Melhor ciclista de ultraendurance do mundo é uma mulher

Por Blair Braverman, Bicycling US Fotos por Rue Kaladyte

A norte-americana Lael Wilcox é a melhor ciclista de ultradistâncias do mundo. Sua vida é recheada de pedais audaciosos.

Em 2016, a norte-americana Lael Wilcox venceu a TransAm, uma prova autossuficiente de vários dias e absurdos 6.760 km – superando tanto homens quanto mulheres. O feito sacramentou seu status de melhor ciclista do mundo em distâncias surrealmente longas.

Mas o que faz uma pessoa aparentemente calma chegar à beira da exaustão por milhares de quilômetros, lutando contra outros ciclistas para ver quem consegue dormir menos e pedalar mais?

Lael é viajante, professora e daquelas pessoas “do contra”. Entretanto não planejava virar ciclista. Por que fez isso, então? Passamos alguns dias com a moça, tentando entender o que move essa mulher que se tornou sinônimo de obstinação ciclística.

Mas por que ela faz isso? Seguem 14 indícios.

1 Peça às garotas do 7º ano da escola secundária Steller em Anchorage, no Alasca (EUA), para descrever Lael Wilcox. Elas dirão que essa professora de 32 anos se transforma quando vê uma bike. “Lael parece estar sempre um pouco cansada, mas não do tipo mal-humorada. Ah, só que aí quando ela anda de bicicleta sua energia sobe cem vezes”, contam.

“É um ser humano muito, muito lindo, e também é rápida e durona. E nunca amarra os sapatos. Parece uma criança solitária da 8ª série. Ela gosta de comer.” Será que as amigas de infância sabem que Lael agora é uma ciclista renomada? “Ouvimos falar. Nós vimos a bicicleta dela, muito rápida. Uma vez ela teve que alcançar umas crianças aqui em Anchorage e passou por nós voando, tipo zooooooooooom. E desapareceu.”

2 A vida de Lael está sempre em movimento. A ciclista começou nas provas de endurance em 2015, mas em dois anos ganhou a TransAm (de 6.760 km) e o Tour Divide (de 4.418 km), que vai do Canadá até a fronteira dos EUA com o México. Em 2016, ela coprojetou a Baja Divide, uma rota de 2.736 km pela Baja Califórnia e, um ano depois, cofundou o Girls Riding Into Tomorrow (GRIT), um curso de seis semanas para ensinar ciclismo às alunas do ensino fundamental.

Fui com Lael e as garotas do GRIT em uma expedição de três dias de bikepacking até a base do Glaciar Eklutna, perto de Anchorage. Eu queria ver Lael em seu habitat, mas o principal era responder uma questão maior: “Por que ela faz isso? Por que alguém com talento e possibilidade de ficar em um lugar quentinho, seco, confortável e financeiramente seguro escolhe fazer isso?”.

A melhor ciclista de ultradistância do mundo!

3 Observei Lael pedalando em subidas, sua jaqueta corta-vento laranja e azul estalando no ar por cima do corpo fluido. Não é sem esforço. Aliás, nada do que ela faz é sem esforço. Primeiro a moça esmaga os pedais, torcendo o tronco para ganhar força.

O corpo inteiro parece balançar para frente e para trás, como um brinquedo de corda. A cada impulso, microexpressões – sugestões de uma risada ou careta – passam por seu rosto. Lael ginga, aperta os olhos, suga o ar e solta, mordendo os lábios. Músculo após músculo, respiração após respiração. Sempre determinada.

4 Ser competitiva não foi o que motivou Lael a princípio. Durante mais de oito anos, ela viajou com o namorado, Nicholas Carman, a quem conheceu enquanto estudava literatura francesa na universidade. Nick deu a ela uma bike fixa (sem marcha) para que pudesse ir para o trabalho, em um percurso de 6,5 km.

Um dia, quando ela não tinha dinheiro para pagar a passagem de ônibus de US$ 3 para visitar a irmã em Seattle, pedalou os 72 km até lá. Quando chegou, teve a certeza de que conseguiria pedalar para qualquer lugar. E foi o que fez: ela e Nick seguiram pela costa leste e viajaram pelo mundo de bicicleta, cruzando a África, o Oriente Médio e a América do Norte.

