#sockdoping

Por Adriana Vojvodic

Mostre-me suas meias e te direi quem és. Pode até ser uma adaptação inventada do famoso provérbio, mas o espírito é esse mesmo. Em um universo mergulhado em tradições como o ciclismo,não valem apenas as regras do jogo. E, como tudo o que circunda o esporte é carregado de sentido, não se engane: suas meias dizem muito sobre você.

A meia é um item transversal, usamos desde criança, cotidianamente e nas mais diversas circunstâncias. Entretanto, de uns tempos para cá, esse pequeno pedaço de tecido, absolutamente funcional, ganhou espaço nas discussões e nas manias dos ciclistas. Tendência batizada de sock doping e sock game, esse “vício” só tende a crescer entre quem pedala – e não é difícil entender o porquê. A moda das meias já tem alguma história. Peças divertidas ou que se destacam no meio de uma roupa mais neutra são usadas há tempos por skatistas e chegaram até nas canelas de executivos,trazendo certa alegria aos sisudos ternos cinzas. No ciclismo, se por um longo período valia a regra geral de meias pretas para sapatilhas pretas e meias brancas para sapatilhas brancas, hoje as variações são enormes.

Altura, cores e materiais. São basicamente esses os elementos de uma meia que podem revelar as grandes escolhas que cada um faz (ou não) ao se vestir para pedalar. Elas podem até mesmo dar indícios de qual é seu grupo de pedal. Talvez por ser o item mais barato em um kit de ciclismo, as meias viraram o espaço perfeito para variar a roupa de bike e passaram a ser criadas por marcas especializadas, que se dedicam cada vez mais a lançar estampas e padrões únicos. Por essas e outras que o sock doping dos ciclistas parece ser uma daquelas tendências que vieram para ficar, pelo menos por mais um tempo.

Antigamente, apesar de as meias poderem ser de qualquer cor (desde que combinassem  com as sapatilhas), fatores tecnológicos determinavam o tipo de oferta existente no mercado. As confecções limitavam-se à produção de meias brancas ou pretas, e as dificuldades nas formas de lavagem restringiam ainda mais o uso das versões claras, reservadas para ocasiões especiais. Por encardirem facilmente, quase nenhum ciclista se dava ao luxo de usá-las em dias de treino. Veio dessa época o padrão que virou regra: meias pretas para treinos, meias brancas para provas. Basta uma olhada com atenção nas fotografias mais antigas, e o cenário das meias já se mostra. Eddy Merckx, Berryl Burton ou Fausto Coppi, todos de meias brancas e não muito altas, normalmente de 7,5 cm.

Discussões sobre cores à parte, até os anos 1980 era a qualidade do material que diferenciava um ciclista do outro. Isso era lá nos tempos em que as meias de lã italiana eram símbolo de status no pelotão. Se usasse peças finas e de material sintético, não havia dúvida: você era realmente um novato no meio. Foi nos anos 1990 que começou a transformação, com meias produzidas por confecções especializadas e, o mais impactante, com logomarcas aparentes. Com isso, as meias não apenas cumpriam uma função, elas passavam a dizer algo. O mundo nunca foi o mesmo.

Muito se debate ainda nos cafés pós-pedal, porém o fato é que podemos cravar que as discussões contemporâneas sobre meias têm como marco o ano de 2004, quando o norte-americano Lance Armstrong usou um par de meias pretas em uma das etapas do Tour de France. Avance algumas casas, e o britânico Bradley Wiggins, também fã das versões escuras em qualquer ocasião, usou um modelo ainda mais longo, em 2015, quando quebrou o recorde da hora.

ESTILO,OUSADIA E PERSONALIDADE: (têm ajudado a ditar o novo mundo das meias de ciclismo, graças a marcas como a Maap)

Com o avanço dos desenhos e das cores, as meias passaram a ser para os ciclistas o que os temperos são para os chefs de cozinha. Isso significa que uma meia bem escolhida pode salvar um kit duvidoso, enquanto que uma meia ruim pode colocar tudo a perder. A seriedade é tanta que atualmente a dedicação às meias de ciclismo só cresce, com a hashtag #sockdoping dominando as redes sociais. Com nomes já consolidados como a DeFeet, criada na década de 1990, os últimos dez anos comprovam o avanço desse filão, em uma multiplicação de marcas e coleções especiais, produzidas nos mínimos detalhes  para unir qualidade e funcionalidade a estilos e estampas únicas.

É o caso de empresas como Sako7, The Athletic, Handlebar Mustache e Panache, entre outras. E não são só as marcas. Modelos específicos ou coleções inteiras passaram a ser reconhecidos, como  a Portland Airport Carpet, a The Athletic, e a La Girafe Sportive, da TenspeedHero. Se as fotos de provas clássicas indicavam a preferência pelas meias brancas e curtas até os anos 1970, hoje a #sockdoping prova que, em matéria de meias, o padrão é não ter padrão. Lá atrás, os mais tradicionais usavam meias lisas de canos baixos, porém hoje a linha média que define o ciclista é outra. Você estará “garantido” se ficar na zona entre 12 e 15 cm (neste último caso, mais precisamente seis polegadas). Algumas preferências milimétricas e sua própria altura vão determinar onde exatamente você ficará mais confortável. Essa variação de altura também muda entre homens e mulheres. É comum no pelotão feminino ver meninas com meias um pouco mais curtas. Mas, via de regra, uma boa medida (para todos) é a linha onde começa o músculo da panturrilha. Se suas meias estão nessa linha, bravo!

Muito acima ou abaixo desse divisor, e você corre o risco de ser confundido com alunas colegiais inglesas com suas meias três quartos ou com triatletas e suas meias sem cano nenhum. E, como você já deve bem saber, ciclistas geralmente gostam de parecer ciclistas. Enquanto a altura pode determinar seu esporte, as cores são mais ao gosto do freguês. Grafismos, blocos de cores, listras, bolinhas, estampas florais e até mesmo tie-dye. Aqui o céu e sua inspiração são os limites.

O passo final no meio dessa história toda é não apenas optar por meias divertidas, mas saber introduzi-las no kit de forma quase despercebida. Diante das regras escritas e não escritas sobre as diferentes formas de se usar meias, alguns detalhes devem ser considerados – só não deixe de ser criativo, afinal as meias estão aí para isso.

A escolha é muito particular, mas esteja certo de que seu uso precisa mostrar consistência. Para evitar o conflito entre as peças, as combinações devem ser coordenadas de forma cuidadosa. Especialmente pensando na gama de cores que sapatilhas ganharam ultimamente, são muitos os fatores a se levar em conta nessa receita. O mais indicado é começar considerando o todo, primeiro pensando nos itens menos variáveis do seu outfit: as sapatilhas e o quadro da bicicleta. Como eles raramente se alteram, essa é a base quase estática sobre a qual você vai se apoiar para, daqui a pouco, chegar às meias.

Sua sapatilha e seu bretelle são mais neutros ou lisos? Moldura perfeita para ousar nas meias sem se preocupar. Sapatilhas e bretelles pretos, por exemplo, são incríveis para meias mais“ atiradas”. Se quiser deixar todo mundo com cara de “como faz isso?”, vá além e pense em coordenar (e não combinar) as meias com seu cap ou, por que não?, com a fita do guidão. Referências sutis de um item para o outro são o grande segredo. É aí que os detalhes deixam qualquer um com aquele aspecto deliberadamente casual, no maior estilo “essa foi a primeira meia que apareceu na minha frente hoje de manhã.  Nem vi direito, estava bem escuro”.

* Matéria publicada originalmente na Bicycling 7, de novembro/dezembro de 2016.