Movimentos negros conquistam seu espaço em cima da bike

Por Ricardo Ampudia | Fotos: Marcelo Naddeo

Nesta reportagem, vamos ensinar um exercício que todo ciclista deveria fazer diariamente. Durante o pedal (na estrada, trilha ou cidade), mantenha as duas mãos bem firmes no guidão e olhe sobre os dois ombros, observando atentamente os ciclistas à sua volta. Faça uma breve pausa e conte quantos deles são negros. Pronto: você entendeu a realidade brasileira. Esse exercício simples pode ser repetido sempre que necessário, no trabalho ou na escola.

O Brasil ainda engatinha nas suas iniciativas de promoção da igualdade racial – e no ciclismo não haveria de ser diferente. Um esporte que exige equipamentos caros privilegia a parcela da população que concentra a maior parte da renda. E essa parcela é branca. Mas alguns grupos estão girando a roda, literalmente, para tornar o ciclismo mais negro.

Em São Paulo, o Giro Preto reúne dezenas de ciclistas todas as noites de segunda no Largo da Batata, na zona oeste da cidade, para um pedal em que só negros e negras têm vez. Gente de todos os cantos de São Paulo aparece, e o lema é: vale “qualquer bike, qualquer ritmo”, o importante é se unir.

De fixa, speed ou MTB, a regra é: todas as bikes, todos os ritmos

A ideia é fazer pedaladas mais leves se algum iniciante estiver no grupo. E também sair cedo, para quem mora em bairros periféricos (a maioria dos integrantes) conseguir voltar para casa em um horário razoável.

O movimento começou com quatro ciclistas em pedais noturnos. A ideia foi crescendo e, assim, conquistando mais gente. A criação de uma conta do Instagram (@giropreto) veio para convocar mais ciclistas negros a se juntarem ao pelotão, que hoje chega a atrair até 40 pessoas. “A ideia inicial era reunir amigos pretos conhecidos, aí ampliamos e surgiram outros debates”, diz Ricardo Azevedo, um dos primeiros membros do coletivo – que possui uma organização horizontal, sem lideranças.

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Ricardo tem uma relação recente com a magrela: há dois anos, ele resolveu começar a usar uma bike fixa para fazer o trajeto de casa ao trabalho. É bastante comum no grupo que o primeiro contato com a bicicleta não tenha sido quando criança. “Na periferia, quando uma família possui bike, é uma só e todo mundo anda nela, independentemente do modelo e do tamanho. Eu aprendi a andar numa Ceci rosa, que era de uma prima.

Antes do Giro Preto, boa parte dos integrantes já havia participado de pedaladas, mas não se identificava com outros grupos. Segundo Lívia Suarez, do coletivo baiano La Frida, a sensação de não pertencimento dos negros periféricos em grupos de ciclismo é quase inconsciente e vem de um choque de realidades. “Você cai numa galera onde, além de ninguém ter a sua cor, fica-se discutindo quem tem a melhor bike, a melhor marca, a melhor roupa. Você não se sente parte daquilo, não é a sua narrativa”, explica.

O pedal acaba cedo. Quem mora na periferia tem tempo para voltar para casa com mais segurança

Para a publicitária Jaqueline David, uma das mulheres sempre presentes no Giro Preto, a bicicleta traz autonomia e é democrática, mas ainda não é acessível. “Em tudo o que fizermos no Brasil, é importante analisar sempre através de um recorte étnico. Possuímos uma população autodeclarada negra de 54% que não tem a mesma representatividade em todos os outros lugares da sociedade”, diz.

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EM 2016, AS AMIGAS Lívia Suarez e Maylu Isabel começaram um projeto de cafeteria itinerante sobre uma bicicleta que, além de café, entregava poesia e arte no campus da Universidade Federal da Bahia, em Salvador, o La Frida. As duas já transitavam no meio cicloativista e tinham a bicicleta em suas vidas. E foi a partir do café que começaram a notar um questionamento comum entre suas clientes negras: todas se encantavam com bicicletas, mas não sabiam pedalar. “Essa questão aparecia diariamente. Nos eventos de mobilidade, também éramos as únicas negras. Começamos a nos questionar por que as mulheres não estavam presentes nos planos de mobilidade. A resposta é que elas não sabiam pedalar”, conta Lívia.

Dessa inquietação nasceu o projeto Preta, Vem de Bike. A ideia começou despretensiosamente, com oficinas para ensinar a mulheres negras os princípios básicos da bicicleta. Em três anos, já foram mais de 400 participantes. A iniciativa se expandiu para o Recôncavo Baiano e São Paulo. “Não é só uma aula de pedal, muitas vezes o que fazemos se torna um processo de cura e trocas”, diz.

As atividades evoluíram para oficinas profissionalizantes de mecânica em um espaço próprio, viabilizado com um prêmio internacional de movimento social de maior impacto, da Frida The Young Feminist Movement, que fomenta projetos de jovens feministas pelo mundo.

Para Lívia, a inclusão das mulheres negras e periféricas nas discussões de mobilidade não acontece também pela falha de comunicação desses movimentos. “Nós estamos no centro de Salvador, mas a quebrada cola. E cola porque eles se identificam, porque nós fazemos questão de levar nossa comunicação até a periferia.”

E assim vai-se ganhando mais espaço em um Brasil que, apesar de multicolorido, ainda tem muito chão – e pedaladas – pela frente até se tornar uma nação mais igualitária e menos racista.

Um Pro Tour mais diverso

Competições profissionais começam enfim a ter mais ciclistas negros

Justin Williams

A AUSÊNCIA DE FIGURAS de referência negra no ciclismo profissional também tem começado a cair por terra. Na África, o projeto Africa Rising vem fomentando jovens talentos em países como Ruanda, Eritreia, Etiópia e Quênia. A meta é criar dez times Pró-Continentais até 2023.

Se a ideia der certo, em poucos anos as Grandes Voltas (como são chamados o Tour de France, o Giro d’Italia e a Vuelta a España) começarão a ter maior diversidade racial. O Tour de France levou 138 anos para ter um negro na linha de largada, o que aconteceu apenas em 2011. Em 2015, o primeiro time africano desde 1950 a participar da volta, o MTN Qhubeka, colocou um atleta negro no pódio com a camisa de rei da montanha.

Nos Estados Unidos, uma jovem promessa vem chamando a atenção no circuito nacional amador de estrada. Justin Williams emerge como o nome forte do ciclismo norte-americano. Sem equipe, ele se tornou campeão nacional de estrada, ganhou a prova principal e, dois dias depois, conquistou a modalidade de critério. Nada fora da curva para quem venceu 30 das 35 provas que disputou em 2008.

Além de um grande campeão, Justin quer se tornar uma referência para a futura geração do ciclismo de seu país (e do mundo). “É difícil quando você se sente sozinho em um esporte onde ninguém realmente te entende, porque você é a minoria”, contou à Bicycling USA, em agosto de 2018.

Sua história lembra a do também norte-americano Rahsaan Bahati, outro negro especialista em critérios. Nascido nos anos 1980, em Compton, uma das cidades mais violentas da Califórnia, Rahsaan teve seu primeiro contato com o ciclismo em um programa social que usava um velódromo construído para as Olimpíadas de Los Angeles, em 1984, para ensinar o esporte a crianças carentes da região. Com várias conquistas durante a adolescência, ele se profissionalizou e teve uma carreira de vitórias nesse tipo de prova, sendo campeão nacional em 2008. Hoje ele possui sua própria fundação, em Compton, onde introduz crianças ao ciclismo competitivo. Um ciclo virtuoso que altera a realidade social do esporte