Eles pedalam de saia por aí

Esses dois ciclistas querem emplacar a saia no armário masculino e nos rolês sobre rodas: eles garantem que a combinação com a bike tem tudo a ver, não importa o gênero

Por Verônica Mambrini

O MUNDO GIRA, a moda muda, e muitas coisas às vezes só trocam de lugar. Lá pelos idos anos de 1900, a bicicleta já tinha chegado para ficar, e foi até um ingrediente fundamental na emancipação das mulheres. Em uma época em que era preciso autorização de um responsável do sexo masculino para ir e vir, como o pai ou o marido, a bicicleta veio como uma possibilidade para as “frágeis” senhoras e senhoritas se locomoverem por conta própria em vários cantos do planeta.

Só que a novidade não foi aceita tranquilamente. Há registros de diversos casos de hostilidade. Um dos mais emblemáticos aconteceu contra Emma Eades, uma das primeiras ciclistas de Londres, na Inglaterra, que tomou tijoladas e pedradas ao sair para as ruas de bicicleta. Mas foi uma briga que valeu a pena comprar. O pacote de benefícios lá no comecinho do século 20 era parecido com o de hoje: melhora no condicionamento físico e no humor, mais autonomia e liberdade. E a cereja do bolo pode ter sido o início da libertação de um vestuário rígido, pouco prático e, convenhamos, torturante.

Embora fosse perfeitamente possível pedalar com as longas saias da era vitoriana (talvez com um pouco de falta de ar graças aos espartilhos apertados), logo surgiram as bloomers, peças com duas pernas, na altura dos tornozelos, mas folgadas como saias – uma espécie de avó da calça saruel, que felizmente já saiu de moda de novo. De qualquer forma, sentar no selim para pedalar já se tornava mais confortável.

Aí você pode se perguntar: por que homens usariam saias para pedalar? Fabio Nazareth, ciclista urbano há 15 anos, tem uma sugestão: “Acredito na possibilidade de viver em um mundo onde as pessoas possam usar a roupa que desejarem sem terem seus motivos questionados. Nesse sentido, um homem de saias pode ajudar a quebrar preconceitos”. Cicloativista e entusiasta do Slow Cycling, um movimento que prega menos pressa na vida e no pedal, Fabio completa: “Mas o motivo pelo qual uso saias não é ideológico, gosto mesmo da praticidade, do frescor e do visual”.

Ele não é o único. O assessor parlamentar Gil Sotero também vira e mexe pedala de saia por aí. Esse soteropolitano radicado em Belo Horizonte (MG) é ligado em moda – Gil é referência de cycle chic – e não se lembra de nenhuma fase da vida em que o pedal tenha sido com roupas de ciclismo. “Quando descobri a expressão ‘cycle chic’, percebi que, desde sempre, o destino determinava o que eu vestia”, conta. A partir daí, ele passou a estudar melhor o guarda-roupa masculino para desenvolver um estilo próprio. Nesse caminho, chegou às saias. “Roupa é linguagem, e alguém determinou que a saia, uma peça que acompanhou os homens por centenas de anos, deveria ser substituída por calças. E assim é até hoje. Claro que precisamos resgatar isso. Saia é conforto”, acredita Gil.

Apesar de ser uma quebra de paradigma, a peça tem feito mais sucesso que causado atritos. Fabio se recorda de uma vez que tinha certeza de que seria repreendido em uma loja, mas o idoso que o encarou por alguns instantes acabou abrindo um sorriso e contou que havia se lembrado da época em que era criança, pois o pai dele usava algo parecido para trabalhar.

“As pessoas ficam espantadas quando uso saia, mas pouquíssimas vêm me dizer algo negativo”, relata Gil, que tem vários modelos à disposição. “Gosto de saias envelope e as uso quando estou de bike dobrável ou bicicleta urbana”, fala. Assim como não há uma bicicleta para todas as ocasiões, explica, também não existe uma saia “universal”. A ideia é cada um descobrir o que combina melhor com o seu estilo. No caso de Fabio, faz dois anos que ele aderiu às saias para valer, quando namorava uma modelista. “Ela decidiu fazer saias com modelagem para homens; são as que uso hoje. E ela até começou uma produção artesanal, já que alguns amigos gostaram dos modelos”, celebra. Fabio garante que não encontra dificuldades para pedalar e defende o uso em todas as situações. “Ao homem que nunca usou, recomendo testar”, arremata.

Pequeno guia prático (para pedalar de saia)

Você vai precisar basicamente de: uma bicicleta e uma saia. É bem mais simples do que parece

>> Entenda
Saias formam looks elegantes mais casuais ou formais. Se sua bicicleta tem o quadro mais baixo, uma variedade maior de modelos funcionará sem grandes adaptações. Mas se o tubo superior é reto, modelagens menos justas são mais confortáveis.

>> Pratique Para a saia não levantar, dá para unir a parte de baixo com a de cima, entre as pernas, com uma presilha de cabelo tipo tic-tac ou uma moeda e um elástico para prender as duas partes. O truque só funciona com tecidos mais molinhos e finos. Por outro lado, tecidos pesados, como jeans ou lã, caem naturalmente sobre as pernas.

>> Crie Sobreposições são legais: meia-calça e calças em conjunto com a saia protegem e remediam o medo de mostrar mais que o desejado.

*Publicado originalmente na edição #11 da revista Bicycling, de julho/agosto de 2017

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