Mulheres e o Tour de France: uma história de persistência

Podemos finalmente deixar essas atletas competirem?

A La Course hoje acontece em paralelo com as últimas etapas do Tour de France. Imagem: Tim de Waele/ Getty

Por Jen See

O Tour de France é um pandemônio de etapas da competição, lançamento de produtos no mercado de bikes, e muitas festas paralelas rolando. Mas o maior evento mundial do esporte, o Tour propriamente dito, praticamente exclui mulheres ciclistas. Esse ano, elas poderão participar apenas de dois dias, em uma corrida chamada La Course, cuja largada é antes das dos homens.

Por que não existe um Tour para mulheres? Se você perguntar à Marianne Vos, 12 vezes campeã mundial, ela vai rir e dizer, com seu sotaque holandês: “Bom, é uma resposta bem longa”.

A questão cai diretamente nos dilemas mais difíceis de abordar do esporte, incluindo atitudes culturais e obstáculos financeiros. Apesar de ter competidoras fortes e boas performances no cenário mundial, cobertura, prêmios em dinheiro e suporte financeiro, o ciclismo feminino profissional sempre foi eclipsado pelo masculino. Ainda assim, persiste, mesmo à sombra do Tour de France. Veja como o pelotão feminino tem batalhado pelo seu lugar ao sol ao longo da história.

Nos primeiros anos do Tour, as mulheres eram uma presença figurativa apenas. Imagem: Arquivo New York Post

1903 a 1984: Os primeiros anos do Tour de France

Quando o Tour começou, não havia espaço para mulheres, exceto papéis limitados, como a esposa dedicada que acompanhava o marido atleta ou a namorada com rostinho bonito. De acordo com o historiador Christopher S. Thomas, o costume da “garota do pódio” começou depois da Primeira Guerra Mundial, como uma forma de reforçar os papéis de gênero na cultura francesa, depois da convulsão causada pelos anos de guerra. Através dos anos, a garota do pódio se tornou uma das funções mais visíveis para as mulheres no Tour.

Nos primeiros anos do Tour, as mulheres eram uma presença figurativa apenas. Imagem: INA

Apesar das mulheres serem proibidas de competir, isso não foi o suficiente para impedir  Alfonsina Strada de competir no Giro d’Italia de 1924. Ela se inscreveu como Alfosin, enganou os organizadores o suficiente para começar, e participou das primeiras duas etapas junto com os homens, até uma queda durante uma tempestade na estrada para Nápoles. Apesar dela ter ficado fora da classificação por tempo nesse dia, Strada continuou a corrida até a chegada, em Milão, e deixou dois homens para trás na colocação final.

Strada se tornou uma lenda, mas as maiores competições continuaram com portas fechadas para mulheres pelos 60 anos seguintes.

1984 a 1989: O Tour de France Féminin

Finalmente um Grand Tour para mulheres. Mas há tão poucos registros do Tour de France Féminin de 1984 que mesmo ciclistas profissionais e fãs não têm ideia de que ele aconteceu. O Tour de France Féminin teve 3 semanas em paralelo ao Tour masculino, por trajetos similares, embora mais curtos, e com chegada de cada etapa cerca de duas horas antes da masculina.

O Tour de France Féminin teve poucos registros. Imagem: Kelly Mooney Photography

Uma das etapas incluía a subida implacável Joux Plane, que a americana Marianne Martin, que ganhou a camisa amarela, encarou a montanha na duríssima relação 42×21 – a equipe dela tinha apenas algumas catracas de 23 dentes, reservadas para as sprinters.

“Assim que acabava cada etapa, nós íamos em fila para o carro da equipe, lotávamos o Peugeot e íamos para o hotel,” lembra a colega de equipe de Martin, Deborah Shumway, que terminou em terceiro naquele ano. Em um deslocamento particularmente longo, Shumway se lembra de ter pego carona em um caminhão de entregas francês recheado de sanduíches de chocolate.

O orçamento não era suficiente para trazer um diretor de equipe americano para a França com a equipe nacional. Então, foi contratado um diretor francês, que praticamente não falava inglês. Em Paris, Martin recebeu um prêmio em dinheiro de U$1000 pela sua vitória geral – que ela dividiu com as colegas de equipe. Só para dar uma ideia, o prêmio de Anna van der Breggen no Giro Rosa de 2017 foi de U$1300.

