Uma última chance

Ele não pedalava fazia uma cara. Mas, antes que sua saúde o tirasse de circulação de vez, Wally Ghia decidiu que iria competir novamente: aos 74 anos; doente terminal

Por Ian Dille

SUAS MÃOS INCHADAS não conseguiam segurar o guidão. A perna direita, desfigurada, não flexionava mais.

Mesmo tendo tomado um punhado de cápsulas de nitroglicerina e umas doses de morfina para esconder o que descrevia como suas “ocasionais dores 9, na escala de 0 a 10”, Wally Ghia, de 74 anos, não conseguia se manter sentado com estabilidade em sua bike. Um grupo de homens o rodeava, dando força. Eles seguravam os braços finos de Wally e o agarravam pela jersey já frouxa, endireitando sua mountain bike de pneus grossos para um lado… Só para ele cair para o outro. A bermuda preta de lycra se estatelou na calçada.

Em uma ponte sobre o rio Arkansas em Salida, no Colorado (EUA), entre duas floreiras coloridas de tons vermelhos, brancos e roxos, Wally e outros 57 ciclistas estavam reunidos para a Banana Belt Mountain Bike Race, uma competição que integra o festival de ciclismo da cidade e que acontece todo mês de setembro. Em aproximadamente 20 minutos, às 11 da manhã, alguém gritará: “3,2,1… já!”. E então a massa de competidores vai largar para fora da cidade, depois dará a volta em um braço do rio e continuará em direção às Montanhas Rochosas.

Finalmente, o grupo de ajudantes de Wally consegue, o levantando novamente e segurando seu corpo sobre a bike full suspension roxa de carbono. Então clipam suas sapatilhas nos pedais e o incentivam a girar a pedivela. Mas seu joelho trava.

“Pooorrrra!”, grita.

Ele até poderia aceitar que estava morrendo, mas não conseguir competir? Isso, sim, o deixava extremamente puto da vida.

QUATRO ANOS ANTES, Flavio “Wally” Ghia ficou em pé e apresentou-se durante uma reunião dos Alcoólatras Anônimos em Mancos, no Colorado. Durante praticamente 30 anos, ele se apoiou no companheirismo da organização, assim como em sua crença em um poder superior que o ajudou a se manter sóbrio.

Aos 70 anos de idade, Wally era bronzeado e bem cuidado, com a cabeça cuidadosamente raspada e um cavanhaque branco emoldurando o rosto. Usava óculos italianos e levava um cachorro American Staffordshire Terrier marrom nos braços – de focinheira. Ao ver Wally pela primeira vez, um participante do grupo lembra-se de pensar: “Quem diabos é esse cara?”.

Mas Wally, com seu jeito rústico, franco e engraçado, logo se apresentou ao grupo. “Faço parte de um clube exclusivo”, começou. “Em uma cidade com 1.300 habitantes, deve haver poucos bêbados.” Ele tinha uma quantidade infindável de histórias inacreditáveis: sobre quando era um adolescente fugitivo vagando por Acapulco, no México; sua carreira como designer gráfico autodidata em Nova York, personificação de um personagem saído de Mad Men; sobre sua participação como testemunha principal em um julgamento de assassinato, que depois foi retratado em um filme para a TV.

Mas Wally gostava, mesmo, era de falar de bike. Ele dizia que já havia vencido um campeonato estadual de mountain bike no Arizona, e usava um moletom com a logo da Absolute Bikes, uma bike shop da região. Contava que o dono da loja, Shawn Gillis, era um dos fodões que competiam em equipes montadas por Wally nos anos 90.

ENQUANTO SEU CORAÇÃO ENFRAQUECIDO TRABALHA DURO, WALLY SE VÊ EM UM CRITÉRIO NOTURNO NO MEIO DA SEMANA. QUANDO O PACE DIMINUI, ELE ESCAPA À FRENTE DOS OUTROS ATLETAS.

