Uma brasileira na Sunshine Cup 2019: “Experiência para ficar no coração”

A mountain biker Marcella Toldi conta sua experiência na disputada Sunshine Cup, no Chipre

A seguir, a mountain biker brasileira Marcella Toldi conta sua experiência na disputada Sunshine Cup, no Chipre.

“Eu comecei 2019 com foco total no calendário de MTB. Após uma experiência bem-sucedida e feliz no Brasil Ride, em outubro de 2018, achei que fazia todo sentido eu mergulhar um pouco mais nessa modalidade. Foi assim que decidi escolher algumas provas do circuito profissional para ver quais eram as minhas chances. Entre elas, a Sunshine Cup.

A Cyprus Sunshine Cup  acontece na ilha de Chipre, no Mediterrâneo, e é considerada a prova de abertura do calendário profissional de mountain bike.

Hoje já existem outras provas “classe UCI” que acontecem algumas semanas antes da Sunshine Cup, mas esta é realmente uma clássica. Portanto, decidi focar nela, mesmo porque eu sabia que iria encontrar atletas de nível bem alto, algo que me motivaria ainda mais.

Além disso, o que me despertou bastante curiosidade na Sunshine Cup foi o fato de esta prova ter sido um marco importante na carreira profissional do nosso maior expoente nacional do MTB, Henrique Avancini. Foi lá que, há cerca de 10 anos, ele obteve seu primeiro resultado de expressão em uma competição de alto nível, o que acabou lhe rendendo um contrato com uma equipe europeia.

Pois bem, estava criado o vínculo com a prova, e eu mal podia esperar para viver toda a experiência que me aguardava!

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Cyprus Sunshine Cup – a prova

A prova tem 4 etapas: 1 contrarrelógio de 14 km no primeiro dia, começando no topo de uma montanha e terminando em sua base; 2 etapas mais longas, com um ganho de altimetria de 1.500 m a 2.000m ao longo do percurso; e uma prova de XCO (cross-country) reservada ao último dia.

Fui com meu técnico e mais uma atleta, e chegamos com 5 dias de antecedência, ideal para conseguir reconhecer o percurso das etapas 1 e 4 com calma. Como minha técnica em cima da bike ainda não é muito boa, isso foi importante para eu ganhar confiança.

Eu fui para esta prova com a expectativa de apenas terminar, aproveitando todas as experiências para aprender e me divertir o máximo possível.

Primeira etapa: sufoco

Pois bem, quando me dei conta, lá estava eu, no deck de largada da primeira etapa. Com o coração a mil, eu só pensava na descida, nas curvas, na passagem dentro do vilarejo. Estava chovendo e as escadarias tinham limo e eram feitas de pedra sabão. Eu precisaria administrar tudo isso para não correr o risco de cair e perder tempo à toa.

Comecei a descer bem concentrada, vi que estava rápida, mas estava segura então abri um sorrisão e comecei a respirar fundo. Só 3 minutos tinham se passado quando ouvi um barulho de ar vazando. Olhei para baixo e percebi que o pneu tinha furado. Encostei rapidamente para começar a missão de trocá-lo.

Naquela hora, mantive a calma e pensei, “É isso, obrigada meu Deus, quero viver todos os desafios agora e estar pronta para outras provas mais importantes no futuro”.

Mas quando vi com mais atenção, meu pneu tinha rasgado em uma pedra. Eu precisaria colocar uma câmara de ar e tirar o bico do tubeless que estava no aro.

E quem disse que o tal do ‘bico do tubeless’ saía? Tentei de tudo, mas nada adiantava. Começou a bater um desespero de não poder completar a etapa e ter que sair da prova sem ter visto nada. Já comecei a pensar que ia pedir para o organizador deixar eu largar os outros dias com os amadores. Diria que não atrapalharia nada, seria só para ‘viver’ todos os dias de competição e aprender.

Depois de quase 1h30min nessa agonia, um santo caiu do céu e resolveu me ajudar: e não é que ele conseguiu tirar o bico do aro da roda?! Coloquei rapidamente a câmara de ar reserva, fiz um remendo no pneu utilizando a embalagem de um gel e, milagrosamente, consegui completar a etapa.

