Como o Zwift inspirou a UCI a criar um Campeonato Mundial de “videogame”

De plataforma virtual de treinamento a competição séria: como o Zwift tem revolucionado o ciclismo

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Zwift: Pedalando sério sem sair de casa (Foto: Christopher Leaman)

A UCI divulgou recentemente que criará um Campeonato Mundial de eSports — ou esportes eletrônicos, ou simplesmente videogame. Isso por que plataformas digitais como o Zwift cresceram incrivelmente em popularidade entre os ciclistas, ganhando adeptos no mundo inteiro nos últimos anos.

A tecnologia tem ajudado os ciclistas a se manterem em forma e a driblarem o mau tempo – ou até evitar pegar estrada muito perigosa. Sabendo disso, a UCI está se preparando para o crescimento e a aceitação da “nova modalidade”, apesar de ainda não estar definido quando será realizado este campeonato mundial.

Já até rolou um Campeonato Mundial de Zwift, mas não sob a chancela do órgão máximo do ciclismo mundial. E neste ano o Zwift criou uma cópia virtual do curso do Campeonato Mundial de Ciclismo de Innsbruck.

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Na edição de setembro/outubro, a revista Bicycling publicou uma reportagem especial sobre o Zwift , que é uma das maiores revoluções da atualidade na forma como os ciclistas treinam. Ela é perfeita para você entender o fenômeno do Zwift, que em grande parte foi  o que inspirou a UCI a criar um Campeonato Mundial de videogame. Reproduzimos a seguir a matéria na íntegra.

EU AMO ZWIFT, ALGUM PROBLEMA?

Em uma das maiores revoluções na forma como a gente treina, posso viajar a uma estrada exótica, dar um sprint de 60 km/h ao lado de um pró e subir a piramba mais sinistra do planeta – sem sair da minha sala

Por Tom Vanderbilt

UM DIA, NÃO MUITO TEMPO atrás, entrei no Strava e notei um único comentário postado abaixo de uma pedalada minha recente: “Está um lindo dia lá fora. Por que você está no Zwift?!”.

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“Gosto de uma pedalada épica como qualquer ciclista, mas quando eu tenho tempo” (Foto: Christopher Leaman)

Senti uma pontada de vergonha. Realmente, o dia estava lindo. Em vez do céu azul e do delicioso ruído de borracha no asfalto, eu era banhado pela luz pálida do meu monitor LCD e pelo gemido do meu rolo Wahoo Kickr. Em vez de conversar animadamente com amigos ciclistas e dar tiros até alguma placa de trânsito, eu estava colhendo “ride ons” (versão Zwift de um “like”) e competindo por camisas virtuais.

Mas aqui está a verdade um tanto sinistra do porquê eu não estar pedalando lá fora: eu simplesmente não tinha vontade (Nota: Se você leu até aqui sem saber o que é o Zwift, talvez esteja mal informado. Ok, vamos te dar uma mãozinha: trata-se do mais revolucionário simulador online de ciclismo, que permite que você pedale com pessoas do mundo inteiro sem sair de casa).

É difícil confessar isso aqui para todo mundo, mas há momentos em que prefiro o Zwift. Tem horas que chego a desejar que um terrível vento nordeste sopre na cidade, para que eu consiga manter um mínimo de dignidade enquanto entro na minha caverna. Putz, que pena o tempo, hein? Que chuva! Vou ter que treinar no rolo.

Assim como muitos de vocês, eu costumava detestar treinar no rolo. Eu tinha muitas memórias de noites sombrias de inverno olhando para a parede ou para o tubo da minha bike, onde estava colado o roteiro do treino. É claro que as temporadas no rolo me ajudaram a aperfeiçoar a fluidez das pedaladas, mas a sensação sempre era de estar me arrastando por minas de sal (o chão da minha sala, incrustado de sal do meu suor, mais parecia uma mina).