Wally gostava de passar o tempo em Zuma, um mercado de alimentos naturais. Suzanne, a responsável por assar os bolinhos de mirtilo, aprendera exatamente o ponto como Wally gostava de comê-los. E o dono do mercado, “Cowboy Steve” Klumker, aceitara a ajuda de Wally para ajudar na divulgação de Zuma. Ele criou um novo cartaz que aproveitava o local da loja, de frente para a Highway 160, no único semáforo da cidade.

O design era algo inato em Wally – certa vez, ele recebera o título de “gênio do design”. E tinha uma habilidade especial para embalar e vender coisas. Cresceu em South Brooklyn, em Nova York, criado principalmente pelos queridos avós. Seu pai viajara o mundo quando trabalhava na Marinha norte-americana, e uma vez voltou da Inglaterra com uma bicicleta Raleigh, que o menino usava para explorar a vizinhança (até a bike ser roubada). Quando o garoto estava com 13 anos, sua mãe mudou-se com ele para a Filadélfia e, longe dos avós, o jovem rebelou-se. Aos 15 anos, fugiu para Acapulco, onde trabalhou em resorts na praia e em um ateliê de silk screen local.

Depois de dois anos, ele pegou carona de volta para a Costa Leste e, aos 18, sem qualquer experiência em marketing ou design, foi para Nova York com a intenção de trabalhar para uma grande empresa de design. Lá percebeu que as gráficas trabalhavam muito próximas dessas empresas grandes, então encontrou um trabalho simples, limpando velhas máquinas de linotipo. Ele se fez indispensável, e estudava à noite em escolas importantes, como o Pratt Institute e a The Cooper Union.

O ilustrador pop Peter Max levou um de seus projetos para a gráfica onde Wally trabalhava, e o garoto o ajudou todo empolgado. Em 1961, isso levou-o a conseguir uma vaga na empresa de Peter, a Daly & Max Studio, um coletivo de jovens designers descolados de Nova York. “Éramos tipo o primeiro grupo de outsiders de Manhattan”, disse Wally ao jornal Phoenix New Times, em 1982. “Durante aquela época, tomávamos muitas drogas.

Ele e a galera ficavam doidões com LSD de pureza duvidosa e provavam vários tipos de maconhas exóticas. Abastecido pelos entorpecentes, Wally trabalhava fervorosamente. Mas, depois de entrar em conflito com Max, abandonou o emprego e começou a trabalhar como diretor de arte na Bantam Books. Aos 22 anos, recebeu elogios como “estrela em ascensão” de um escritor do jornal New York Post (que também notara seu apetite pelo calmante Tuinal). Finalmente Wally abandonou a Bantam para abrir sua própria empresa – mas manteve o consumo de drogas. “No começo dos anos 60, quanto mais louco você fosse nos negócios, mais ganhava”, contou ao New Times.

Ele vendia designs de embalagens muito procuradas para algumas marcas bastante conhecidas da época. “Sempre enxerguei os supermercados como o verdadeiro campo de batalha dos designers”, disse. “E eu queria estar na galeria das marcas reconhecidas. Se você é bom, é nessa turma que deve estar.”

Wally saiu da cidade e mudou-se para uma grande casa de paredes de vidro em um condomínio de luxo. Preencheu sua garagem com uma Range Rover e uma Lotus, e tirava férias no Hotel Oloffson em Porto Príncipe, no Haiti, ponto de encontro popular de políticos e celebridades, como Mick Jagger e Jacqueline Kennedy Onassis, nos anos 70.

Seu sucesso em Nova York continuou, mas o trabalho maníaco, associado ao uso crônico de drogas, resultava no que pareciam ser episódios psicóticos. Ele foi internado por um tempo e, quando saiu, decidiu abandonar a região de Nova York. Trabalhou em Toronto, no Canadá, e em Los Angeles, na Califórnia (EUA), até que se estabeleceu em Phoenix, no Arizona, em 1974. Ali, a intenção era levar sua grande experiência para a cidade emergente no meio do deserto.

