Osvaldão: uma verdadeira lenda do mountain bike brasileiro

Poucos personagens do mountain bike brasileiro são tão emblemáticos e carismáticos quanto Osvaldão – lenda viva que ajudou a desbravar as primeiras trilhas deste país

Osvaldão marcou uma geração e inspirou milhares de ciclistas (Foto: Alexandre Gennari)
Por Verônica Mambrini

Existe amor à primeira vista. Osvaldo dos Santos, o Osvaldão, é mais que a prova disso. Há quatro décadas esse paulista de 52 anos acorda, dorme, come e respira pensando principalmente em uma só coisa: bicicleta. Ele é uma verdadeira lenda do mountain bike brasileiro. Tudo começou quando ele leu um artigo em um jornal do metrô de São Paulo em que dizia que a Monark, a tradicional marca de bike brasileira, estava lançando uma nova pista de BMX. Seus olhos brilharam, o coração bateu mais forte no peito, a ideia fixa surgiu. Foi aí que morreu o molequinho que andava de velocípede sem grandes pretensões e começava a nascer um dos maiores nomes da bike no Brasil – mesmo que muita gente (talvez até mesmo você) não tenha consciência da importância desse cara não só para o “bicicross”, mas principalmente para o mountain bike nacional.

Ás como poucos em trilhas cascas-grossas, Osvaldão poderia facilmente encabeçar um Hall da Fama do mountain bike brasileiro, ao lado de outros nomes míticos desse esporte por aqui, como Eduardo Ramires, Márcio Ravelli e Erivan de Lima. Gente que fez história quando o MTB mal existia em solo tupiniquim, abrindo literalmente trilhas para que a modalidade se disseminasse país afora. “Um fato é incontestável: quem pedala de verdade e conhece o Osvaldão nutre um respeito tremendo por ele”, diz Edu Ramires, que também começou no BMX e, depois de ter conquistado muitos títulos, trabalhou como técnico da seleção brasileira de mountain bike por seis anos. “A gente sempre batia o guidão nas provas. É uma amizade muito grande, por ter vivido essa batalha toda, de anos. A gente fez muito pelo esporte, e isso poderia ser mais reconhecido.”

Em uma época em que marketing esportivo nem existia direito no Brasil e as bikes usadas na terra não contavam com quase nenhuma tecnologia para encarar tanta piramba, Osvaldão foi marcando presença com seu talento incomparável para superar percursos traiçoeiros e aguentar horas seguidas em provas que mais pareciam batalhas na lama. Assistir a ele descendo um singletrack tortuoso com o rosto coberto de terra marca até hoje as melhores lembranças de quem teve a sorte de ver de perto os primeiros giros do mountain bike nacional.

“Se a corrida era dura, o Osvaldão quem ganhava. Quando chovia e ficava ruim mesmo, cheio de lama, terrível de passar, aí certeza de que o pódio era dele”, lembra Adriana Nascimento, outra lenda do esporte, campeã brasileira de MTB por várias vezes e uma das figuras mais queridas da cena ciclística off road. “Ele sempre foi muito forte, alto e bem técnico porque era do BMX. Todo mundo que veio dessa base dominava muito bem a trilha.”

Osvaldão já perdeu as contas de quantas provas participou (e ganhou). No início, a paixão se fortaleceu nas pistas de BMX de São Paulo, como a da Monark, localizada na Marginal, e a da Caloi, perto da avenida Guarapiranga. Praticamente todos os fins de semana, o garoto treinava em alguma delas. Quando a Caloi fez classificatórias para montar sua equipe, ele foi selecionado. Tinha uns 16 anos de idade — ainda não era uma lenda do mountain bike, a modalidade ainda mal existia — e uma vontade enorme de competir. “Estar na equipe da Caloi era uma loucura para um moleque: uniforme, bicicleta, viagens”, lembra ele.

Campeonato Pan-Americano de MTB, em 1991 (Foto: Arquivo pessoal)
Osvaldão em prova de ciclismo de pista na USP, em que ficou em 2º lugar (Foto: Arquivo pessoal)

Entre suas memórias mágicas da época, estão as viagens para o Rio de Janeiro para participar do programa musical semanal Geração 80, exibido entre 1981 e 1982. “A gente descia de bike em uma rampa de bicicross dentro do Teatro Fênix, na Globo, enquanto rolava um som ao vivo de artistas como Kid Abelha, Biafra.” Houve até participação especial da sua turma do BMX em um filme dos Trapalhões. “Trabalhamos no filme Os Trapalhões e o Mágico de Oz durante oito dias. Conheci o Renato Aragão, gravamos até no Cristo Redentor.”

