Velo-City 2018: cidade para as pessoas

Saiba como foi a maior conferência mundial sobre mobilidade urbana, que aconteceu no Rio de Janeiro

Por Mario Mele*

“Infraestrutura”. Esta foi provavelmente a palavra mais falada durante o Velo-City 2018, que rolou na última semana em um dos revitalizados galpões do Píer Mauá, na zona central do Rio de Janeiro. Segundo os palestrantes, especialistas em mobilidade urbana de diversos países, infraestrutura é a base para um trânsito seguro e para o deslocamento eficiente dos moradores de grandes aglomerações urbanas. O Velo-City mostrou bem isso.

Tido como a principal conferência mundial sobre mobilidade urbana, o Velo-City nasceu em 1980, em Bremen, Alemanha. Sua finalidade sempre foi discutir o uso da bicicleta nas grandes cidades, através de uma série de apresentações e debates entre especialistas do tema.

Em 2018, em sua primeira vez no Brasil, a 11ª edição do evento mostrou que a questão hoje não é mais somente o velho embate “carros versus bicicletas”. Facilitar e incentivar o trânsito de pessoas que optaram por se locomover com as próprias forças é o mais importante: no topo da pirâmide estão os pedestres, seguido de ciclistas e, mais abaixo, pelos usuários de transportes públicos. Na base da pirâmide, em último na preferência, estão os motoristas/donos de carros particulares.

Por mais que esta ordem de prioridades esteja clara na cabeça da maioria dos ciclistas, os palestrantes do Velo-City não a economizaram em suas apresentações.

“A liberdade de se transportar consiste, entre outros aspectos, reconquistar os espaços livres de carros”, disse uma aluna da UFRJ durante a apresentação de seu trabalho de pós-graduação no Velo-City. “E a infraestrutura é o principal para as pessoas começarem a usar a bike como meio de transporte”, ela concluiu.

Em uma época em que cidades como São Paulo e Rio de Janeiro sofrem com a falta de conservação e ampliação de boa parte de sua malha cicloviária, “infraestrutura” é uma palavra que veio em boa hora.

“Infraestrutura não é importante, é primordial”, destacou o canadense Ryan Whitney, especialista em planejamento urbano sustentável em sua fala no painel “Advocacy”, que discutiu a importância de se cobrar ações governamentais na causa.

Em defesa da mobilidade urbana

Em 2012, a Política Nacional de Mobilidade Urbana foi instituída para que os municípios brasileiros pudessem criar transportes e sistemas viáveis a toda a população. No entanto, durante esses anos todos, a vontade política em prol da mobilidade urbana não tem se mostrado muito eficiente para quem pedala. Em outras palavras, o plano nã­­­­­­­­­­o tem colaborado com a segurança dos ciclistas no trânsito.

“O Brasil é o país mais burocrático do mundo, segundo o Banco Mundial”, revelou a coordenadora de relações institucionais do banco Itaú Unibanco, Helen Faquinetti, durante os minutos que teve no palco do Velo-City 2018. Helen destacou que a mobilidade é uma causa defendida pelo Itaú. E, atualmente, é um desafio extra para essa empresa resolver questões sobre mobilidade –para conseguir se firmar como patrocinador do principal sistema de compartilhamento de bikes do Brasil, que atualmente está presente em cinco cidades.

O inglês Peter Cox, professor PhD da Universidade de Chester, enumerou suas ideias sobre uma mudança de paradigma que comece a ter pessoas como prioridade. Ele acredita que educação, inovação tecnológica, processos políticos favoráveis, protestos e ações apropriados ao uso da bike são primordiais para essa mudança coletiva de mentalidade.

Exemplos que inspiram

Como era de se esperar, os representantes da Dutch Cycling Embassy (ou a Embaixada do Ciclismo Holandês), vieram passar a limpo as experiências de seu país aos brasileiros.

Com mais bikes do que pessoas nas ruas (são 23 milhões de bicicletas para 17 milhões de habitantes), a Holanda tem moral para falar sobre mobilidade sustentável. Através do plano Tour de Force, o país quer melhorar o que já conquistou e fazer com que o mundo perceba os sinais positivos da mudança. Hoje, o país tem a bike em primeiro lugar, com 35 mil km de ciclovias devidamente sinalizadas, com placas específicas. Além disso, a Holanda investe em malhas ciclísticas por todo o país, levando o uso da bike ao patamar do turismo.

Na Europa, o cicloturismo – outro assunto debatido durante o Velo-City 2018 – já é um grande negócio: além de mais da metade de alemães e holandeses utilizarem a bike nas férias, já existem roteiros consagrados de cicloturismo que cruzam o Velho Continente e que, todo ano, atraem ciclistas aventureiros do mundo inteiro.

Compartilhamento de bikes

Ao colocar esses assuntos para serem apresentados por representantes de países com diferentes realidades, o Velo-City colaborou com discussões e debates interessantes ao final de cada painel. E o público foi participavo.

No Brasil, um tema em destaque na infraestrutura do transporte urbano tem sido o compartilhamento de bikes. Atualmente, a empresa Tembici é quem administra o sistema de bikes patrocinados pelo banco Itaú. Ao todo, são 4.700 bicicletas, espalhadas por 690 estações e presentes em cinco capitais (Recife, Porto Alegre, Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro).

Como empresa patrocinadora, o Itaú ajuda no avanço de projetos de mobilidade urbana sugerindo estudos e apontando pesquisas.

“A bike não é apenas uma ação de marketing, é uma causa”, disse Simone Gallo, Head de Relações Institucionais do Itaú Unibanco. “Já colhemos muitos frutos em matéria de mobilidade urbana através de trabalhos engajados, que levam em conta a participação de técnicos e gestores públicos e da própria sociedade.”

Exposições

Além de trazer especialistas mundiais em mobilidade urbana ao Rio de Janeiro, o Velo-City também contou com um setor de exposição que, apesar de acanhado, apresentou ideias bacanas. A exemplo do app de ciclismo UrbanCyclers, que promete facilitar as viagens dos transportes autossuficientes oferecendo os melhores caminhos e conexões para quem usa a bike como locomoção. Apesar de não ser uma ideia nova, este serviço ainda não pegou entre os ciclistas urbanos.

Velo-City para todos

Durante o bike parade, o pedal coletivo que foi uma das atrações oferecidas pelo evento, ativistas levantaram a bandeira contra o preço da inscrição, considerado abusivo por eles. Dessa forma, fizeram alguns convidados refletirem sobre os US$ 270 que valia o ingresso para todos os dias de Velo-City. Segundo os ativistas, esse valor foi determinante para que o evento ficasse restrito a um público específico.

Alguns credenciados defenderam o fato de o Velo-City ser orientado mais às organizações, governamentais ou não.

Como um evento que levanta a bandeira da sustentabilidade, o Velo-City também pecou ao abusar do uso de materiais plásticos, além de parecer não se importar em minimizar seu impacto — através, por exemplo, de uma coleta seletiva do lixo gerado.

Ao menos os militantes colaboraram com a mudança. Sob o ponto de vista do inglês Peter Cox, que palestrou no Velo-City, o protesto reforça a existência de uma crise e nos leva ser parte da mudança que queremos ver ao redor.

Algo coerente a um evento que existe para reacender a esperança de que as cidades podem ser lugares bem melhores para se viver.

*O jornalista Mario Mele participou do Velo-City 2018 a convite do Itaú