Mas os vícios e a associação com tipos de caráter pouco confiável arruinaram suas aspirações. Em 1982, ele foi testemunha-chave em um julgamento de assassinato – um crime ligado à máfia local, que tirou a vida de um de seus sócios. Depois disso, temendo por sua segurança, ele fugiu do Estado e mudou de nome (o de batismo era Wally Roberts). Começou a levar consigo uma arma carregada e uma faca, e tinha sempre um pit bull do lado. Desde então, sempre que se sentia ameaçado, vestia a armadura de cara durão. Ele rompia com amigos próximos ou namoradas por causa de qualquer desentendimento. Até que se viu completamente isolado.

ATÉ QUE SE VIU ATRAÍDO PELO CICLISMO, “A ÚNICA COISA QUE CONSEGUIA SUBSTITUIR A HEROÍNA”.

Depois de mais de um ano fugindo, voltou para Phoenix e finalmente livrou-se das drogas. Ele descobriu o companheirismo dos Alcoólatras Anônimos e achou conforto na espiritualidade das filosofias orientais. Começou a ver a si próprio como um samurai, um guerreiro solitário da sabedoria e da honra, que tirava a própria vida antes de se submeter ao inimigo. Wally começou a colecionar espadas de samurai e frequentemente citava “Caminho do Andarilho Solitário”, escrito pelo lendário samurai Musashi Miyamoto.

Até que se viu atraído pelo ciclismo, “a única coisa que conseguia substituir a heroína”, lembrou. Ele pensava nos coloridos grupos de ciclistas que admirava quando garoto, fazendo alvoroço pelo Brooklyn, gesticulando e falando italiano, e usou-os como modelos. Transformou-se em atleta. Acordava todos os dias antes de o nascer do sol, enfiava uma fita de videocassete do Tour de France na TV e, logo depois, estava pronto para pedalar. Com o físico esguio e as pernas fortes, ele até os 50 anos ainda conseguia competir com ciclistas da metade da sua idade.

Em 1990, Wally fundou uma equipe de mountain bike, que logo começou a competir nacionalmente. Fez designs para seus patrocinadores e chamou sua equipe de Team Rhino (Time Rinoceronte), porque dizia que esses animais “nunca desistem, nunca param de atacar”. E os atletas de Wally realmente eram assim. Um mountain biker de downhill chamado Kim Sonier competia nas provas da Copa do Mundo da Europa e ficou em segundo lugar no campeonato mundial em 1992 e 1993. Outro, Matt Quinn, arrumou emprego no Serviço Secreto e trabalhou na equipe de segurança de George W. Bush, o que frequentemente envolvia andar de mountain bike com o então presidente em sua fazenda em Crawford, no Texas. Carl Tobin tornou-se cientista e expert em expedições da National Geographic.

Daí, em uma noite depois de uma prova em 1996, Wally teve um infarto. Seguiram-se complicações e uma série de cirurgias, mas ele continuou dedicado ao pedal. Durante a recuperação, arrastava uma bike de spinning para o quintal e girava ao ar livre. Mas, em 2004, quando começava a recuperar as forças, iniciou uma nova batalha pela própria vida, contra as bactérias devoradoras de carne da fasciíte necrosante, que o levou a passar meses em um hospital de queimados.

Em 2005, ele se mudou para Sarasota, na Flórida, em uma tentativa malsucedida de recuperar sua relação com a mãe doente. Ele não conseguia mais competir, mas organizava pedaladas noturnas de 25 km em um parque local. Wally conheceu uma mulher em Sarasota, uma guarda-parque que trabalhava ali chamada Lisa Rhodin. Ela o resgatava quando Wally sofria alguma desgraça em um pedal, enfrentava problemas mecânicos ou tinha complicações em sua saúde precária.

O casal se encontrava em um lugar do parque chamado Deep Hole (Buraco Fundo), onde jacarés se reuniam às centenas. As mulheres sentiam-se muito atraídas por Wally (foram cinco casamentos), mas ele disse que nunca sentiu um amor tão grande. E quando Lisa o deixou, ao se mudar para Montana, contou que nunca sentiu uma dor maior.