Naqueles tempos, além de fazer parte da equipe de bicicross, Osvaldão era funcionário da empresa, no departamento de promoção da Caloi. Ganhou vários títulos, como o Campeonato Paulista e o Brasileiro. Na empresa, pôde ver em primeira mão o lançamento de modelos que fariam história por aqui, como a Caloi Cross Extra Light, inspirado na bicicleta que aparecia no filme E.T. e que faz parte das lembranças de muitos marmanjos até hoje.

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Uma prova de bicicross marcou Osvaldão – e dessa ele não se esquece e abre um sorrisão toda vez que fala sobre o assunto. Ele já vivia seus últimos dias no BMX, e o ano, se não lhe falha a memória, era 1987 ou 1988. Osvaldão pilotava uma Caloi Cruiser, aro 24. Todos alinhados, nervosismos coletivo, concentração total. Os olhos de todos estavam na estrela do esporte Daniel Rojas, chileno campeão do mundo. “Começou a corrida e pau na máquina! O gringo na frente, eu indo, indo… Em terceiro, em segundo, colei no cara, dei um pulo e ganhei por meia roda! Aí veio aquele silêncio… ninguém esperava que eu fosse ganhar”, conta Osvaldão, que relata o grande feito com a empolgação de quem deu um “olé” no gringo na semana passada, e não há 30 anos.

Osvaldão: do bicicross à lenda do mountain bike

Osvaldão fica em 38º lugar no Campeonato Mundial de Mountain Bike, em 1990, no Colorado (EUA) (Foto: Arquivo pessoal)

No começo dos anos 1990, o mountain bike aterrissou de vez no Brasil. Osvaldão viu no jornal que seria organizada a primeira prova de MTB por aqui, no Rio de Janeiro. Brazuca cheio de garra, mas sem nada de equipamentos ideais para competir. “Olhei aquela bicicleta com roda grande, aro 26, cheia de marchas, e pensei: ‛Esse é o esporte que eu quero fazer’”, diz. Corria o ano de 1988, e a prova era o 1º Mountain Bike Cup Fazenda Hotel Jatahy, organizado por Marcos Ripper, em Paraíba do Sul, na serra fluminense.

Em três etapas, o evento foi televisionado e marcou o início oficial do MTB no Brasil. Um começo divertido, porém precário: depois de anos sem importações por causa do fechamento econômico causado pela ditadura militar, o mercado nacional começava a ser inundado por mountain bikes, a partir de 1984, 1985. Faltava tecnologia, mas sobrava vontade de curtir o novo esporte.

Ainda atleta da Caloi, Osvaldão não possuía uma mountain bike para participar – luxo restrito a quem tinha grana e podia comprar um modelo importado. Sem equipo, o jovem aspirante não conseguiu correr na prova. Foi quando duas outras lendas do mundo da bicicleta entraram na vida de Osvaldão: Renata Falzoni e Arturo Alcorta. Osvaldão conseguiu uma JNA emprestada, bicicleta de uma fábrica brasileira que desenvolveu quadros de BMX e freestyle praticamente “do zero” e que, naquela época, lançou modelos para mountain bike também. Arturo lhe emprestou uma bicicleta para fazer a Copa Halls. O evento era a primeira competição de mountain bike no Estado de São Paulo, também em etapas: a Copa Halls-Lâminas Schick, realizada em 1989, organizada por Renata Falzoni e Oswaldo Pepe. Osvaldão foi lá e fez bonito, conquistando uma ótima colocação.