Por um bom tempo, viveram assim, pedalando até o dinheiro acabar, depois trabalhando até que pudessem cair na estrada de novo. Foram anos felizes. O casal estava pedalando por Israel em 2015 quando, por um capricho, Lael se inscreveu no Holyland Bikepacking Challenge, uma prova de mountain bike de 1.460 km. No primeiro dia, ela chegou 40 km na frente dos concorrentes.

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Acabou não vencendo, mas a sensação se tornou viciante. Meses depois, ela ganhou o Tour Divide, de 4.418 km. Nick odiava competir. “Era uma luta fazer uma prova com ele”, lembra Lael. Em 2017, ela terminou com Nick depois de dez anos. “Agora posso fazer o que quiser.”

5 Quando você é Lael Wilcox, cada minuto representa um progresso ganho ou uma oportunidade perdida. A ideia de perder tempo a deixa agitada. Quando o GRIT sai de Anchorage, ela é infinitamente paciente enquanto pedalam, mas fica inquieta quando param para o lanche. Durante o intervalo, faz flexões e perambula entre os grupos. Lael faz muito mais esforço para conseguir ficar parada do que para se mover.

Naquela noite, enquanto os adultos se reuniam para jogar cartas, Lael ajudava cada uma das garotas. Ensinou a encher os colchonetes infláveis e aplaudia quando brincavam com sapos na lama. Às vezes desaparece por um tempo na floresta. Mas nunca a vejo descansar.

6 Lael evita as complexidades que, superficialmente, tornam a vida mais fácil. Por exemplo, ela nunca teve carro e dirigiu menos de dez vezes na vida. Dirigir não lhe interessa. Em sua vida adulta, ela geralmente esteve falida ou meio falida e sem grana para seguro. Possui menos dinheiro ou bens materiais do que o que a maioria consideraria o mínimo.

Como toque final, ao fazer as malas para a viagem com as meninas do GRIT, ela joga uma única colher de metal na bolsa de quadro da bike, então franze a testa para a colher: “Eu sei. É imensa”. Depois de pensar melhor, ela tira a bolsa toda de uma vez.

Essa é Lael, a melhor ciclista de sua geração.

7 Lael em pessoa não é a Lael online. Ao vivo, ela é mais reservada do que a Lael feliz e rápida nas respostas das mídias sociais. Na primavera de 2017, quando fraturou duas costelas em um pedal, um quiroprata a tratou de graça. O dinheiro sempre foi seu fator limitante, mas agora, com patrocínio da Specialized e da Revelate Designs, de equipamentos para bikepacking, ela está financeiramente mais estável.

Até ligou para a Specialized e pediu que doassem bicicletas para as garotas do GRIT – e eles deram. Em maio de 2017, quando cinco das bicicletas do grupo foram roubadas, o Anchorage Daily News publicou um artigo sobre o ocorrido. “Tanta gente ligou para ajudar!”, conta. Em um só dia, as pessoas doaram dinheiro suficiente para comprar bikes novas e expandir o GRIT para o ano seguinte, permitindo até que Lael e sua cofundadora tirassem um pequeno salário.

8 Quando não está viajando, Lael vende bikes em uma loja em Anchorage, aberta em 1964. “Ela é uma vendedora muito boa”, diz a colega Christina Grande. “Às vezes, mas pessoas perguntam: ‘Você pedala?’. Ela responde tipo: ‘Sim…’ Lael se mantém ocupada, não precisa ser cobrada. Está toda hora se movimentando.” Em momentos de folga, faz exercícios como flexões de braço na seção de sapatos.

Quando a loja fecha às 19h, ela toma uma cerveja com os outros funcionários. E sempre encontra tempo para pedalar. “Trabalhar em uma loja de bike no Alasca e conseguir motivação para pedalar antes ou depois do trabalho… nossa, é muito comprometimento com a bicicleta”, fala Christina. “Os longos dias de verão aqui duram muitas horas. É engraçado porque eu sempre tento dormir cedo, mas Lael aproveita cada minuto de luz.”

