Mi casa, tu casa

Em vários países da América Latina, as Casas de Ciclistas recebem visitantes com suas magrelas sem cobrar diárias, em uma demonstração de amor à bike e às cicloviagens

No coração da Patagônia argentina, a Casa de Ciclistas de El Chaltén recebe viajantes de bike

Por Verônica Mambrini

IMAGINE SE SUA bicicleta fosse capaz de, literalmente, abrir portas. Em alguns lugares, isso é verdade. Nas chamadas Casas de Ciclistas, localizadas em diversos países da América Latina, cicloviajantes cansados são bem-vindos para recuperar as energias, tirar o pó da estrada com uma boa chuveirada quentinha e aproveitar um lugar tranquilo para relaxar. Tudo de graça, ou pagando uma ajuda de custo mínima para manter o projeto funcionando.

Uma das mais antigas é a casa de Lucho, apelido de Luis Alberto Ramírez D’Angelo, em Trujillo, no Peru. O primeiro ciclista que Lucho recebeu foi em 1985, e nestes mais de 30 anos cerca de 2.000 pessoas viajando de bike já passaram por ali. Enquanto as redes sociais de troca de hospedagem como o Warm Showers e o Couch Surfing possuem anfitriões cadastrados em todos os continentes, as Casas de Ciclista são típicas da América Latina. Há cerca de 30 delas em países como Peru, Bolívia, Guatemala, Equador, México, Venezuela e Guiana Francesa.

Desde 2012, o Brasil também conta com uma, em Foz do Iguaçu, no Paraná. Aqui a hospedagem se localiza na Associação Ciclística Cataratas do Iguaçu, mantida por voluntários. “Temos três beliches, cozinha e banheiro à disposição para cicloviajantes e já recebemos quase 200 visitantes, a maioria europeus”, conta Luciano Castilha, presidente da associação e coordenador do lugar. Como nas outras casas de ciclista, é esperado que o viajante contribua com a limpeza e a organização do espaço pelo tempo que decidir ficar por ali. A estadia é de graça, porém contribuições para aluguel, luz e água caem bem, uma vez que a casa se mantém por meio de doações. “Fazemos também alguns eventos, como festas e encontros de cicloturismo, que ajudam a arrecadar dinheiro”, diz Luciano. “Só pela divulgação positiva da cidade já vale o trabalho de manter a casa. Praticamente todas as experiências foram legais, e receber pessoas de fora nos dá muita vontade de conhecer outros países. Além disso, a maioria dos cicloviajantes tem blogs, alguns escrevem para revistas na Europa. Queremos que Foz seja conhecida como um destino turístico e acolhedor para bicicletas.”

É justamente esse espírito colaborativo, a conexão entre as pessoas e o sentimento de pertencer a uma enorme família em duas rodas que mantém viva a Casa de Ciclistas de El Chaltén. Trata-se de uma das mais conhecidas, por estar na capital do ecoturismo na Argentina, aos pés do Monte Fitz Roy, e em uma rota por onde passam centenas de cicloviajantes todo ano. Outro grande atrativo é o alto astral de Florencia Lopez, que cuida do estabelecimento. “Quero que você se sinta como se estivesse na sua casa”, diz Flor a cada ciclista que chega. Ela nasceu em Piedra Buena, a cerca de 500 km de El Chaltén, mas sempre sonhou em morar aos pés da montanha. Uns anos atrás, ela conseguiu comprar um terreno na região, onde da casa se vê uma pontinha do Fitz Roy.

Flor passa o verão lá, e quando a cidade fica vazia e o inverno de vento e neve deixa tudo mais complicado, volta para Piedra Buena para trabalhar com a família. Flor conheceu as Casas de Ciclistas por meio de um vizinho que recebia bikers em El Chaltén e que resolveu sair pelo mundo em sua própria viagem. A moça decidiu, então, assumir a tarefa de manter em seu terreno as portas abertas para quem chegasse de bicicleta. “Preservar o sentimento de irmandade é importante”, reforça. Flor é mãe de três, e o mais novo, Fernando, de 12 anos, passa o verão com ela na Casa de Ciclistas e participa da mistura de línguas, receitas de vários lugares do mundo à mesa e já fez ele mesmo sua primeira viagem, até El Calafate, a 213 km de distância.

Flor também planeja seu tour pelo mundo. “Eu não deixo de sonhar com minha jornada. Preciso ter alguém que mantenha a casa quando eu não estiver aqui. E quero aos pouquinhos transformar parte dela em um hostel, com o camping, banheiro e cozinha disponíveis de graça para os ciclistas, como é hoje.” Flor é do tipo “mãezona”. Entretanto algumas regras da casa precisam ser levadas bem a sério: “Ou você comparte e se abre, ou é melhor ir embora”. Quase todo dia chega alguém, e ela sabe a hora exata de propor um asado – churrasco coletivo – para a noite. No quintal, um monta a grelha e faz a brasa, outro se encarrega das compras, um time cuida de lavar a salada e outro da louça. Tudo isso enquanto a noite cai, por trás da montanha, e vozes com muitos sotaques se misturam em risadas, na troca de dicas de caminhos e bons lugares para acampar. É fácil entender por que a choradeira desata quando chega a hora de alguém seguir viagem: a bicicleta aperta os laços de uma forma muito rápida, de um jeito impressionante.

Aos pés do Fitz Roy, ciclistas de várias partes do mundo trocam experiências

Apesar de receber todos os cicloviajantes sem restrição, Flor diz que nunca teve problemas. Na temporada, passam por volta de 200 ciclistas por lá. “O quintal já abrigou mais de 30 pessoas de uma vez. É só arrumarmos com cuidado as barracas que sempre cabe mais um”, diz a argentina. A cozinha e o banheiro são pequenos, mas com boa vontade mesmo dezenas de ciclistas conseguem se entender e mergulhar na experiência do uso comunitário. As regras podem variar um pouco de um lugar para outro. Na Casa de Ciclistas de La Paz, na Bolívia, pede-se uma contribuição mínima equivalente ao gasto de energia elétrica e água, por volta de R$ 5, e o dono não divulga o endereço na internet por segurança. É comum chegar às casas e dar de cara com um mutirão consertando o telhado, um mural sendo pintado nas paredes ou refeições coletivas rolando em clima de festa. Em comum, todas elas têm uma coisa: inspiram o desejo de compartilhar e de oferecer algo. Talvez a melhor bagagem que se possa levar em uma bicicleta.

Abra suas portas também

Tem espaço para receber ciclistas? Então crie sua própria casa para cicloviajantes

> A internet ajuda a disseminar as informações, por meio do boca a boca. Ao criar um blog ou site, deixe claro se prefere que endereços não sejam publicados ou passados adiante e divulgue um canal de contato, como e-mail ou telefone.

> Regras claras ajudam a impor limites: pode usar a geladeira da casa? Existe uma caixinha de contribuição? Onde exatamente o ciclista pode se alojar? Breves explicações ao receber o hóspede ou plaquinhas de avisos evitam mal-entendidos.

> Não tem um espaço fixo, mas pode receber alguém de vez em quando? Existe uma rede social para ciclistas, o Warm Showers (warmshowers.org), em que é possível tanto pedir como oferecer hospedagem

*Matéria publicada originalmente na edição 3 da revista Bicycling, de abril/ maio de 2016