Por que o Rio de Janeiro se tornou uma das piores cidades para se pedalar

Em 2016, com a olimpíada, o clima era de otimismo – bem diferente de hoje

Erika Sallum na Estrada do Sumaré, quando ainda era legal pedalar no Rio de Janeiro (Foto: Rafael Catanhede)

Até há pouco tempo, a nossa diretora de redação Erika Sallum, amante e fiel praticante do ciclismo de estrada, estava animada com o potencial que Rio de Janeiro despontava para o ciclismo – em praticamente todas as suas vertentes. Erika é natural de São Paulo, mas costuma ir muito ao Rio de Janeiro para pedalar.

Era 2016, ano de olimpíada na cidade. Ainda havia esperança – na verdade, muito mais do que esperança – que a ciclovia Tim Maia, então recém e parcialmente inaugurada, ligasse de fato o Leme ao Pontal. Tudo indicava que, em pouco tempo, a cidade ficaria ainda mais maravilhosa desse modo, se abrindo aos esportes e ao transporte alternativo.

“O Rio de Janeiro tem potencial para ser um dos mais belos destinos de bike do mundo”, ainda acredita Erika, que já pedalou em diversos países. “Mas os problemas são tantos que isso se torna, cada vez mais, um sonho distante.”

Pois é, de 2016 para cá, notícias sobre desabamentos de ciclovia, atropelamentos, roubos e mortes no trânsito foram muito mais intensas do que programas para revelar ciclistas, ou do que mudanças para tornar a cidade cada vez mais atraente e segura a quem pedala.

“Eu pedalei nas ciclovias que caíram, que eram sem dúvida uma das mais lindas que já existiram”, diz Erika. “E é muito triste vê-las caindo aos pedaços. Ainda suas estruturas de ferro estão sendo roubadas. Uma cena muito desoladora.”

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Sem contar os incêndios no Velódromo Olímpico ocasionados por quedas seguidas de balões.

Em pouco tempo, a bicicleta foi do céu ao inferno no Rio de Janeiro. Masi recentemente, o anúncio de que a Bastarda Café encerraria suas atividades foi “a cereja podre” do bolo.

Lugares como a Bastarda ajudam a disseminar a cultura ciclística e estimula mais gente a pedalar. De fato, “fortalece e inspira a comunidade”, como eles mesmo diziam.

Mas hoje pedalar no Rio é caótico. O que dizer, por exemplo, do caso do empresário e pai de família Artur Vinícius Sales, que aos 43 anos foi vítima fatal da imprudência de um motorista de ônibus, no mês passado. Vinícius pedalava por amor ao esporte, e só estava em seu papel de cidadão ao compartilhar a via logo cedo.

Para o ciclista e barista Dargel Rodrigues, 28, que usa a bike para tudo (desde treinar até se locomover pela cidade), o trânsito no Rio de Janeiro é o pior que ele já viu. “Já pedalei em outras cidades”, diz Dargel, que adotou a bicicleta em 2013. “Mas, principalmente nos últimos três anos, o trânsito ficou muito agressivo aqui. Além disso, não temos uma malha cicloviária que realmente funcione”, se queixa Dargel.

Claro que o fechamento de um café não se compara a morte de uma pessoa. No entanto, isso mostra também o quanto a cultura ciclística no Rio de Janeiro vem perdendo espaço. “Na Bastarda encontrávamos a galera da fixa, do MTB, do ciclismo de estrada…”, enumera Dargel. “E ainda mostrava este universo a pessoas que não são da bike.”

Uma pena. Dessa forma, a cidade tende a ficar cada vez mais hostil a quem pedala. Uma matéria publicada no site do jornal O Globo descreve como foram algumas mortes de ciclistas por atropelamento na cidade nos últimos anos – não é tão incomum assim o motorista não prestar socorro.

Em 2013, a morte de um ciclista motivou a criação da Área de Proteção ao Ciclismo de Competição (APCC) na cidade do Rio, no Aterro do Flamengo. Trata-se de um local seguro, isolado do tráfego de carros, para que ciclistas de alto rendimento possam treinar em segurança. Com 8 quilômetros de extensão, a APCC do Aterro protege a via utilizando cones, e é vigiada por guardas municipais. Ela funciona entre terça e quinta-feira, das 4h às 5h30 da manhã.

Outros caminhos exclusivos às bikes (vias fechadas nesses mesmos horários) foram criados. Mesmo assim, parece pouco. Só neste ano, até o fim de março, o Rio de Janeiro já havia registrado a metade dos casos dos acidentes ocorridos em 2018, segundo informações do Corpo de Bombeiros: nesses primeiros meses de 2019, foram 21 ocorrências (em apenas 77 dias).

“Hoje, infelizmente, paira no Rio um sentimento de desesperança”, diz Erika. “Triste, porque pedalar nesta cidade logo depois dos Jogos Olímpicos era tão eletrizante…”