Os ciclistas que competem o Tour de France são saudáveis?

​​Treinar e disputar o Tour definitivamente detona o corpo, mas no longo prazo tende a valer a pena - quase sempre

Ciclistas de elite têm uma saúde melhor ou o esforço extremo causa danos? Foto: Getty Images

Por Selene Yeager

O Tour de France é indiscutivelmente o evento de endurance mais duro do planeta. Cientistas do exercício calcularam o TRIMP da prova. O valor do TRIMP (“impulso de treino”, volume de treino x intensidade de treino; é uma métrica como a escala de sofrimento do Strava) para os 21 dias bateu astronômicos 7.112. Só para comparar, o TRIMP de correr uma maratona é de mais ou menos 300. Durante a prova, os ciclistas entram progressivamente em estado catabólico, consumindo seu próprio tecido muscular mais rápido do que são capazes de repor. Eles também se tornam pseudo-anêmicos conforme eles detonam as hemácias do sangue, e a imunidade despenca na mesma medida em que os danos de radicais livres sobem.

Então, ninguém considera fazer um Tour propriamente uma atividade saudável. Mas e todas essas semanas quando eles não estão no fio da navalha? Os ciclistas pro parecem colher alguns benefícios… apesar de alguns riscos permanecerem.

Fitness
Não tem discussão aqui. Ciclistas do Tour de France estão em forma. Pelo padrão mais universal disponível de avaliação cardiovascular, o V02 máximo, ou quanto oxigênio seu corpo consegue usar por minuto, eles têm pelo menos o dobro de fitness do que o não-competidor do Tour na mesma faixa etária que esteja em ótima forma. Esse humano típico tem V02max de cerca de 40 ml/kg/min a 45 ml/kg/min. De acordo com pesquisas, os melhores ciclistas do Tour precisam bater pelo menos 80 ml/kg/min para se manter na parada.

Composição corporal
Sem surpresa aqui. Os competidores do Tour (apesar de parecer que falta massa muscular na parte de cima do corpo de alguns) são mais saudáveis que a média da composição corporal da maioria das pessoas. Escaladores, claro, tendem a ser especialmente magros na faixa de altura entre 1,68m a 1,78m e um peso médio que varia entre 60kg a 66kg (IMC de 19 a 20). Os ciclistas de contrarrelógio, embora sejam magros, são maiores e mais pesados, com média de 1,78m a 1,83m de altura e 70kg a 75 kg (IMC de 22) de peso. Os vencedores das etapas são um pouco mais leves, mas não muito fora do padrão corporal dos especialistas em contrarrelógio.

Taxa de mortalidade
Apesar das suspeitas de que quantidades excessivas de exercício exaustivo (como moer subida atrás de subida nos Alpes por semanas seguidas) possa reduzir a expectativa de vida de uma pessoa, as pesquisas demonstram que participantes do Tour vivem mais que a maior parte de nós. Um estudo comparou as taxas de mortalidade de mais de 830 competidores do Tour da França, Itália e Bélgica com as da população em geral e a conclusão foi que ciclistas vivem cerca de 17% a mais (vivendo até os 81,5 anos, contra 73,5 do restante da população).

Saúde óssea
Esse é o mais provável calcanhar-de-aquiles, literalmente. Ciclistas profissionais tem um risco maior de desenvolver baixa densidade óssea se for a única atividade desportiva que eles praticam, porque o ciclismo não envolve treino de força com peso. Pesquisadores da Universidade de Oklahoma que escanearam o esqueleto de 32 ciclistas de estrada com idades entre 18 e 45 descobriram que quase todos eles tinham densidade óssea mais baixa do que pessoas da mesma idade que não eram ciclistas competitivos. Alguns tinham até mesmo osteopenia, um precursos da osteoporose. Essa maré pode virar, porém, se a geração mais jovem de ciclistas profissionais aderir rotineiramente a treinos de força e de fortalecimento ósseo. Pesquisas recentes revelam que os jovens de 19 anos de hoje são em média mais sedentários do que sexagenários.

Saúde cardíaca
Temos aqui um impasse. Treino de endurance faz seu coração ficar maior, de forma que ele bombeia mais sangue para seus músculos trabalharem. É uma coisa boa para melhorar seu V02max. Mas existe um questionamento se não é essa a causa também do fato de atletas de endurance terem maior probabilidade de um problema de ritmo cardíaco chamado fibrilação atrial que causa um batimento cardíaco irregular, muitas vezes mais rápido do que o normal, num determinado nível atividade.

“Boa parte da longevidade dos ciclistas do Tour é atribuída a uma ótima saúde cardiovascular”, diz o médico Larry Creswell, autor do livro The Haywire Heart (não publicado no Brasil). “Talvez não seja uma surpresa. Mas podem existir de fato alguns riscos cardíacos envolvidos em pedalar no longo prazo. Apesar de raros, há exemplos de ciclistas que tiveram parada cadíaca, durante os treinos ou provas, e isso ocorre em atletas relativamente jovens. Também sabemos que atletas de endurance de todos os tipos, incluindo ciclistas, têm taxas de fibrilação atrial mais altas que o esperado. Enquanto essa condição é considerada uma arritmia ‘benigna’, ela pode ser associada com outros problemas mais sérios, como derrames. Ciclistas do Tour não uma categoria incrível e podemos aprender mais com estudos cuidadosos da saúde cardíaca deles e sua saúde ao longo da vida.”

 

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