Quando o Zwift chegou, em 2014, acertou em cheio no meu desejo antigo de jogar um videogame que me fizesse bem. Fui para a Jarvis Island logo no começo – versão beta original da Zwift Island, antes da Watopia – e imediatamente conquistei dezenas de KOMs (coroas de King of the Mountain) graças ao rolo descalibrado (ops!), pedalando até chegar ao nível 25 (onde, com todos os zwifters hardcore, estou estacionado, esperando pela próxima atualização). Pedalei tanto no Zwift que meu suor corroeu o movimento central da minha bike. Em vez de focar em números, eu perseguia rodas de adversários. Mergulhei nas provas do Zwift, que parecem de verdade, com largadas absurdamente rápidas, estratégias de última volta, verificando meu progresso (e alguns pódios) no website Zwift Power.

Não que a mudança para o Zwift seja suave e desprovida de sentimentos ambíguos. Há a sensação de se estar perdendo alguma coisa, que vem depois de cada sessão indoor, quando passo o olho pelas redes sociais e vejo todo mundo postando seus pedais ao ar livre. Às vezes, eu me sinto culpado por não estar pedalando “de verdade” e até medo de que esteja abandonando o ciclismo por não ir para a estrada.

Se imaginarmos uma pirâmide dos itens incríveis e épicos do ciclismo de estrada, sendo o ápice algo como subir o Mont Ventoux em meio a um vendaval, com a caramanhola vazia e sendo ultrapassado por um misterioso velhote francês em uma bike de aço com câmbio no tubo inferior, então lá na base, entre aulas de spinning barulhentas e rolês de bike compartilhada, estaria o Zwift. Para um purista, o Zwift seria, em uma analogia safada, comida industrializada versus comida orgânica; ver pornografia em um quarto escuro versus sexo transcendental em uma praia deserta.

Mas estou começando a me livrar desses sentimentos. Eu gosto de uma pedalada épica tanto quanto qualquer ciclista – quando tenho tempo. Mas viver no Brooklyn, em Nova York, significa que tenho basicamente duas opções de pedalada. A melhor é atravessar Manhattan, passando pela ponte George Washington, e seguir rio Hudson acima. Mas essa é uma pedalada de pelo menos quatro horas, sendo que duas delas são “quilômetros lixo”, para chegar e voltar da pedalada de verdade (opinião tipicamente preconceituosa de um ciclista – tem gente que nunca vai entender como pedalar por uma das cidades mais incríveis do mundo pode ser um lixo). Tirando isso, resta dar voltas no asfalto ondulado do oval Prospect Park, no Brooklyn ou cruzar a cidade para pedalar no ovalado Central Park. São pedaladas bonitas, mas que fiz tantas vezes que nem consigo apreciar mais cada detalhe. Nesse caso, por que não viver novas experiências no Zwift?

Ainda que não seja uma pedalada “de verdade”, é um esforço de verdade. Tive mais resultados sólidos no Zwift do que em qualquer treino no Prospect Park (exceto uma ou duas provas), sem as inúmeras ameaças que assombram qualquer ciclista: uma porta aberta ou um carro te cruzando, buracos na pista, pneus furados, desviar de pedestres de fone de ouvido hipnotizados pelo iPhone ou – a injustiça suprema – ser atingido por outra bike (enquanto escrevo, um amigo me mandou uma mensagem, contando que quebrou o braço por que um turista o derrubou na ponte Manhattan). Também tenho plena consciência da relação de exposição ao risco e lesão, então alguns quilômetros indoor fazem algum sentido. Isso sem mencionar as inconveniências que se acumulam antes de sair de casa: encontrar o casaco certo ou as meias que combinam, verificar a lista de itens para os bolsos da camisa.

O Zwift expande o tempo

O Zwift expande o tempo: você pedala quando quiser. As pedaladas perdidas para deveres de paternidade foram recuperadas! Eu até consegui receber as colegas da minha filha de 8 anos para brincar enquanto treinava no Zwift, para divertimento de todas diante daquele cara suado e esquisito, empurrando um avatar bem mais bonito morro acima. Na idade em que está, ela deseja imitar tudo que os pais fazem – até me fez prender sua bike aro 24 no rolo (no fim, ela estava mais interessada em criar seu avatar do que pedalar).