Os vencedores do Tour de France Marianne Martin e Laurent Fignon em 22 de julho de 1984, em Paris. AFP


A versão de três semanas do Tour de France Féminin durou só dois anos, graças à falta de interesse da mídia e do público. Apesar dos fãs do esporte irem à beira da estrada torcer pelas atletas, como no Tour masculino, poucas pessoas sabiam da corrida fora as próprias participantes. A cobertura da mídia era esparsa, mesmo nas publicações sobre ciclismo, que se mantiveram focada nos eventos masculinos.

A americana Susan Elias, que competiu profissionalmente nos anos 1980, dizia que o ciclismo era um “esporte secreto”, tão low-profile que era quase underground nos Estados Unidos. Quando Elias fez sua primeira viagem à França em 1986, os organizadores já tinham reduzido o Tour feminino a duas semanas de prova. Ela lembra da surpresa de um espectador que disse que ela “descia que nem homem”. “É óbvio que eu consigo fazer minha bike ir a 90km/h numa descida”, ela lembra. Quando Elias venceu a classificação por pontos em 1989, foi o último ano em que uma etapa feminina aconteceu em paralelo ao Tour masculino. 1992 a 2009: La Grande Boucle

Corridas épica e incerteza financeira. Depois da experiência de cinco anos com o ciclismo feminino, a ASO passou para um novo organizador a prova, que criou o Tour Cyclist Féminin em 1992. Apesar dele ser em agosto e não ter mais uma ligação direta com o Tour masculino, o novo Tour ocupou o papel de um “Tour de France feminino”. Como o novo Tour feminino não tinha ligação oficial com o Tour de France, foi rebatizado de La Grande Boucle em 1998, depois da ASO fazer algumas objeções com relação a registro de marca.

Essa nova versão do Tour feminino tinha etapas longas e difíceis, com algumas das subidas que são a marca clássica do Tour masculino – um pouco como era no Tour de France féminin original. A edição de 1995, por exemplo, concluía com uma chegada no col do Alpe d’Huez. “Era uma alegria enorme competir nas mesmas montanhas que os homens,” disse a canadense Linda Jackson, que terminou esa etapa em segundo.

KELLY/MOONEY PHOTOGRAPHY

Se por um lado competir era bastante épico, a corrida em si se mantinha na raça e determinação. Mais uma vez, “não tinha muito dinheiro por trás da organização”, conta Jackson. Como as atletas mulheres tinham bem menos popularidade do que na corrida masculina, menos cidades se ofereciam para sediar as largadas e chegadas, tornando os translados mais longos de uma etapa a outra.

“Muitas vezes no fim da etapa corríamos para o carro da equipe sem tempo nem de tomar banho, para encarar deslocamentos de 5 a 7 horas,” conta. Jackson lembra de viajar em cinco pessoas espremidas em um carro, comendo o que achassem para comprar em postos de gasolina no caminho.

A Monoprix, patrocinadora de longa data do Tour, recuou em meio a polêmicas sobre dinheiro não pago do prêmio em 2003, o marcou o fim temporário do La Grande Boucle. Em 2005, outro organizador assumiu e criou uma prova em menos escala. Como um resgate histórico, a prova continuou se chamando La Grande Boucle, mas nunca mais teve a mesma proeminência. Quando Emma Pooley venceu a edição final da Grande Boucle em 2009, a prova estava mais para Petite Boucle, tendo encolhido para apenas 4 etapas no lugar das duas semanas originais.

2013 aos  dias atuais: uma nova era no ciclismo feminino

Ponha na mesa a ideia de um Tour feminino. É fácil prever um apocalipse ao redor da ideia, mas as competições femininas têm se provado resilientes, mesmo com disparidades por toda parte. Apesar das mulheres não terem competido o Tour de France, o esporte cresceu de outras formas bastante significativas, como patrocínios melhores para os times de elite e padrões mais altos para organizadores das provas exigidos pela UCI. A introdução de um Women’s World Tour em 2016, em particular, marcou uma virada na direção de um ciclismo feminino mais profissional.

