O pelotão do GFNY chega ao Brasil

Como em uma fuga obstinada, quatro brasileiras decidem seguir o vácuo de um dos maiores fenômenos da bike, os Gran Fondos, apostando em um estilo moderno de uma tradicional (e transformadora) experiência sobre rodas. O que isso tem a ver contigo? Elas estão trazendo nesse embalo um dos maiores eventos de ciclismo do mundo - o Gran Fondo de NY GFNY - para mais perto de você

O Gran Fondo de Nova York inspirou a série de eventos pelo mundo

Por Bruno Romano

O Gran Fondo de Nova York inspirou a série de eventos pelo mundo

O LUGAR de carros, motos e caminhões, a ponte George Washington sustenta agora 6.000 pessoas com roupas verdes, sapatilhas e capacetes. Ao lado de suas bikes, elas parecem levitar sobre o rio Hudson, entre Nova York e Nova Jersey (EUA). A multidão unida, junto da expectativa do que virá pela frente, ajuda a criar uma atmosfera especial. Esse anual e atípico dia nos arredores de Manhattan marca a largada do Gran Fondo New York (GNFY), um evento criado em 2011 que, a cada ano, agrega novos milhares de ciclistas amadores. A onda nova-iorquina foi tão forte que o GFNY já se espalhou por mais 11 países. E a mais nova parada é o Brasil, com uma primeira edição confirmada para o mês de agosto, na região montanhosa da Serra da Beleza, em Conservatória, no Rio de Janeiro.

As provas tipo gran fondo não são novidade no mundo do ciclismo. Trata-se de um tipo de competição voltada para amadores, geralmente com mais de 100 km de extensão. Os primeiros gran fondos surgiram na Itália, depois se espalharam por quase todos os continentes. O barato de um gran fondo, onde quer que seja disputado, é a ideia de competir em lindos percursos, sobretudo contra si mesmo, em torno de um cenário desafiador e acolhedor ao mesmo tempo, sempre misturando ciclistas de vários níveis. O formato moderno e instigante do GFNY foi a chave para atrair tanta gente, ao dar uma atenção profissional para amadores, evoluindo o modelo da antiga tradição.

AS PROVAS TIPO GRAN FONDO NÃO SÃO UMA NOVIDADE, MAS O FORMATO MODERNO E INSTIGANTE DO GFNY é, ao DAR ATENÇÃO PROFISSIONAL PARA AMADORES

A largada é conjunta, e todos os participantes são cronometrados e contam com suporte mecânico e de suprimentos, além de estradas protegidas de veículos. Em outras palavras, esse tipo de competição está para o ciclismo assim como a maratona está para a corrida: o pelotão da frente luta pela vitória – no caso dos gran fondos, camisas especiais e troféus, além de prêmios de patrocinadores para os campeões das categorias, divididas em faixas etárias –; os grupos intermediários duelam para baterem seus próprios recordes; e os de trás batalham para dar conta de superar o tempo de corte e ainda comemorar a dura conquista de uma Brasil 2017, que também abre vagas para um percurso de 80 km).

Provas desse tipo, ainda mais para novatos no assunto, costumam marcar um “antes e depois” na vida sobre rodas. “Foi o dia mais mágico da minha vida”, conta a advogada e ciclista amadora Ana Paula Cavalcanti, 48 anos, lembrando da sua estreia no GFNY, nos Estados Unidos, em 2016. O evento reuniu atletas de 93 países, entre eles 702 inscritos (ou 14,5% do geral) brasileiros, um número superado apenas pelos próprios norteamericanos (a edição de 2017 do GFNY, sétima da história, acontece no fim de maio). “É incrível estar na ponte George Washington sentindo toda aquela emoção, vibração e energia, em meio à contagem regressiva para a largada”, recorda Ana. “E, depois, cruzar a linha de chegada, superando o frio, a chuva e o cansaço para poder ter e ver o brilho nos olhos de quem venceu mais um desafio”, diz. Acontece que a linha de chegada de Ana, na verdade, tornou-se a largada de um desafio ainda maior: trazer o GFNY para o Brasil.

