Sobre jerseys e ciclistas: modelos icônicos e as histórias dos personagens que as vestiram

As histórias por trás das 8  mais icônicas jerseys de ciclismo

Por Chris Sidwells

DURANTE MINHA infância, no final dos anos 1960 e começo dos 1970, em uma cidadezinha do norte da Inglaterra, meus amigos tinham fotos de jogadores de futebol nas paredes de seus quartos.  Eles torciam por craques e seus times, como o Machester United, com um entusiasmo fervoroso.

Eu não falava de equipes de futebol. Meu quarto não era enfeitado com fotos de jogadores. Eu tinha nas paredes pôsteres de ciclistas. Tom Simpson era meu tio. Ele foi o primeiro britânico a vestir a jersey amarela de líder do Tour de France. Sua carreira ocupava grande parte de nossas vidas. Ele ainda é meu herói, 50 anos depois de sua morte, aos 29 anos, no cume do Mont Ventoux, durante o Tour de 1967. Eu não lia nada além de revistas de ciclismo quando era pequeno. Sentia-me ligado aos ciclistas e ao seu universo por causa de Tom.

As imagens daqueles atletas famosos e as cores e desenhos de suas camisas ficaram gravados no meu cérebro. Como a de Tom usando a jersey arco-íris de campeão mundial, ou a branca e preta da equipe Peugeot-BP, com a qual venceu a mítica prova Bourdeaux-Paris em 1963, a Milan-San Remo em 1964, o campeonato mundial em 1965 e a Paris-Nice em 1967. Ou a do italiano Felice Gimondi, ganhador do Tour de France e do Giro d’Itália, vestindo a jersey azul clara da Salvarani, equipe que também incluía o supersprinter Marino Basso, conhecido como “Mr. 1000 Volts”. Cinco vezes ganhador do Tour de France e especialista em contrarrelógios, Jacques Anquetil brilhava com sua camisa laranja forte da Bic. E como esquecer de Eddy Merckx, vencedor onipresente com sua blusa vermelha e branca da Faema, depois trocada pela laranja queimado da Molteni.

Eles pareciam tão estilosos! As cores que usavam para competir eram incríveis, combinavam perfeitamente e tinham fascinantes nomes estrangeiros impressos – nenhum deles de produtos ordinários que eu podia encontrar no mercadinho de casa. Eu fiquei obcecado por essas jerseys, afinal representavam os ciclistas e sua bravura, vigor e dignidade.

Até mesmo nos primórdios do ciclismo, grandes competidores imortalizaram suas jerseys. Como a azul turquesa martim-pescador da Alcyon, usada por François Faber, vencedor do Tour de France de 1909. Com 92 kg, o “Gigante de Colombes” (bairro de Paris onde ele morava) é o mais pesado de todos os vencedores do Tour de France. Ah, o verde vibrante e o bordô da jersey da Legnano usada por Gino Bartali, que conquistou o Tour de France em 1938 e 1948! Essas vitórias foram separadas pela Segunda Guerra Mundial, tempo em que Bartali, sob sua própria responsabilidade, trabalhou ajudando a salvar a vida de inúmeras famílias judias. Também havia o famoso azul celeste da Bianchi: segundo uma lenda, Edoardo Bianchi teria criado esse azul para combinar com a cor dos olhos de uma rainha italiana; já outra história afirma que a cor foi inspirada por um grupo de nuvens durante um por do sol de Milão.

O ciclismo tem muitos casos assim. Todos são parte da rica história desse esporte fascinante. Quer seja um modelo de lã usado por um dos primeiros ciclistas ou um dos sofisticados designs aerodinâmicos de hoje, as jerseys mais icônicas representam os feitos e as histórias dos personagens que as vestiram.


Arco-íris: As listas representam as cores das bandeiras de todas as nações que participaram dos primeiros Jogos Olímpicos modernos, realizados em 1896. A jersey da imagem é uma das duas que Tom Simpson deu à mãe do autor em 1966.


Amarela: 
Bernard Thévenet (então da Peugeot) acabou efetivamente com o reinado de Eddy Merckx no ciclismo – e com sua temporada de cinco vitórias no Tour de France – ao superá-lo e vencer em 1975.


Branca com bolinhas vermelhas: O título de “rei da montanha” existe desde o Tour desde 1933, mas a jersey branca com bolinhas vermelhas apareceu pela primeira vez em 1975. Lucien Van Impe a conquistou naquele ano.

 


Gan-Mercier: 
Gan era uma companhia de seguros francesa que patrocinou uma equipe junto com a fabricante francesa de bicicletas Mercier, de 1972 a 1976, tornando-se parte de uma longa história; a Mercier patrocinou uma equipe de ciclismo de 1935 a 1983.

 


Molteni: 
Em 1972 a Molteni assumiu o controle da equipe Faema-Faemino de Merckx, com um objetivo: ajudar Merckx. E Merckx tinha um só objetivo: vencer. Ele conquistou sete Grandes Voltas, dois títulos mundiais e 11 Monuments (como são conhecidas as cinco clássicas mais famosas do mundo: Milan-San Remo, Tour des Flandres, Paris-Roubaix, Liége-Bastogne-Liége e Giro di Lombardia) com as cores da Molteni.

 


BIC:
A fabricante de canetas esferográficas foi a primeira patrocinadora a se comprometer com quase todo o orçamento de uma equipe. A equipe existiu de 1967 a 1974.

 


Salvarani: 
A Salvarani é uma fabricante de elegantes móveis de cozinha. Nos anos 1960, seu design era inspirado em parte pela Fiat e pela Vespa e representava a elegância italiana. A empresa também patrocinou shows de rock de grupos como Beatles.

 


Bianchi: 
Foram as vitórias do ciclista italiano Fausto Coppi que deram à jersey da Bianchi seu lugar de destaque no ciclismo. Quando Coppi ganhava, quase sempre estava sozinho, vários minutos antes do próximo ciclista.

Capa do The Art of the Cycling Jersey, lançado em 2017


The Art of the Cycling Jersey: Iconic Cycle Wear Past and Present, 
de Chris Sidwells
Editora Rodale; US$ 15 (amazon.com)