Em 2011, meio que por impulso, foi para Mancos, de volta aos altiplanos do oeste norte-americano. Em Mancos ele conseguia aproveitar a paisagem do deserto, além de desenvolver uma comunidade de amigos e cuidadores. Sobrara-lhe pouco dinheiro e poucas perspectivas de trabalho. Ele não tinha planos de se mudar novamente.

DOS MUITOS amigos que fez em Mancos, Joan e Peter Brind’Amour eram os que ele considerava mais próximos. O casal de meia-idade vivia na mesma quadra da casa que Wally alugava e também gostavam de bike. Eles haviam se mudado para Mancos em 1997, em busca de um lugar para plantar a própria comida, e também porque souberem que a cidade recebia bem os ciclistas. “Gostávamos de testar a cordialidade das pessoas pedalando pelas ruas e sentindo a receptividade às nossas roupas de lycra”, conta Joan. O casal frequentemente passava para uma visita ou para levar a cadela Conchetta para passear, pois Wally já não conseguia mais.

Apesar de falarmos a respeito de imprevistos com sua saúde, claramente Wally sofria de várias doenças. Quando questionado, dizia que havia se mudado para Mancos para pedalar e treinar para os Senior Games, os jogos locais para pessoas com mais idade. Porém, de acordo com Peter, “nunca vi Wally em uma bike”. Visivelmente, a crise de fasciíte necrosante quase havia custado a amputação da perna direita, permanentemente desfigurada do tornozelo até a coxa.

Ele também sofria de dor no peito, conhecida como angina, mesmo depois de três cirurgias cardíacas. A sensação de uma morsa apertando o peito espalhava-se pelos braços, pescoço e mandíbula; enjoava o estômago, forçando-o a vomitar. Peter lembra-se de pegar Wally em um dia especialmente ruim em sua casa. “Ele só conseguia ficar sentado, segurando a cabeça e balançando”, conta.

O GOLPE MAIS RECENTE NA SAÚDE DE WALLY FOI EM MANCOS, EM UM PASSEIO DE MULA COM COWBOY STEVE – WALLY DIZIA QUE CAVALGAR LEMBRAVA-LHE DA SENSAÇÃO DO MOUNTAIN BIKE, DE “ESTAR LÁ FORA, NA ROUBADA”. MAS, ENQUANTO SUBIA UM CÂNION ÍNGREME, INCLINOU-SE PARA TRÁS, QUANDO DEVERIA TER SE INCLINADO PARA FRENTE.

Caiu, bateu a cabeça e teve uma hemorragia no cérebro. Foi resgatado de helicóptero para um centro de neurologia em Farmington, no Novo México, onde os médicos fizeram orifícios em seu crânio para drenar o sangue e aliviar a pressão. O procedimento salvou sua vida, mas a lesão deixou-o com danos nervosos, equilíbrio instável e uma memória intermitente.

Steve e a família ajudaram na recuperação de Wally após essa queda, e Peter e Joan também foram cuidadores voluntários, levando-o em suas consultas ao médico. Entretanto, a medicina moderna não podia ajudar muito mais aquele senhor de 70 anos com o coração fraco. Um dia, em 2016, Wally saiu do hospital com uma cara especialmente sombria. Os médicos haviam lhe dado uma carta, e ele leu uma linha em voz alta: “Não há mais nada que podemos fazer por você”.

Wally havia recebido o diagnóstico de insuficiência cardíaca congestiva, e lhe recomendaram procurar uma casa de repouso, que poderia oferecer alívio para a dor assim como apoio emocional e espiritual. “Foi uma maneira bem rude de eles falarem o que estava de fato acontecendo”, conta Peter. Flavio “Wally” Ghia estava morrendo.

Enquanto voltavam de carro para as montanhas em Mancos, Joan tentou melhorar os ânimos e fez uma piada de mau gosto. “Você poderia começar uma nova equipe de bike”, disse a Wally. Time Terminal. Todo mundo riu do absurdo mórbido da sugestão. Uma equipe de bike para gente que estava à beira da morte. Peter entrou na brincadeira: “O slogan poderia ser: ‘Acabe com a concorrência’”. Wally, sempre marqueteiro, pareceu tirar energia da ideia. “Não, tem que ser mais agressivo aí”, disse. “Enterre os concorrentes.”