As amigas Ana Paula Cavalcanti e Fernanda Venturini, agora sócias do GFNY nacional

Inspirada pela experiência, ela instigou um grupo de mulheres que tem vivido intensamente o ciclismo no país nos últimos anos a tentar transformar o novo sonho em realidade. Ao lado das empresárias Maria Luisa Jucá, 54, e Rita Almeida, 52, e da amiga Fernanda Venturini, 46, ouro na Olimpíada de 1996 com a seleção brasileira de vôlei (e hoje uma dedicada ciclista de longas distâncias), a trupe formou uma sociedade e embarcou no projeto. O GFNY já havia recebido outras propostas nacionais, mas a aproximação dessa vez foi certeira e pontual. Em alguns dias, após mensagens e reuniões em Nova York, o contrato estava assinado. “O que mais me atrai em um gran fondo é exatamente o desafio, seja pedalando ou organizando”, explica Ana. “É aquela dificuldade em manter o foco, não permitindo que nada desvie seu objetivo, mas sabendo que a linha de chegada guarda uma emoção sem igual”, completa ela, que se apaixonou pela bike em 2012 ao trocar a monotonia da academia pelas trilhas e, depois, embarcar de vez no ciclismo de estrada.

O GRAN FONDO É COMO UMA MARATONA PARA O MUNDO DA CORRIDA, com PELOTões LUTAndo PELA VITÓRIA, POR RECORDES PESSOAIS ou mesmo COMPLETAR A PROVA

Foi na mesma época que Fernanda se desligou de vez do vôlei e passou a sair mais para pedalar, incentivada pelo marido, o treinador de vôlei bicampeão olímpico Bernardo Rezende, o Bernardinho. De lá para cá, a dupla ficou sócia de uma rede de lojas de bike no Rio de Janeiro e ainda curtiu três viagens de bicicleta pelo mundo. Em 2016, o contato com Luisa Jucá, organizadora de vários eventos de ciclismo no Rio, uniu Fernanda e a amiga Ana, todas empolgadas com a ideia do GFNY. Entre tantas bifurcações da vida, juntar a recente paixão pela bike com um novo desafio após a aposentadoria das quadras logo pareceu o rumo certo a seguir.

“A preparação para longas pedaladas é igual à do vôlei em relação a treinamento, disciplina, alimentação e descanso”, compara Fernanda. “O que muda mesmo são as decisões em equipe de campeonatos e Olimpíadas, no lugar do desafio de completar sozinha algo tão longo e desgastante”, diz ela, que já encarou os 114 km do L’Etape Brasil 2015, na região de Cunha, divisa de São Paulo e Rio de Janeiro. Na época, o máximo que ela havia pedalado eram 75 km. “É uma pena que eu não possa me dedicar ainda mais ao ciclismo, pois o desgaste do vôlei e da idade me deixaram com algumas sequelas sérias nos joelhos e no pescoço. Mas, cada vez que vou de bike montanha acima rumo ao Cristo Redentor, sinto algo muito especial, uma energia diferente”, celebra.

Cenas da edição anual nova-iorquina do GFNY, ligando a ponte George Washington a Bear Mountain, percurso que originou a série de eventos pelo mundo

O número de ciclistas amadores, como a própria Fernanda, de fato cresce a cada dia no Brasil, apesar de não existir pesquisa formal sobre isso. “Existe um público exigente em busca de experiências ao mesmo tempo exclusivas, seguras e bem estruturadas”, diz Maria Luisa Jucá, socióloga de formação e especialista em saúde pública que decidiu mudar de rumo para seguir suas veias cultural e esportiva. Nos últimos anos, por meio do Instituto Faça Esporte e Cultura, fundado por ela em 2009, Maria Luisa tem organizado provas como o Tour do Rio, a Copa Rio de Janeiro, a Copa Light e o Desafio Tour do Rio, além de projetos de iniciação e educação como o Adeus Rodinhas.