Mas o jogo virtual também abre novos horizontes. Montanhas! O percurso do mundial em Richmond, na Virgínia! Londres sem trânsito! Na primavera passada eu estava me preparando para um pedal nos Alpes italianos. A ideia de atacar aquelas subidas famosas com meu peso de inverno era aterradora, e os 4% de inclinação do Prospect Park não eram de muita ajuda. Mas daí veio a Watopia Mountain, que tinha longos trechos de “sofrência” em baixa velocidade e alguns pedaços íngremes pedalando em pé (meses depois, subindo o Passo dello Stelvio, notei que certas partes da subida eram parecidas com a Watopia). Na pedalada, eu me senti preparado mental e fisicamente – o que não teria sido possível sem o Zwift.

Eu nunca vou confundir o mundo do computador com a experiência de subir o Stelvio. Quando pedalo no Zwift, perco aqueles momentos maravilhosos de serendipidade, quando a megalópole Nova York, com seus 8,5 milhões de habitantes, se transforma em um pequeno mundo de ciclistas devotados e você cruza um amigo ou dá de cara com um atleta profissional visitante fazendo seu giro matinal. O Zwift não me traz as sensações mundanas que eu gosto no ciclismo: a Coca-Cola no posto de gasolina, a textura e acústica do cascalho, deslizar suavemente através dos congestionamentos mal-humorados de Nova York, as brincadeiras ao pôr do sol no ponto de encontro.

No começo deste ano, tive a oportunidade de pedalar com alguns funcionários da Zwift, de São Francisco até Santa Barbara. De vez em quando, saía uma piada sobre nerds do mundo virtual ao ar livre, mas minha impressão, enquanto rasgávamos as descidas e durante os ataques aos morros dos vinhedos, era que todos eles eram tão dedicados ao ciclismo quanto qualquer um (inclusive, eu sobrei em várias subidas). Em uma parada de descanso em San Luis Obispo, um ciclista viu a van Zwift laranja e se aproximou de nós. Ele explicou que era ex-funcionário da Apple e animadamente deu mil ideias para deixar o Zwift ainda mais interativo. Era uma imagem ricamente irônica: um bando de ciclistas sentados em um gramado verde sob o céu azul, conversando a respeito de como melhorar o ciclismo indoor.

As diferenças estão diminuindo. Os rolos já estão começando a replicar com mais fidelidade as condições do mundo real (por exemplo, o Kickr Climb, da Wahoo, sobe e desce a frente da bike para simular uma inclinação). Com a Zwift Academy, equipes profissionais estão colocando olheiros nos programas de treino virtual. O Zwift adquiriu sua própria cultura – tem seus próprios blogs, podcasts e terminologia interna (como “flyers”, que usam doping eletrônico e passam a velocidades impossíveis). Há até um vídeo no YouTube, “As Besteiras que Zwifters Dizem”. As pessoas se encontram com amigos do Zwift em grupos e clubes de pedal, e mandam kudos no Strava para os colegas.

O Zwift nunca substituirá o ciclismo “real” (pelo menos eu espero que isso não aconteça). Mas traz bastante do espírito e da mecânica e alguns bônus principais. Você encontra companheiros de pedal ou até provas, a quase qualquer hora do dia. Ocasionalmente, você pode treinar com profissionais. E você é poupado das piores mazelas do pedal ao ar livre, como maus motoristas, mau tempo e maus percursos. O jogo me ajudou a manter o preparo físico – os pedais ao ar livre, quando acontecem, são mais agradáveis. O Zwift parece mais do que simplesmente o melhor treino indoor, ele está se tornando um mundo de imersão e uma atividade em si, alcançando os últimos palmares da era digital. Você ainda vai me dar razão.