A piada virou realidade. Poucas semanas depois de iniciar os cuidados paliativos “terminais”, Wally começou a trabalhar para dar vida à equipe Hospice Racing (Hospice é como são chamadas as clínicas para cuidados paliativos de pacientes em estado terminal), criando um logo para sua equipe de um homem só (um ponto de exclamação roxo, com um rastro de pneu de mountain bike passando por cima do nome). Distribuiu adesivos Hospice Racing nos hospitais. “Todo mundo adorava”, contou.

Ele telefonou para patrocinadores em potencial, como seu velho amigo Shawn Gillis, da Absolute Bikes (que convenceu Wally a mudar o slogan para “A Happier Ending”, ou Um Final Mais Feliz), e mandou fazer adesivos grandes da Hospice Racing para transformar sua SUV no carro oficial da equipe.

Wally desenvolveu um profundo carinho pelos cuidadores que iam em sua casa. Uma assistente social, Crystal Harris, o ajudava a fazer uma lista de amigos que ele queria manter informados a respeito da sua saúde, além de dar uma força na coordenação do serviço de limpeza. Gail Bertram, que vivia na mesma rua que Wally, tornou-se sua enfermeira e conseguia uma variedade de narcóticos para que ele pudesse aliviar os sintomas das doenças. “Os medicamentos me tiravam a dor”, conta Wally. “Com tudo que tive, era como um milagre.”

A equipe dos ciclistas moribundos de Wally (isto é, ele mesmo) não foi surpresa para os cuidadores, que já haviam ajudado outros pacientes a realizarem desejos semelhantes. “Cuidei de uma senhora que queria ver a praia, então a ajudamos a chegar lá”, conta Gail. “Ela morreu bem ali, com os pés na areia.” Com a Hospice Racing, Wally também queria usar sua bike para aumentar a conscientização sobre os cuidados paliativos e mostrar como isso o estava ajudando a viver a vida, até o final. Sem a dor debilitante, ele acreditava que poderia pedalar novamente.

NO COMEÇO DO VERÃO DE 2016, WALLY LIGOU PARA SHAWN E DISSE: “OLHA, EU PRECISO PARTICIPAR DE UMA PROVA. SE EU NÃO FIZER ISSO, TUDO TERÁ SIDO EM VÃO”.

Shawn contou a respeito do evento que aconteceria em Salida, o Banana Belt Mountain Bike Race. A corrida, cujo nome é uma homenagem a um local da cidade constantemente ensolarado nas Rochosas (um cinturão das bananas), acontecia desde 1989 e era parte do festival anual de loucuras de bike.

Então Shawn perguntou a Wally: “Mas você consegue pedalar?”

“Eu não sei”, ele respondeu.

NO COMEÇO DE JUNHO, Peter e Wally encontraram-se com Shawn na loja dele em Salida, a quatro horas de carro de Mancos, para o que chamaram de “teste”. Por causa da perna, do coração e da queda do cavalo, Wally não pedalava havia oito anos. Sentindo o entusiasmo de Wally, Shawn tentou moderar as expectativas. “Vamos só vamos ver o que acontece”, disse.

Shawn sugeriu que ele usasse uma bicicleta Specialized Rhyme FSR 6 Fattie, uma fat bike confortável. “Não lhe contamos que era uma bike feminina”. Era roxa, conta Shawn, que achava que os pneus gordos da 6Fattie e um posicionamento mais ereto ajudariam no equilíbrio de Wally. E o canote regulável daria uma força para que Wally subisse e descesse da bike. A qualquer momento que ele parasse, poderia descer o selim e colocar os dois pés no chão. Wally lançava uma rajada de perguntas a respeito da bike. “Se vou ser patrocinado, tenho que conhecer meu equipamento”, dizia.

Quando começou a pedalar, Shawn correu atrás dele, segurando a parte de trás do selim como um pai faz com o filho pela primeira vez. Depois de uns cinco metros, Wally gritou: “Pode soltar!”. Shawn subiu em sua bike, e os velhos amigos pedalaram 3 km por uma rua vazia.