KT/ Getty

“Eu acredito que já se foram os tempos em que um organizador tentaria manter uma prova como o Tour Cycliste féminine com um orçamento tão pequeno,” diz Jackson. “O esporte cresceu, ainda bem” Provas como a Ovo Energy Tour no Reino Unido e a Amgen Tour of California nos Estados Unidos oferecem ciclismo altamente competitivo, cobertura nas mídias sociais e prêmios relevantes para mulheres, subindo os padrões do esporte.

Uma estrutura melhor tornou o ciclismo feminino mais viável em temporadas recentes. Equipes como WM3, Canyon-SRAM, Boels-Dolmans e Sunweb, entre outras, oferecem às ciclistas salários suficientes para treinar e competir em tempo integral – o que é apenas o básico e indispensável para atletas homens.

Elena Cecchini da Canyon-Sram pegando uma caramanhola durante o Tour da Italia 2017. Imagem: LC


“O pelotão está ficando cada vez mais competitivo, a cada ano que passa,” diz a gerente de produtos da Specialized Stephanie Kaplan, cuja marca patrocina a equipe Boels-Dolmans e a La Course. Mais profundidade traz um ciclismo mais competitivo, o que é bom para o público. Os dias em que as mesmas cinco mulheres ganhavam todas as semanas acabaram; as equipes estão mais fortes e podem usar os mesmos esquemas táticos que tornam o ciclismo tão atraente.

Em 2013 quatro ciclistas mulheres criaram uma petição que exigia um Tour de France feminino. Se intitulando Le Tour Entier, Chrissy Wellington, Emma Pooley, Katherine Bertine e Marianne Vos encabeçaram a iniciativa. ”Nós queremos um Tour de France feminino de volta ao calendário oficial”, disse Vos. “Claro que é um objetivo grande.”

A petição conseguiu trazer a ASO para a mesa, e no ano seguinte, o pelotão feminino competiu em um circuito na Champ Élysées. Batizada de La Course, a nova prova feminina coincidiu com a final do Tour de France masculino, pagou um prêmio equivalente ao da etapa masculina, e teve cobertura ao vivo pela televisão. Foi a primeira aparição das mulheres ciclistas no Tour desde 1989 e Vos venceu o sprint final, usando a camisa de campeã mundial.

Vos vence a La Course de 2017. Imagem: Tim de Waele


Criem a prova e elas virão

Vos sempre viajou com a família para acompanhar o Tour de France com a família. Ela nunca imaginou que competiria justamente essa prova. “Nunca sonhei com isso, porque na minha época, não existia,” conta. “Era uma coisa para caras, subir as montanhas pedalando. Para mim, quando chegamos na Champs Élysées, foi chegar a um lugar icônico e histórico para o ciclismo. E poder ser parte disso, competir aqui, foi algo muito especial.”

Vos ainda espera ver uma corrida em etapas de 5 a 7 dias no Tour de France. Ela acredita que a UCI vai precisar intervir para mediar a agenda dos eventos e evitar conflitos, como o Giro Rosa e o Tour Féminin, ambos ocorrendo ao mesmo tempo que o Tour de France.

“Às vezes você tem que começar com uma estrutura adequada,” acredita Vos, e ela aponta que o Women’s World Tour, criado em 2016 é um exemplo. “Nesse ponto, todas as organizações e times estão trabalhando em sua ilha em função do evento.”

Claro, uma prova bem sucedida exige também patrocinadores para bancar a conta e a mídia para dar visibilidade. “Ninguém prefere ouvir futebol por rádio satelital,” conta Kaplan, dando ênfase a importância da cobertura de mídia para o sucesso do evento. Alexis Ryan, da Canyon-SRAM, concorda: “Não falta competição, falta cobertura de mídia.” Como muitas modalidades femininas, o ciclismo continuar lutando por atenção e contra atitudes desdenhosas, por trás de presunções sexistas sobre a capacidade de atletas mulheres.

Vos confere as adversárias antes de vencer o World Championships na Itália em 2013. Imagem: AFP

Provas como a Ovo Energy Tour no Reino Unido já demonstraram que o ciclismo feminino se garante e traz público, se ele for bem promovido e estruturado. Ainda assim, o magnetismo do Tour de France segue irresistível. Os fãs na beira da estrada, todos os olhos da mídia. Por que não ter uma prova feminina?
“Eu sou uma pessoa totalmente sonhadora,” iz Kaplan. “Faça a prova e o resto vai acontecer.”

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