Sabia que as e-bikes também podem te manter em forma?

Movidas a bateria, as bicicletas elétricas podem ser ótimas aliadas para quem quer manter a forma — basta perder o preconceito

(Foto: Hauke-Christian Dittrich/picture alliance via Getty Images)
Por Selene Yeager

AS BICICLETAS ELÉTRICAS chegaram para ficar. Nem todo mundo está contente com isso. Eu costumava ser uma dessas pessoas. Por quê? Por uma implicante, talvez irracional, preocupação com a possibilidade de que, de alguma forma, as e-bikes diminuíssem o valor da minha forma física e do meu trabalho duro como treinadora, técnica e atleta.

Você sabe quanto tempo se leva para aumentar apenas 20 ou 30 watts na produção de potência de uma pessoa? Um ano inteiro! É verdade que já vi alguns iniciantes ganharem 100 watts em 12 meses de treino sério.

Mas isso é raro. De acordo com Hunter Allen, do Training Peaks (programa de treinos que virou queridinho de ciclistas mundo afora), que ganha a vida rastreando dados desse tipo, se você já estiver bastante em forma, precisa pegar superpesado durante pelo menos oito semanas para conquistar de 15 a 30 novos watts de potência.

>> 31 dicas para ficar em forma para sempre

Mesmo assim, não dá para manter esse pico para sempre. A moeda do condicionamento físico ciclístico é difícil de ganhar e fácil de perder. Quando subimos em um pódio, conquistamos um KOM no Strava ou vencemos um racha com amigos até a sorveteria, nós, ciclistas, sentimos uma satisfação extra – talvez até mesmo justifi cada – pois obter esse resultado demandou muita dedicação.

As e-bikes permitem que as pessoas alcancem velocidades mais altas com bem menos condicionamento e esforço. Embora eu queira que cada vez mais gente use bicicletas seja como for, não importa que tipo, não posso mentir: se você aperta um botão e me deixa para trás em uma subida com inclinação de 8% que eu treinei 12 horas por semana durante dez anos para poder subir rápido, não vou achar bacana…

Nada muda o fato de que eu me sacrifiquei e me esforcei para caramba para obter meu condicionamento. Há um valor intrínseco nele que não tem nada a ver com outras pessoas. Mesmo assim, eu fi co me perguntando se algum dia aqueles entre nós a favor das bikes “tradicionais” se tornarão como essa gente “moderna” que pedala de bike fixa e está sempre explicando que só perderam para um ciclista porque o outro cara estava usando uma bike caríssima de última tecnologia.

Será que isso degradará a magnificência daquele lugar 100% transbordante de endorfina onde você só chega quando sua única força vem do próprio corpo? Sinceramente, espero que não. Mas não sei. De fato, ninguém sabe.

É uma coisa que todos estamos tentando compreender quando pedalamos e-bikes e quando pedalamos perto delas. Não sou contra e-bikes, nem mesmo contra competições de e-bike, aprovadas agora pela UCI (o órgão máximo que coordena as provas internacionais).

Para pessoas que querem ou que precisam de treinos mais brandos, simplesmente não querem suar no caminho até o trabalho, fisicamente não seriam capazes de pedalar tanto sem uma ajuda extra ou ainda só querem máxima diversão e potência por cada pedalada, as elétricas são uma solução legítima. Como treinadora, reconheço que, para a saúde e o bem-estar em geral, todo esforço vale a pena.

Em um estudo recente, quando pessoas não ativas receberam e-bikes junto à recomendação de pedalar pelo menos 40 minutos por dia, três vezes na semana, durante um mês, elas pedalaram mais que o mínimo recomendado, melhoraram o condicionamento e a taxa de açúcar no sangue, perderam um pouco de gordura e, claro, se divertiram.

O condicionamento de ninguém piorou durante o teste! Na verdade, quero pedalar mais essas bicicletas. Sonho com o dia em que e-bikes com guidão de estrada fi carão tão leves e com autonomia para longas distâncias que poderei percorrer mais de 300 km em um dia – metade à base de pura potência humana e metade com pedalada assistida – e explorar as estradas mais remotas.

Está claro que há espaço no ciclismo – e na minha vida – para as e-bikes. Só preciso continuar abrindo espaço para elas no meu próprio sistema interno de qualificar meu condicionamento. Todos nós precisamos.