Ele começava a construir sua história como lenda do mountain bike. Osvaldão estreou a Caloi MTB Crack – mountain bike sem suspensão. O modelo chamava a atenção pela pintura craquelada e quadro com triple triangle inspirado na GT. Contava com peças boas de alumínio, mas era bem dura para encarar terra, valas e descidas técnicas. “Era o que havia de MTB nacional. Mas era show mesmo assim! Das importadas, chegavam ao país algumas Haro, GT, Specialized, Ritchey, Giant, Scott, Diamond Back”, conta Osvaldão, que seguia competindo e testando protótipos como o da Caloi Aluminum, considerada por muitos a primeira “mountain bike de verdade” brasileira. “Eu tinha uns 22 anos, meu nome estava brilhando na elite, ganhava muitas provas. Trabalhava na pista, recebia os equipamentos para competir e apenas ia. Só não podia falar muito das bikes quando aparecia com elas na competição porque era segredo industrial.”

Com essa febre, o mercado cresceu. Osvaldão mudou de casa e passou a ser patrocinado pela Specialized, uma das muitas marcas por onde passou. “O mountain bike já estava grande, foram anos de ouro. As bikes eram incríveis”, lembra com saudade. Mas ainda faltava muito para ele se tornar uma lenda do mountain bike. Em 1990, trabalhou na loja Trilha Bikes, em São Paulo, que o apoiava e cedeu para ele uma Diamond Back para competir. Lá foi ele com essa bike para o Mundial do Colorado, nos Estados Unidos, depois de ganhar a passagem aérea.

“Fui correr com a elite. Só eu de garfo rígido, sem bar end, sem sapatilha, só com firma-pé”, lembra. Mesmo assim, chegou em 38º de 200 caras. “Foi fantástico. Se eu tivesse ficado mais tempo no Colorado e feito mais umas provas antes para me ambientar, teria me saído ainda melhor”, conta. “Meu nível mudou só de pedalar com os caras. Você ganha experiência de entrar na paulada, pega ritmo. Para andar junto, tem que calejar, perder peso, afinar, sofrer.”

Mudança para os Estados Unidos

Em 1994, Osvaldão tomou uma decisão que considera “burra para caramba”. Curtindo uma boa fase no esporte, acabou se separando de uma namorada de quem, no fundo, gostava muito. “Era uma menina superlegal, que gostava muito de mim e faz parte da minha história no mountain bike”, lembra. Cinco dias depois de ter saído de casa, “caiu a ficha” e ele se arrependeu, mas o pé na bunda não tinha volta. Tentou reatar, porém não houve insistência que desse jeito – até a mãe dela intervir e dizer a Osvaldão que não adiantava e que era melhor deixá-la em paz. “Aí pensei: ‘Quer saber? Vou para os Estados Unidos’. Peguei o passaporte e fui.” Entre casar e a bicicleta, a bicicleta venceu.

O ciclista tinha um amigo em Austin, no Texas, dono de uma loja de bike. Há tempos eles vinham trocando figurinhas, e Osvaldão decidiu ir para lá com a cara e a coragem – além de uma inscrição na Texas Cup Series. “Foi com essa inscrição que eu consegui entrar nos EUA”, conta. Ele chegou em uma madrugada de 1994, com uma mala e a mountain bike a tiracolo, e ficou por quatro anos nos Estados Unidos.

O amigo foi buscá-lo no aeroporto e o hospedou por algumas semanas, mas logo Osvaldão percebeu que, se quisesse passar uma temporada em território norte-americano, iria ter que se virar. Desceu para o centro de Austin e começou a procurar companhia para dividir aluguel. Conheceu uma norte-americana que tinha vivido quatro anos na Bahia e falava português fluentemente. “Seu nome era Alessandra Brown, gente finíssima, me ajudou muito. Meus amigos brincam que eu deveria ter me casado com ela e não voltar mais”, ri o ciclista.

Para pagar as contas, trabalhou em restaurantes, em hamburguerias, limpou mesa, sempre se esforçando para aprender o inglês. O expediente era das 10h às 14h. Osvaldo ia de bike e, assim que acabava, já saía para rodar. “É um lugar lindo para se morar, cheio de trilhas, quase tudo singletracks. Muito sossegado, gostoso de se frequentar. Você chega aos parques, assina um livro de visitantes na entrada, deixa o dinheiro em uma caixinha e usa o circuito para treinar à vontade.”