“Quando voltaram, ambos estavam radiantes”, conta Peter. Os olhos do senhor de mais de 70 anos brilhavam como os de uma criança.

Wally ainda brincou com Shawn: “Passei no teste?”.

“Sim”, disse Shawn.

Os dois se prepararam para a prova durante os meses que se seguiram. Em sua primeira pedalada juntos, fizeram uma trilha de 400 metros, com Peter usando uma velha mountain bike de titânio que ele havia convertido em uma cruiser urbana. “Nem sei se conseguimos dar duas voltas”, conta Peter. Mas Wally progredia. Peter conta que, logo depois, “Wally me ligava o tempo todo”. Peter e Wally pedalavam duas ou três vezes por semana, e Wally esperava por cada rolê ansiosamente.

Os dois descobriram como dosar as drogas de Wally para que ele conseguisse pedalar: morfina suficiente para aliviar a dor, mas não tanto que não o deixasse ficar ereto na bike. Em suas pedaladas, Peter levava um pequeno frasco de cápsulas de nitroglicerina, que dilatavam instantaneamente os vasos sanguíneos de Wally, aliviando os episódios de angina. E Wally descobriu uma cepa de maconha na drogaria local que aliviava a dor nos nervos de um jeito que nem a morfina conseguia. “Ele fumava praticamente sem parar”, entrega Peter.

Para ajudar Wally a subir na bike, Peter sentava no pneu dianteiro e segurava o guidão usando as pernas como estabilizadores para que Wally pudesse subir. À medida em que a energia de Wally aumentava, eles se aventuravam para além da trilha. Saíam da casa Wally para o sul, em direção às montanhas. Perto do cemitério, havia uma pequena subida, onde davam meia-volta. Pedalavam de volta à cidade e viravam à direita na East Montezuma Street, rua de cascalho levemente em ascensão. “Não conversávamos muito na bike. Wally tinha que ficar muito concentrado para que conseguisse manter a bike estável e respirar ao mesmo tempo”, conta Peter. Quando Wally falava alguma coisa, era para comemorar: “Deus, isto é muito bom!”.

“Ficou claro, desde a primeira vez em que o vi subir na bike, que era uma pessoa que passara muito tempo pedalando”, diz Peter. “Em manobras simples, como dar meia volta, ele equilibrava com a perna boa, para se manter em movimento.”

Uma única vez Wally tentou pedalar sozinho. Peter chegou à tarde e o encontrou todo estropiado. Wally contou que uma velhinha o jogou para fora da estrada. Ele não se machucou, e o incidente apenas aumentou sua vontade de pedalar. Ele havia “comprado um terreno”, como se diz na gíria dos mountain bikers – e agora era novamente ciclista de verdade.

Depois de três meses de preparação, chegou o dia da prova. Em 17 de setembro, Peter e Wally colocaram a mountain bike no carro e partiram para Salida. Wally usava uma jersey com o logo da Absolute Bikes. Foram na SUV dele, toda adesivada de Hospice Racing. Mas, durante as semanas que precederam o evento, a saúde de Wally havia mudado. Suas mãos e pés estavam inchados. “Ele não conseguia controlar as mãos. Se recebesse um copo d’água, derrubava no próprio colo”, conta Peter.

Em Salida, ao retirar o kit de Wally, Peter disse a Shawn: “Não sei nem se Wally vai conseguir subir na bike”. E não conseguiu mesmo.

“Caí sentado de bunda”, contou Wally.

“Éramos cinco caras tentando fazer com que ele subisse na bike”, relembra Shawn.

Todo o trabalho de Wally estava desmoronando bem diante de seus olhos. Ele tentou girar a pedivela, e o joelho direito travou. Aqui, nesta rua de Salida, entre as floreiras explodindo em cores, Wally gritava de frustração.

FALTANDO APENAS 20 minutos para a prova, Shawn teve uma ideia. “Temos uma tandem lá nos fundos da loja”, contou a Wally. “Quer pedalar atrás?”