“Encontrei no trabalho com o ciclismo uma forma de transformar positivamente a realidade ao meu redor”, conta Luisa. Ao apostar na versão brasileira do GFNY, ela acredita que o grande objetivo (e atração) do evento é dar ao amador a oportunidade de se sentir um atleta de elite por um dia. “O ciclista vai experimentar a mesma estrutura de uma prova de alto rendimento, com fechamento de vias, segurança, apoio, batedores, sinalização e premiação”, diz.

Para Rita Almeida, envolvida na criação e execução de todos os projetos recentes, o que une tantas histórias em um mesmo gran fondo é a ideia de “mostrar que com treino, força de vontade e perseverança, tudo é possível”. A ligação das parceiras de pedal e negócios é até mais antiga que o atual comando compartilhado do Instituto Faça. Uma das pioneiras na febre do spinning nas academias cariocas, Rita sempre aliou a prática de ciclismo e triathlon, como hobby, com o trabalho de educadora física. Conheceu Luisa na Estação do Corpo, uma academia do Rio, onde dava aula. A partir daí, o ciclismo as uniu, saindo do campo das ideias e conversas para se consolidar em forma de evento, em 2007, levando ao Parque dos Patins, zona sul carioca, uma centena de bicicletas estacionárias para um treino aberto com ícones da bike, embalado por shows ao vivo.

A nova aposta da dupla, agora aliada a Ana e Fernanda, tem outra pegada, que promete fortalecer a gama de eventos amadores no país. Ainda que a prova tenha um público-alvo bem definido (as inscrições custam R$ 740), a ideia possui força para instigar outros movimentos e, saindo como planejado, ajudar a elevar o nível geral na cena nacional. Na prática, quem embarcar na aventura vai encarar um roteiro por estradas secundárias em bom estado da Serra da Taquara, região também conhecida como Vale do Café e apelidada de Serra da Beleza por motivos óbvios (o trajeto corta as rodovias estaduais RJ-143, RJ-145, RJ-137 e RJ-151). Por trás dos encantos do visual, 3.136 metros de desnível esperam os atletas nos 160 km, ou 1.306 metros para quem optar pelos 80 km.

Pódio de 2016 do GNNY de Nova york

UM CLIMA DE expectativa e novidade também deve ter tomado conta da pequena Cesenatico, cidade italiana com 25 mil habitantes na beira do mar Adriático. Foi ali que, em julho de 1970, largou a primeira competição tipo gran fondo da história: o Nove Colli, ou “nove montanhas”, em alusão ao desafiante percurso, um dos preferidos do ícone italiano Marco Pantani em seu auge. Atualmente o mesmo evento em Cesenatico atrai 12 mil ciclistas, divididos nas distâncias 80 km, 120 km e 200 km – no ano passado, as inscrições se esgotaram um minuto após a abertura dos lotes. Estima-se que existam mais de cem gran fondos organizados na Itália, entre fevereiro e outubro, janela mais propícia para o pedal, fugindo do rigor do inverno.

Fora as características comuns pelo mundo – agregar todo tipo de ciclista, criar um ambiente festivo e proporcionar conforto em meio a um longo desafio –, os gran fondos procuram focar nas qualidades próprias de cada lugar. Em La Marmotte, na França, por exemplo, onde o termo mais comum para esse tipo de evento é cyclosportive, há 5.180 metros de subida acumulada te esperando. Já um gran fondo em Las Vegas (EUA) abre inscrições para apenas 300 participantes, explorando cenários surreais do deserto local. Percursos diversos e variados também têm pipocado recentemente em outras regiões, do norte da Europa ao sul da Oceania, passando pela costa da África do Sul. Em Nova York, no GFNY, a missão inclui escalar a Bear Mountain, encarando estradas ao redor da Big Apple. Em 2016, o vencedor geral, Michael Margarite, um ciclista local, levou 4h30 para cravar o trajeto de cem milhas (cerca de 160 km).

