Como uma bicicleta velha e desconfortável mudou a vida dela

Riley Missel se tornou uma ciclista profissional. Mas tudo começou com uma bike velha e esquisita

bicicleta velha
Por Riley Missel
Fotos: Mitch Mandel

NO VERÃO EM QUE eu completei 15 anos, finalmente aquela bicicleta rosa e roxa cintilante, que eu usava para passear na minha cidadezinha em Lake Michigan (EUA), ficou pequena. Então meu pai foi até o barracão e desenterrou uma bike que escondera ali, fora da minha vista, até a hora da “herança”. Uma bicicleta velha.

Quando ele a trouxe para mim, achei-a velha e feia, com um quadro vermelho muito magrelo. O guidão drop tinha fita branca de tecido, que me pareceu bem esquisita. Meu pai segurou a bike do meu lado, inclinando-a e medindo a altura com os olhos. Abaixou o selim e girou o guidão para cima para que, só agora entendi, eu alcançasse o freio com mais facilidade. Subi e dei umas voltas em uma rua sem saída, parei, botei os pés no chão e olhei para o meu papai, franzindo os olhos contra o sol.

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Eu não gostei da bike. Não a queria para mim. Era estranha, enferrujada e desconfortável, toda inclinada para frente, superdura. Meu pai me disse para eu dar umas voltas que acabaria me acostumando. Explicou que as duas alavancas prateadas no quadro, entre meus joelhos, eram para trocar as marchas.

Não me lembro aonde queria ir naquele dia – para a praia, ensaio de música, treino de natação… só sei que não toquei naquelas alavancas (e continuei sem tocar por mais ou menos um ano). Sei que, no fim das contas, pedalei com essa bicicleta para todos esses lugares. Ela me levou para encontros com amigos, para a casa do meu namorado quando os pais dele não estavam, para onde eu quisesse ir.

Eu chegava a todos esses lugares toda suada, porque adorava ir o mais rápido que aquela bike conseguia.

Minha mãe pedalava aquela Nishiki ao lado do meu pai enquanto ele corria logo que saiu do Exército, fazendo um pace de 3:45. Ele a comprou nova, em 1988, quando a delicada fita branca, combinando com os protetores de manete, estava na moda, e o câmbio de seis velocidades da Shimano era de altíssima tecnologia. Minha mãe pedalava ao lado dele, feliz e contente, fazendo piada e tirando sarro do meu pai enquanto ele corria rápido demais para conseguir revidar.

Mesmo quando ficou grávida da minha irmã, ela continuou a pedalar – até que começou a sentir dor no quadril. Começou a mancar um pouco e também não conseguia comer muito de uma vez, então pedalar estava fora de cogitação. Ainda era verão, mas meu pai pendurou a bike para ela. Em outubro, minha mãe começou a ter dores nas costas, tão fortes que precisava repousar, deitada. Deu à luz minha irmã em novembro, e quatro semanas depois foi diagnosticada com um câncer com metástases do estômago até os ovários. Morreu em fevereiro. Aos 28 anos. Eu tinha 2.

Campeonato nacional de pista, em 2016

EU NUNCA CONHECI minha mãe de verdade. Não me lembro dela. As pessoas me contam muitas histórias, e a mais antiga é uma dela me levando para correr no carrinho, e a última é de quando eu tinha 2 anos, no quarto do hospital, puxando seus tubos e cateteres, gritando: “Eu não gosto deles!”.

Sempre procurei formas de conhecer minha mãe. Guardei pertences dela em uma gaveta, sua carteira de motorista e algumas fotos do casamento. Eu tinha algumas regatas que ela usou na faculdade e curtia como se fossem mágicas. Saboreava coisas tangíveis sobre ela, como sua flor favorita (gardênia) e o cookie predileto (chocolate não assado). Eu cheirava as flores e comia os cookies como ela.

Fisicamente, eu me pareço mais com o meu pai, mas observando suas fotos eu via o cabelo cacheado e escuro como o meu, olhos castanhos cálidos e o sorriso tortinho, mais largo para a direita. Minhas feições são mais as do meu pai – atlética e mediana, enquanto minha mãe era esguia, uma ginasta e dançarina. Mas meu pai conta que, quando ela pedalava, “suas pernas pareciam com as de um cavalo de corrida”. E ele ria e contava que “ela não gostava muito quando eu falava isso”.

A PRIMEIRA VEZ que pedalei rápido só por pedalar rápido – não para chegar a algum lugar –, eu estava só com o meu pai. Foi na Nishiki da mamãe. Escrevi meu primeiro status do Facebook sobre esse pedal, em 2009: “Pedalei 34 km com o papai hoje! Peguei vácuo quase o caminho inteiro :)”. Estava orgulhosa. Eu havia me apaixonado pela velocidade. Decidi que queria ser ciclista. Rapidamente comprei minha primeira bermuda de bike, uma Sugois marrom-chocolate, por US$ 35. Depois de algumas voltas, meu pai me ensinou a não usar calcinha por baixo da bermuda.

Começamos a pedalar juntos com frequência, e memorizei um roteiro para treinar sozinha e fazer a bike ir o mais rápido possível, mudando minhas marchas uma de cada vez. Um dia, cheguei a 39 km/h. Pouco depois disso, meu pai me levou para a primeira pedalada em grupo.

O ponto de encontro era uma loja de bike que ficava em um galpão baixo, com uma bicicleta italiana na vitrine e um gato preto passeando pelo estacionamento. Eu me senti deslocada com minha bicicleta velha de pintura descascando, bermuda marrom, tênis de cadarço enfiado para dentro e uma camiseta de algodão maior do que eu. Seguimos o grupo C, que deveria rodar a uma média de 25 km/h. Lembro-me de sentir pânico quando meu velocímetro marcou quase 30 km/h logo no começo – eu nunca havia mantido essa velocidade por tanto tempo. Lembro, também, que eu não gostava de pedalar tão perto de outros ciclistas, então acabei sobrando lá atrás e alcançando o grupo nos semáforos.

Até o fim do verão, consegui juntar coragem (e, pensava eu, preparo físico) para ir com o grupo B. Estava pedalando tão forte que me doíam as costelas, e não tomei nenhum gole de água, porque estava focada demais para tirar a mão do guidão. Os outros ciclistas do grupo usavam sapatilhas com taquinhos e me disseram que era o que eu precisava. Também falaram que, se eu fosse uma ciclista “séria” – e parecia que era –, deveria arrumar uma bike nova.

Eu não queria uma bike nova. Eu gostava da minha bicicleta velha.

Com a mãe em 1995

É CLARO QUE, UM DIA, arrumei uma bike nova. Escolhi uma Masi de alumínio azul-pastel que vi no catálogo da loja. Depois disso, comprei outras bicicletas e comecei a competir. No quarto ano da faculdade, eu havia competido mountain bike no Novo México, ciclocross em Boulder e estrada no campeonato nacional na Virgínia.

Nos campeonatos nacionais de velocidade em pista, eu sorria para meu pai do alto do pódio. Essa estratégia que usei para me aproximar da minha mãe se tornou meu jeito de me sentir eu mesma, de saber quem eu era e do que era capaz.

A bike vermelha está pendurada no barracão de novo. Ela me deu mais do que eu jamais poderia imaginar. E, quando estou treinando muito, minhas pernas parecem com as de um cavalo de corrida.