Wally olhou para Shawn: “Vá logo buscá-la!”.

Os dois se alinharam perto do pelotão da frente, na tandem Electra de Shawn. O tubo superior baixo na parte de trás da cruiser tandem facilitou a subida de Wally na bike, e o guidão alto ajudou na pegada.

Alguém gritou: “Vai!”. O pelotão disparou à frente e Shawn pedalou com força. O trecho de 42 km dava a volta na cidade de Salida em um trecho plano de aproximadamente 5 km, e depois subia as montanhas. Durante algum tempo, Wally estava no pelotão líder, enquanto atravessavam o centro histórico por entre os prédios de tijolos com dois andares. Shawn inclinava-se para frente, para que Wally conseguisse ver o mar de ciclistas virando à direita e atravessando o rio Arkansas pela antiga ponte de aço, depois à direita de novo, para beirar o rio por uma estrada de terra esburacada. Na tandem, os dois puderam bater um papo. Shawn lembrou-se da época em que competiam no Arizona e ele alcançava Wally nas trilhas. Alguns competidores não davam passagem, mas Wally sempre puxava para o lado, encorajando Shawn.

Na curva onde o percurso voltava para a cidade, Wally e Shawn pararam para deixar o resto dos ciclistas subirem a montanha. Wally tirou a jersey de ciclismo, vestiu as roupas de cidade e respirou oxigênio de um cilindro que Peter havia trazido. Depois posicionou-se perto da linha de chegada para cumprimentar os competidores. O vencedor, profissional então com 38 anos vindo de Durango, Nick Gould, viu Wally quando chegou e puxou conversa. “Você também correu?” Wally contou a Nick como havia sido sua pedalada, e que estava no final da vida. Antes de ir, Nick pediu para tirar uma foto com Wally.

Depois da prova, Nick convidou Wally para dar uma palestra em um curso de psicologia que ele fazia para seu mestrado. Ele aceitou. “E fui aplaudido em pé.” Depois da palestra, o ciclista moribundo e o jovem profissional foram almoçar. Wally soube que Nick gerenciava a própria equipe. Nick ouviu os planos de Wally sobre o Hospice Racing e sobre como acreditava que, se ele podia correr, outros também poderiam.

“Não sou totalmente terminal”, contou.

Ele tinha planos de competir novamente na Cactus Classic, em novembro, evento off road o qual chamava de “trilhas de casa”, no Arizona, perto de Phoenix. Nick, que tem graduação em ciências do exercício, ofereceu ajuda com o treinamento de Wally. Ele foi para Mancos para lhe passar exercícios de força e equilíbrio. “Ele estava todo cheio de vida”, lembra-se. Da mesma forma, Peter recorda que ele e Joan costumavam tirar sarro de Wally, dizendo: “Você realmente não parece alguém que está morrendo de insuficiência cardíaca congestiva!”. Wally ficava muito bravo, porque só ele sabia quanta dor sentia.

NA SEMANA DA CACTUS CLASSIC, SUA SAÚDE PIOROU MUITO. UMA ENFERMEIRA O ENCONTROU EM CASA INCONSCIENTE. ELA ENTROU EM CONTATO COM CRYSTAL, QUE LIGOU PARA OS AMIGOS DE WALLY E SUGERIU QUE O VISITASSEM.

Ele não queria morrer sozinho. “Às vezes, ele me ligava no meio da noite”, conta Joan. “Dizia, estou morrendo, você pode vir aqui segurar a minha mão?’”

Gail foi visitar e ouviram música juntos. Suzanne mandou bolinhos de mirtilo da Zuma. Shawn veio de Salida e contou histórias dos fodões de lá. Nick também apareceu, a caminho da Cactus Classic. “Vai e ganha aquela porra”, mandou Wally. Nick obedeceu.

Enquanto os amigos se reuniam em sua volta, ele foi recuperando a consciência e lentamente melhorou. “Dá medo”, disse. “Uma hora eu acho que estou morrendo, logo depois, volto.”