Com isso, acabei caindo para último lugar, claro. Fiquei muito longe no tempo na geral do restante das meninas. Mas estava tão feliz de ainda estar dentro da prova que só conseguia agradecer!

Segunda etapa: perrengues e resiliência

No segundo dia, mais um teste. Agora de dureza! A largada foi em pelotão. Toda a elite feminina reunida, tínhamos um trecho de 5km neutralizado antes de entrar de verdade no percurso.

Foi lindo, mas durei pouco mais de meia hora dentro desse pelotão. Já no trecho neutralizado, a dinamarquesa Annika Langvad e a holandesa Anna van der Breggen colocaram ritmo de campeãs mundial e olímpica que são, e meu coração foi a 180 bpm bem antes da largada oficial.

Fui até onde deu, até onde aguentei. Perdi o pelotão em uma subida mais longa e, dali em diante, segui sozinha, fazendo a minha prova. Durante o percurso, caiu uma chuva gelada. Depois, ainda chove granizo e, no topo da montanha, virou neve. Meus dedos congelaram, mas a adrenalina era tanta que eu só percebi isso quando comecei a descer um trecho longo e técnico de singletrack, cheio de pedras. Foi quando eu tive que mudar de marchas, mas não conseguia por conta dos dedos congelados.

Minha primeira reação foi reclamar comigo mesma, mas respirei fundo de novo e agradeci mais uma vez. Estava bem, não corria nenhum risco grave e sabia que todos aqueles desafios iriam ser de grande valia na minha formação de mountain biker.

Terminei a etapa embaixo de uma chuva torrencial e com um baita frio, mas feliz por poder largar mais um dia naquela aventura linda e tão especial.

Terceira etapa: conservadora

O terceiro dia foi parecido com o segundo, só que um pouco mais longo e com uma montanha maior no meio do percurso. O tempo começou a melhorar e pegamos chuva apenas na primeira metade da prova. Também já não estava tão frio. Consegui pedalar um pouco mais no pelotão, mas assim que vieram descidas e curvas técnicas, me desconectei de novo e segui fazendo a minha prova.

Fiz a terceira etapa um pouco mais conservadora, pois já estava começando a sentir o cansaço de andar no limite. Também não queria ter nenhum problema mecânico que me tirasse mais tempo e me fizesse ter que parar naquele frio.

Eu só pensava em terminar a etapa para poder largar o dia mais esperado – acho que por todos: o XCO.

Quarta e última etapa: o reencontro

Quando me dei conta, lá estava, no quarto e último dia, alinhada com todas aquelas atletas que tanto me inspiram e motivam, pedalando no mesmo circuito, um traçado superdivertido e desafiador. A prova de XCO é bem técnica, e tem subidas e descidas bastante íngremes.

Portanto, ou você faz muita força e se concentra, ou vai ter que empurrar a bike em diversos trechos.

Foi um momento de comemoração, meu objetivo já estava cumprido. Eu fiz a prova relaxada, fui até o meu limite várias vezes, quebrei recordes pessoais de força e frequência cardíaca. O sorrisão não saiu do rosto em nenhum minuto.

Terminei a prova com a sensação de ter me encontrado. Mais uma vez, sinto que é no mountain bike que eu devo seguir agora.

Obrigada, Chipre. E até breve!

Me encantei também com Chipre. Seu povo nativo de origem grega nos recebe de braços abertos. Eles são carinhosos. Nos restaurantes locais, come-se comida de verdade, feita com muito amor. Me esbaldei de tanto comer queijo e carne de cabra e de ovelhas, castanhas, verduras e frutas e um azeite maravilhoso, tudo produzido na região de forma orgânica e sustentável. Afinal, eles produzem para o consumo interno mesmo, respeitando a sazonalidade, sem pressa.

Essa experiência ficará guardada no coração. Mas eu já tenho certeza de que, se tudo der certo, eu voltarei em 2020, com novos objetivos e muita vontade de repetir tudo isso.”