O fenômeno nova-iorquino também tem parte de suas origens na Itália. Em 1998, aos 23 anos, O norte-americano Uli Fluhme encarou seu primeiro gran fondo, obcecado pela ideia de superar um longo e duro trajeto em meio a vários ciclistas, pouco importando quais eram seus currículos ou idades. “Pude me alinhar tanto ao lado de feras do esporte como de caras iniciantes como eu”, lembra UIi, que acabou se tornando um advogado em Wall Street antes de abandonar tudo para criar, ao lado da mulher, Lidia, o GFNY em 2010. Uli já soma mais de cem participações em gran fondos pelo mundo, evento que também atrai Lidia, ex-bancária de Wall Street com sete Ironman completos na vida esportiva amadora.

“Sou extremamente competitivo”, confessa Uli. “Mesmo quando as coisas não saem tão bem, fico realmente contente por ter vivido uma nova experiência”, ressalta ele, sobre seus últimos 20 anos se embrenhando em gran fondos pelo planeta. “Há poucos esportes no mundo que permitem isso”, analisa. Uli vê com ótimos olhos a chegada do GFNY ao Brasil, após encontrar o que ele chama de “parceiras certas” para trazer a brincadeira para estas bandas. Depois de organizar a primeira competição de fato em Nova York, em maio de 2011, a inclusão do percurso brasileiro representa o 110 país no calendário global (veja mais no quadro ao lado).

“O que queremos com o GFNY Brasil, acima de tudo, é uma grande festa, onde várias tribos se tornarão uma só, movidas pela mesma paixão pelo ciclismo”, diz Rita

Uli também gosta de usar os holofotes que conquistou para falar da luta contra o doping. Mesmo se tratando de uma competição essencialmente amadora e sem a mesma capacidade de controle de testes de outras provas profissionais, o GFNY insere em seu regulamento a aversão total às substâncias proibidas pela Wada, a agência mundial antidoping. O alerta aumentou após o colombiano Oscar Tovar, campeão do GFNY 2015, ser flagrado pelo uso de testosterona sintética – os testes da época tiveram apoio da Usada, órgão máximo de combate ao doping nos Estados Unidos. Oscar foi punido com dois anos de suspensão de competições sob regras da Wada e acabou banido para toda a vida de qualquer edição do GFNY pelo mundo. Em 2012, quando incluiu o controle de doping, o GFNY também flagrou com uso de EPO um norte-americano e um italiano, respectivos campeões de suas categorias. Nenhum teste de substância proibida saiu positivo em 2013, 2014 e 2016.

Esse tipo de trapaça é sempre possível de acontecer quando há um pódio esperando após a linha de chegada, independentemente da modalidade, ainda que a aura amadora e leal dos gran fondos tenha conseguido se manter forte durante as últimas cinco décadas. “O que queremos com o GFNY Brasil, acima de tudo, é uma grande festa, onde várias tribos se tornarão uma só, movidas pela mesma paixão pelo ciclismo”, diz Rita. “É o fomento do ciclismo amador e de todas as possibilidades e vantagens que a prática de esporte traz à vida do indivíduo, seja social, educacional, emocional e até culturalmente”, acrescenta. Para Ana Paula, o GFNY Brasil também pode ir além, colocando o país de vez na rota mundial de provas amadoras de longa distância. “Competi em todos os GFNY até hoje”, comenta Uli. “Muitas vezes, eu me encontrei em meio a grupos de ciclistas que se comunicavam em idiomas que eu sequer entendia. Mas, ali, todos acabam falando a língua do ciclismo, logo nunca tivemos problemas para nos ajudar e pedalar juntos”, diz. De longe, a roupagem de NY pode até parecer apenas uma moda passageira. De perto, no entanto, o gran fondo é parte importante de uma grande tradição do ciclismo. Pedalar em segurança, ajudar e incentivar quem precisa e tentar expandir os limites pessoais são outras delas. Junto de um novo gran fondo no pedaço, todas as outras (boas) tradições do mundo da bike serão sempre bem-vindas.

* Matéria publicada originalmente na Bicycling 9, de março/abril de 2017.