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9 Lael tem riso fácil e se diverte com detalhes que a maioria de nós nem repara. Ao longo de três dias, no acampamento do GRIT, conferi de perto algumas coisas que a fazem rir: quando as panquecas não grudam na panela antiaderente, quando um sapo pula na água lamacenta, uma cena de cabritos-monteses empoleirados em um penhasco muito acima de nós. Enquanto está ajustando uma bike para mim na garagem da casa dos pais, ela solta um: “Isto aqui é divertido demais!”.

10 A primeira e única vez que Lael concordou em dar uma entrevista formal para mim, sentamos lado a lado no ônibus escolar emprestado para o GRIT. “Então…”, começo, folheando minhas anotações: “Você cresceu em Anchorage…”. Não é uma pergunta, mas ela me interrompe. “Dizem isso sobre mim em todas as entrevistas”, responde. “Acho que você nem pesquisou minha vida.” Desperdicei um dos minutos da vida dela.

11 Lael tem sentimentos contraditórios: fica ao mesmo tempo atraída e indignada com a carência das pessoas. Conta que sempre está cuidando dos outros, é quase uma compulsão. “Se o cara está lá, você vai ajudar… ou eu vou.”

Quando pergunto como ela faz isso, a resposta é vaga, embora tenha visto o suficiente para ter uma ideia: em uma hora, ela está levando o sobrinho ao jardim de infância a caminho do trabalho ou ajustando a bicicleta do pai para que eu possa participar da viagem, momentos depois ela está garantindo que 18 garotas préadolescentes estejam alimentadas e seguras durante o maior desafio físico da vida delas. Por que ela sente tanta necessidade de cuidar dos outros?

Parece que nem ela entende. “Se as pessoas não conseguem cuidar de si…”, sua voz se apaga quando diz isso. “Bem, elas vão se cuidar se estiverem sozinhas. Terão que se cuidar.”

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12 “Competições não são diferentes do resto da vida”, diz Lael. “Exceto pelo fato de que, quando participo de uma prova, estou apenas cuidando de mim mesma.” Ela sobe na bike na largada e passa semanas vivendo de acordo com os ritmos e os impulsos do próprio
corpo. Cochila na beira da estrada usando todas as suas roupas para se proteger do frio, toma leite achocolatado e qualquer coisa que encontre em postos de gasolina.

Come na bike, enquanto está pedalando. Mal dorme. Cada minuto representa progresso. Nada mais existe. As competições são um mundo onde tudo é simples, e Lael volta a ser super-humana.

13 É difícil identificar o que Lael tira como lições das provas. Quando eu sugiro que a bike a ensinou a lidar com o sofrimento, ela me corrige. Claro que Lael fica exausta, mas o sofrimento é o desconforto que você não consegue controlar – e na bike ela está no controle. O desconforto não a incomoda. Se isso acontecesse, ela pararia. Pararia também se deixasse de vencer.

Depois de semanas de solidão, ela cruza a linha de chegada, que pode ser algo tão humilde quanto uma faixa de papel, dependendo da prova. Na verdade, nada acontece quando ela vence. É cansativo, e não há prêmio em dinheiro. Ela não entende por que outras pessoas competem se não são tão rápidas e não conseguem ganhar.

14 A temporada de provas voltará, trazendo mais quilômetros desgastantes, linhas de chegada solitárias, vitórias exaustivas. Mas até lá Lael sobe e desce os 500 metros até o glaciar Eklutna, o ápice do desafio físico das meninas da expedição GRIT. Ela estimula as garotas na base da montanha, voa lá para cima, comemora quando todas chegam ao topo, desce novamente. Não para até que todas tenham conseguido.

A melhor ciclista de todos os tempos é puro amor pelo pedal, pelo mundo e por pessoas.

Daí vão tomar sorvete em um trailer da estrada. Depois pedalam ao longo do lago Eklutna, até a cabana de Serenity Falls, cortam lenha com o machado velho encostado atrás da porta e comem macarrão em cumbucas de plástico. Logo ela vai filtrar água e talvez dar uma escapada para correr até a beira da geleira. E ainda sobra tempo para dormir um pouquinho.