SP: USP restringe ciclistas no campus da Cidade Universitária

Barrar a bike e o esporte dessa maneira unilateral e hostil  é contraproducente em uma cidade cada vez menos “bike friendly”

Pelotão na USP (Foto: Fabio Kassai)
Por Erika Sallum

Mais uma vez, a Universidade de São Paulo (USP) decide tomar medidas drásticas para restringir a atividade de ciclistas na Cidade Universitária.

Em uma portaria divulgada hoje, a Prefeitura do Campus USP da Capital determina que os ciclistas esportivos devem agora realizar um cadastro em seu site para obter o CEC (Ciclistas Esportivos Cadastrados). Esse cadastro deve ser afixado no capacete e na bicicleta e é válido por um ano. Além disso, a prática do ciclismo só poderá ser feita às terças, quintas e sábados, das 4h30 às 6h30 (zzzzz). E continua proibido pedalar na famosa subida da Rua do Matão.

As medidas valem inclusive para esportistas que sejam alunos, funcionários ou docentes da universidade.

Quem desobedecer tomará uma advertência formal; suspensão da CEC por 30 dias; e até a revogação da CEC por três anos. A fiscalização do cumprimento das regras ficará a cargo da Superintendência de Segurança, que “poderá interromper a circulação de ciclistas esportivos para verificar a regularidade do CEC e orientar os esportistas”, segundo informou a universidade.

O texto da portaria pode ser lido na íntegra AQUI. E mais informações podem ser conseguidas nesta reportagem que acaba de ser publicada pelo Jornal da USP.

Imagem registrada em uma manhã na USP (Foto: Erika Sallum)

Não é de hoje que a convivência entre ciclistas e outros usuários da USP se mostra frágil, para usar um termo “fino”. Na verdade, tem até mesmo piorado com o evidente aumento do número de pessoas que pedalam ali. Em 2005, a Cidade Universitária tomou uma decisão muito semelhante. Eu já pedalava naquela época e fui fechada violentamente por um carro da USP que tentava me impedir de pedalar no meio da tarde durante a semana — quando não havia quase ninguém nas ruas do campus.

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A restrição levou um grande número de ciclistas para a estrada, e dois atletas morreram. Por conta disso, e da pressão dos bikers, a prefeitura da USP foi aos poucos atenuando a proibição.

Em 2010, novamente se tentou barrar os ciclistas, mas as regras foram se afrouxando, e a bike ganhando mais espaço na vida do paulistano.

Como ciclista há 16 anos, tempo em que venho usando a USP para treinar semanalmente, conheço de perto os problemas graves que muitas vezes os pelotões causam a pedestres e carros. Grupos enormes de ciclistas sem noção já atingiram pessoas atravessando as ruas. Já vi ciclista gritando com senhora, ciclista fechando carro e dizendo que foi fechado, ciclista parado fazendo selfie em curva perigosa.

Mas essa não é a atitude da maioria. Com o crescimento do ciclismo na cidade nos últimos anos, temos mais mulheres pedalando — e as pesquisas mostram que somos ciclistas mais atenciosas e cuidadosas que nossos colegas homens. Temos pessoas mais velhas treinando, em um show de vitalidade em uma sociedade que vê o idoso como um peso a ser descartado. Há grupos organizados, com uniforme, que se comportam com educação.

Não somos santos. Temos uma gigantesca culpa no modo como estudantes, professores e outros frequentadores da USP nos veem. Entretanto, restringir a bike e o esporte dessa maneira unilateral e hostil (leia a íntegra da portaria para sentir o tom) é contraproducente em uma cidade cada vez menos “bike friendly”.

Veja um dos itens da portaria: “Não será permitida a realização de treinos em grupos acima de 04 (quatro) ciclistas”. Quatro? Por que não podemos pedalar em número maior, se respeitarmos as regras? Por que a portaria foi publicada hoje sem consulta prévia com parte da comunidade ciclística?

Foto super “amigável” postada pelo Jornal da USP hoje (Foto: Cecília Bastos / USP Imagens)

Procurada por este blog, a Prefeitura da USP apenas respondeu com um link para a reportagem do Jornal da USP, onde se podem ler frases como:

“De acordo com o prefeito do campus da Capital, Hermes Fajersztajn, ‘a USP incentiva a prática de esportes e a interação com a comunidade, mas temos que garantir a segurança dos alunos, funcionários, pesquisadores e docentes que transitam pela Cidade Universitária’.” Infelizmente não deram espaço para eu perguntar: “Mas qual incentivo exatamente vocês estão dando com tanta proibição?”.

Também fiquei sem saber com mais detalhes sobre as “13 ocorrências” envolvendo ciclistas na USP em 2018. Treze. Entre elas “discussões”. Isso em um campus onde circulam diariamente 100 mil pessoas.  “Em 2019, houve ainda um caso de agressão”, diz o texto do Jornal da USP. Como foi esse ato? Por que a universidade não quer dar entrevista explicando melhor suas decisões?

Outras dúvidas importantíssimas: haverá segurança para o ciclista que acordar lá pelas 3h30 (se morar perto) para pedalar em uma USP escura e com diversos casos de assaltos a quem pedala?

Nem USP nem Ciclovia Marginal Pinheiros

Enquanto isso, a ciclovia da Marginal Pinheiros continua parcialmente interditada. Inaugurada em 2010, a ciclovia possui 21,2 km de extensão, mas desde 2013 está fechada entre as estações Vila Olímpia e Granja Julieta, por conta das obras do monotrilho da linha 17-ouro, com promessas de que ela seria reaberta em dois anos — o que nunca aconteceu.

As rodovias são um perigo constante para ciclistas, com muitos acidentes fatais.

É um paradoxo: enquanto cresce visivelmente a quantidade de ciclistas, em especial o tal “esportivo” como a USP gosta de chamar, São Paulo vai fechando o cerco a quem ama uma das ferramentas mais legais para tornar as cidades mais humanas e menos reféns de veículos motorizados. Que fase…

Arte divulgada pela USP sobre restrição a ciclistas em seu campus da capital