorca: Sa Calobra

Mesmo relativamente curta para o universo do ciclismo de estrada – com apenas 9,5 km –, Sa Calobra está sempre na lista de “montanhas a subir na vida” de nove entre dez apaixonados por esse esporte. Há pirambas bem mais desafiadoras na Europa (né, Stelvio?), mas essa espanhola guarda um charme inigualável ao longo de seu zigue-zague de encostas rochosas, com raros pontos de verde aqui e ali. Para se chegar ao porto com restaurantes e cafés pitorescos, é preciso primeiro descer a montanha toda, após encarar outras subidas e descidas até o topo. Isso porque o porto é o ponto final do trajeto, em um “bate e volta” que pode facilmente ser classificado como um dos mais bonitos da Europa.

Logo no início da descida da serra, surge uma curva tão fechada que faz um espiral em si mesma – há apenas cinco estradas parecidas no continente, e quase nenhuma tão amigável para bicicletas.

O ganho de altimetria é pouco: 668 metros. A média de dificuldade das subidas fica em 7%, com trechos que chegam a 12%. Nada super cansativo, porém exigente o bastante para você se sentir um rei da montanha após conquistá-la.

Se você for a Sa Calobra em janeiro e começo de fevereiro, tem grandes chances de treinar ao lado de profissionais do Team Sky e outras equipes internacionais, que batem cartão ali nos meses em que está congelante demais no resto do continente.

Mas nem pense em ficar noiado com Strava, Garmin e performance ao pedalar em Sa Calobra pela primeira vez. É beleza demais para você não dar ao menos uma desacelerada para apreciar em cima da bike uma das vistas mais impressionantes que passará na sua frente.

CAP FORMENTOR

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Nossa diretora de redação, Erika Sallum, curtindo as belezas do Formentor

Se uma imagem resume bem a relação íntima entre ciclismo e Mallorca é o cartão-postal do farol de Formentor. O local fica no ponto mais ao norte da ilha e é conhecido como o “encontro dos quatro ventos”, já que ali sopram ventos vindos dos Alpes, da Espanha continental, do Oceano Atlântico e do norte da África.

De Alcúdia, não é um treino longo – são apenas 50 km –, mas a variedade de terrenos e paisagens faz de Formentor um trajeto que supera em beleza até mesmo Sa Calobra.
Para desbravar Formentor, é possível escolher entre vários percursos. Os fins de tarde são menos cheios de ciclistas e com a luz mais indicada para para- das fotográficas. Pela Serra de Tramuntana, protegida como Patrimônio da Humanidade pela Unesco, você pega uma pequena subida de uns 4 km até começar um sobe e desce longe da costa, por uma estrada ornamentada de pinheiros.

De lá chega-se à parte mais cinematográfica de Formentor, na qual a estrada serpenteia por encostas rochosas, pertindo do mar azul-anil. Ao fim dessa via, lá está o farol, todo majestoso, observando o Mediterrâneo, cuja primeira construção data de 1863. Pare para tirar fotos, tomar um café e perder alguns minutos admirando a maravilha que é pedalar ali.

PUIG MAJOR

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A maior subida de Mallorca tem 14 km e gradiente médio de 6,2%. Não é tão bela quanto Formentor, mas vale o treino por sua paisagem mais verdejante, que muitas vezes lembra Campos do Jordão (SP). Em seu topo, faz bastante frio, por isso não esqueça o corta-vento, mesmo em meses mais quentes. É possível criar um roteiro longo,
com mais de 130 km, partindo de Alcúdia e cruzando a Serra de Tramuntana. Nesse trajeto, antes de Puig Major, você precisa encarar outra subida, a de Cap de Soller, com 7,4 km e gradiente médio de 6%. Somando as duas, mais um trecho de morros de volta a Alcúdia, e o treino se revela bastante exigente, mais indicado para quem está bem treinado.

PORT DE POLLENÇA – LLUC

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Eis 100 km imperdíveis. Partindo de Alcúdia, chega-se logo a Port de Pollença, uma cidadezinha agradável cheia de restaurantes à beira-mar. Por estradinhas secundárias, que cortam plantações de laranja e rebanhos de ovelhas, vai-se até Lluc, passando por vilarejos e montanhas não muito altas.

Em Mallorca, como na maior parte da Europa, é proibido pedalar em autoestradas. Entretanto isso não é um problema: a ilha conta com um emaranhado de estradas menores, algumas da largura de um carro, que também revelam ao visitante um pouquinho do lado mais rural da região.

No trajeto de ida e volta de Lluc, que não passa dos 1.200 metros de altimetria, é a chance de ver o dia a dia dos habitantes mais de perto. Alguns trechos em estradas secundárias mais movimentadas requerem maior atenção do ciclista – a ilha registra todos os anos alguns acidentes envolvendo carros e bikes.

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Algumas informações básicas antes de partir

QUANDO IR?

Evite os meses do alto inverno
se você é friorento – o vento de Mallorca pode ser brutal. No entanto é mesmo quando os termômetros despencam, em dezembro e janeiro, que os profissionais de equipes como o Team Sky exploram a ilha. Os meses mais confortáveis para quem pedala são março, abril e maio. Nada de ir no verão, quando Mallorca fica muito cheia de carros e turistas baladeiros.

QUEM LEVA?

Os mineiros do Peloton pelo Mundo organizam anualmente training camps em Mallorca com enfoque no triathlon – mas com ênfase na bike. Prestativos, doces e eficientes, providenciam tudo o que você precisa por lá. Pacotes de sete dias a partir de € 1.400 (sem aéreo)

O QUE LEVAR?

Roupas de frio, como corta-vento, segunda pele e luvas de dedo longo, são essenciais. Para quem sofre com a ventania gelada, não esqueça um bom protetor de pescoço. Em meses como abril, pedalar de calça comprida também é uma boa pedida.