Uma semana depois, ele decidiu que queria pedalar de novo. Então, no dia 16 de novembro, Nick voltou para a casa de Wally em Mancos para uma sessão de treinamento. Peter e Joan estavam ali, preparando comida para Wally, que tomou dose tripla de morfina para conseguir montar na bike.

Nick o ajudou a vestir a bermuda, as meias de compressão e as sapatilhas. Fizeram um alongamento leve para liberar o quadril, para que Wally conseguisse subir na bike, que estava no rolo. O aquecimento se resumiu a dez minutos de rodagem. Ele focou na postura e no alinhamento, puxando e empurrando. Nick sugeriu alguns intervalos, entre um e três minutos. Disse a Wally que o esforço deveria ser 60% ou 70% da sua capacidade, e, à medida que botava mais pressão nos pedais, falou para fechar os olhos e visualizar a estrada.

Wally se viu em uma bike de estrada italiana, entre as montanhas vermelhas do deserto de Phoenix, com o sol nascendo. Estava em um pelotão, em uma prova que vai até o topo da South Mountain por uma estrada sinuosa de asfalto; o suor escorria por suas pernas musculosas, enquanto seu coração enfraquecido trabalha duro. De repente Wally se vê em uma prova noturna de critério, no lusco-fusco. Quando o ritmo diminui, ele escapa à frente dos outros atletas. Visualiza sua equipe de moribundos e a poeira cinza das trilhas de Cave Creek grudada nas canelas.

Peter observava Wally pedalando e perguntou-se em voz alta se o esforço o mataria. “Estou tentando ao máximo!”, ele respondeu. “Se morresse ali, sobre a bike”, disse, “seria perfeito.”

Mas não foi desta vez.

DOIS DIAS DEPOIS da sessão de treino com Nick, Lisa “Montana”, como Wally gosta de chamá-la, chegou a Mancos. Ele havia enviado um email a ela explicando sua situação. Também confessou que Lisa foi “o único verdadeiro amor” de sua vida. Seus olhos se encheram d’água.

“Só quero abraçá-la uma última vez.”

Passaram quatro dias tranquilos juntos em sua casa. No quarto dia, às três da manhã, Wally perdeu a consciência. Sua pele ficou cinza e a barriga, frouxa. A respiração diminuiu, e parecia que ele estava gargarejando a cada inspiração.

Peter também estava sentado ao lado de Wally, segurando a sua mão. Além dele, ainda estavam Joan, Gail e Nick. Wally havia se inscrito na Dream Foundation, ONG que realiza últimos desejos. Ele queria pagar as sessões de treino para Nick, para trabalhar com foco em mais um evento ciclístico. A fundação concordou em fazer um cheque para realizar seu desejo, e havia também enviado uma carta para Nick. Gail contou a Nick que, na hora da morte, a audição é um dos últimos sentidos que a pessoa perde, então ele sentou-se ao lado de Wally e leu a carta.

Wally sabia que, provavelmente, nunca mais participaria de uma prova. Uma semana antes, ele havia expressado o que o destino lhe dizia: “É, cabeção, você só tem mais uma prova. Não vamos deixar você correr duas”. Mas saber disso não o impediu de tentar. “Esteja eu vivo ou não, será uma boa história.”

WALLY ESTÁ NA CAMA, SOBRE LENÇÓIS DE COWBOY AZUL BEBÊ E VERMELHO FERRUGEM, DECORADO COM CAVALINHOS. UM AMIGO HAVIA COMPRADO E WALLY HAVIA DITO QUE QUERIA MORRER NAQUELES LENÇÓIS.

“Será logo”, anunciou Gail, inclinando-se para perto do peito de Wally. Às 11h58 da manhã do dia 22 de novembro, parecia que ele havia parado de respirar. Gail chega ainda mais perto, quase encostando a orelha em sua boca. Nesse momento, ele dá um último suspiro. Gail pula e sorri.

“Wally, seu filho da mãe!”

Mas dessa vez ele partira.

(Matéria publicada na revista Bicycling 14 – Jan/Fev 2018)

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