“Você é um anjo!”

Como a ONG Bike Anjo tem conseguido levar às ruas uma multidão de pessoas que nunca pedalou ou tinha medo de enfrentar suas cidades de bicicleta

O bike anjo Marcos Bueno ajuda Rafael Mattos a se sentir mais seguro para pedalar em São Paulo

Por Fernanda Beck

Em 2012, depois de passar uma década sem pedalar, a cabeleireira paulista Fabíola Maia, de 41 anos, resolveu dar uma nova chance à bicicleta: para agilizar a vida, pensou que seria uma boa ideia ir de bike de casa para o salão e vice-versa. Mas o medo de encarar as ruas de São Paulo, onde mora, era enorme. Como enfrentar motoristas mal-educados e cruzamentos caóticos sem deixar o nervosismo dominar? Até que um dia ficou sabendo da existência de um grupo de voluntários que, pelo que lhe falaram, trabalhavam dando uma força para quem tinha receio de se locomover de bicicleta por aí. Começava a história de superação e solidariedade entre Fabíola e o Bike Anjo (bikeanjo.org), uma ONG criada na capital paulistana em 2010 por um grupo de amigos que queria ver mais gente nas ruas pedalando e ocupando os espaços públicos.

A ideia por trás da iniciativa é tão simples quanto genial: quem ainda não tem muita confiança sobre duas rodas pode acessar o site da organização e solicitar um bike anjo (como são chamados os voluntários), seja para perder o medo de pedalar ou aprender os melhores trajetos para se fazer de casa aos destinos desejados. A partir do pedido, a ONG acessa seu cadastro de voluntários e designa uma pessoa para ir ao encontro do ciclista novato. Por alguns dias, os dois pedalam juntos, e lições para a vida inteira sobre como pedalar no trânsito, como reagir a fechadas e até sobre equipamentos são passadas. Tudo de forma gratuita. “Meu bike anjo, por exemplo, me acompanhou no caminho de casa para o trabalho, ida e volta, por três dias, antes que eu me sentisse segura para me virar sozinha”, conta Fabíola. “Meu maior pânico era quando escurecia. Durante o dia eu ia bem, mas demorei para ficar confortável pedalando à noite.” Hoje a ex-aprendiz faz parte da rede de voluntários, utiliza a bicicleta como meio de transporte e já auxiliou dezenas de outras pessoas.

“O primeiro passo para começar a pedalar pela cidade é aceitar uma preciosa quebra de paradigmas”, explica Missaki Idehara, 33, engenheiro agrônomo e um dos coordenadores do Bike Anjo. Antes de mais nada, é preciso se libertar de ideias preconcebidas sobre o transporte via bicicleta. “Muita gente acredita que se for de bike para o trabalho chegará suada e que pedalar pela cidade é perigoso. Sempre trabalhamos a parte emocional, mostrando diversas soluções para esse tipo de obstáculo, como pedalar mais devagar para aproveitar o caminho, e não para chegar o quanto antes”, explica.

Para aumentar a segurança e a sensação de confiança, os bike anjos ensinam seus alunos a andarem sempre bem visíveis, prestando atenção ao que está acontecendo ao redor e a se comunicarem com motoristas e pedestres por meio de sinais feitos com os braços. “A comunicação direta com os motoristas é um dos itens que considero mais importantes, pois se trata de um fator imprescindível para encontrar gentileza durante o caminho”, diz Fabíola.

Além do sistema de aproximação entre iniciantes e iniciados, o Bike Anjo também organiza a Escola Bike Anjo, que ensina quem nunca pedalou a andar de bicicleta. O perfil da maioria dos alunos é de mulheres acima dos 40 anos de idade. “Esse dado é fruto de um sistema machista que reinava alguns anos atrás, quando essas mulheres de hoje eram crianças e seus pais não achavam que meninas precisavam aprender a andar de bicicleta”, reflete Marcos de Oliveira, articulador nacional da organização. Outra parcela significativa dos alunos iniciantes é composta por jovens que, quando crianças não tinham a bicicleta como opção de lazer – como moradores de prédios cujos pais não os deixavam sair para brincar na rua. “A maior dificuldade de quem está começando é o medo; já o equilíbrio é fácil de conseguir. O trabalho psicológico é fundamental, por isso sempre tentamos deixá-los relaxados, tranquilos e seguros”, explica Marcos. Geralmente quem sobe na bicicleta pela primeira vez demora de 20 a 40 minutos até encontrar o equilíbrio perfeito e dar suas primeiras pedaladas. A cada dez solicitações recebidas pelo Bike Anjo, cerca de seis vêm de quem nunca andou de bicicleta antes.

Atualmente a rede tem mais de 2.500 voluntários espalhados por todos os estados do Brasil, além de presença em Portugal, Estados Unidos, Hungria, Equador e Austrália. A parceria com outros países é firmada por meio da disponibilização online de ferramentas criadas pela ONG e de um suporte inicial fornecido para quem quer “puxar” o Bike Anjo para sua cidade. Com o aumento das ciclovias em São Paulo e no Brasil, a demanda pelo serviço cresceu cerca de 40% nos últimos anos, e a situação do ciclista melhorou, de acordo com Marcos. “Veja meu caso, por exemplo: pedalo por São Paulo há seis anos e a cada dia me sinto mais seguro O trânsito parece mais amigável para o ciclista e para o pedestre. Isso está de total acordo com o nosso lema: quanto mais pessoas usarem a bicicleta, mais seguro se tornará pedalar.”

Em dupla você vai melhor!

Dois é melhor!
Três dicas simples para você pedalar (bem) acompanhado

1. Encontre um parceiro Pode ser seu melhor amigo, esposa, filho, colega, mãe, o cara que você sempre vê no café (cujo nome você não sabe, mas dá para perceber que ele curte bike). Qualquer nível de experiência ciclística vale, desde um novato até alguém que quer retomar o esporte depois de um tempo parado.

2. Definam um objetivo comum Para dar um empurrãozinho na motivação, defina uma meta concreta, em vez de apenas “começar a pedalar”. A ambição pode ser pequena, como dar uma volta inteira no parque perto de casa, ou grande, como conseguir pedalar 100 km. E defina uma data limite para atingir esse objetivo.

3. Divulgue seus feitos Postar fotos no Instagram e frases no Twitter pode dar uma empolgação extra para continuar pedalando. Compartilhe seu progresso na bike e encoraje outras pessoas a fazerem o mesmo.

* Matéria publicada originalmente na revista Bicycling 02, de novembro de 2015-dezembro de 2016