Aos 52 anos, Osvaldão impressiona ao subir na bike. (Foto: Alexandre Gennari)

Para reforçar a renda, arrumou um segundo emprego de entregador de jornal. Mesmo assim ainda arranjava tempo para treinar e se preparar para a próxima temporada de provas, entre elas a Texas Cup. “Segui o conselho do meu amigo e não me inscrevi na categoria pró ou expert, fui para a sport, menos competitiva. Na largada, vi os caras de Houston com equipamentos de última linha, sapatilha top. Todos me medindo, olhando de alto a baixo meu firma-pé e o garfo rígido, tirando um barato.

Saí atrás no começo, dali a pouco estava na frente e ganhei a primeira etapa. O campeonato possuía quatro provas, e só não ganhei uma delas porque tinha que cruzar a fronteira, em Lajitas, e, como eu estava ilegal no país, poderia ser deportado se fosse pego ali. Nem acreditei quando vi que mesmo assim ganhei o campeonato na minha categoria, de 30 a 34 anos”, diz. Foi a última vez que Osvaldão competiu essa prova: já tinha decidido voltar para casa – além da situação delicada de não ter visto, a saudade de casa apertava cada vez mais.

Retorno ao Brasil: novas adaptações

De volta ao Brasil, em 1998, seguiu competindo, mas a maré que encontrou aqui estava diferente. De certa forma, é como se Osvaldão tivesse “perdido o bonde”: com o desenvolvimento do esporte, trabalhar com patrocínios ficou um pouco mais complexo do que apenas subir na bike e pedalar. Ele carrega até hoje mágoas de parcerias que, na sua opinião, terminaram de forma injusta, sem reconhecer o valor que trouxe para as marcas com prêmios e pódios. Esse jeitão meio anti-herói, uma certa fama de polêmico e ao mesmo tempo admirável e impressionante ao subir na bike viraram marcas registradas. Sem apoio financeiro de marcas ou provas, acabou tendo de abrir um negócio de valet, que mantém até hoje.

Incansável, agora aos 52 anos e como uma espécie de lenda do mountain bike, quer focar em títulos na nova categoria. “A idade chega para todo mundo. O Ravelli e o Abraão Azevedo já correm na master, é o caminho natural. O único título que eu almejo no mundo da bike é ser campeão mundial na minha categoria.” Entretanto, não se trata de uma transição fácil: nas primeiras competições fora da elite, ele sentiu muita cobrança porque mudou de categoria. “Insistir na elite não tem mais nada a ver, o ritmo é outro, muita paulada”, fala.

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Um revés dificultou um pouco mais o desafio. Recentemente, Osvaldão, que nunca teve uma única lesão ligada a provas ou treinos, acabou atropelado durante seu trajeto de moto para o trabalho. “No dia 20 de janeiro, estava saindo de casa para abrir meu valet em Santana [zona norte de São Paulo]. Eu estava parado no farol esperando abrir, às 18h30. Era um sábado. Quando o farol abriu, parti e só senti a pancada do cara que furou o sinal vermelho, batendo em mim e me derrubando”, conta.

Na hora, ele sentiu a pancada no joelho e foi direto para o pronto-socorro. O diagnóstico foi fratura na tíbia, osso que liga o tornozelo ao joelho. Ao receber a notícia de que tinha que operar, chorou. Agora Osvaldão se recupera da cirurgia que colocou três parafusos no seu joelho, ostentando uma cicatriz de 26 pontos. “Mas dá para voltar a competir, é uma promessa. Quem ama a bike é diferente. Para quem tem isso no coração, é duro ficar sem.”

Osvaldão pretende voltar a competir de MTB na próxima temporada, quando estará completamente recuperado do acidente sofrido no começo do ano (Foto: Alexandre Gennari)

Como a recuperação vem se mostrando melhor que o esperado, o ciclista está a mil, fazendo planos para a próxima temporada, como sempre: na raça, na coragem, sem muitas assessorias técnicas e puxando de dentro de si toda a força para pedalar. “O papo é reto: ano que vem vai surgir um novo Osvaldão. Afinal, já estou com um pedaço de ferro aqui na perna. Agora preciso mostrar de novo tudo o que eu posso fazer.” Com a pilha de medalhas e troféus que acumula em casa, não dá para duvidar que o amor pela bike vai vencer, de novo. Afinal, ele é uma lenda do mountain bike.

(Reportagem Na raça e na coragem, publicada originalmente da revista Bicycling nº 17 – julho/agosto der 2018)