Nunca fui de seguir dietas da moda – não sou nem mesmo capaz de entender as razões por trás de cada uma. Restringir completamente determinados alimentos ou ingredientes, como glúten, apenas me faz desejá-los mais. Esse tipo de privação parece funcionar apenas durante um curto período de tempo, até você acabar em um canto escondido enfiando um pacote todo de Oreo goela abaixo.

Qual é a dieta da moda que eu menos entendo? Parar de comer glúten sem nenhuma razão real – ou seja, sem ser alérgico, sensível (também chamado de intolerante) ou ter doença celíaca.

Vamos por partes: em primeiro lugar, o que é o glúten, afinal? Como explica a nutricionista norte-americana Abby Olson, o glúten é uma combinação de proteínas que vêm junto com o trigo e que permite que a massa cresça e tenha uma textura elástica. Além do pão, o glúten pode ser encontrado em alimentos como macarrão, biscoitos e até mesmo doces e carnes processadas.

Uma pessoa alérgica a glúten pode sofrer sintomas como coceira e inchaço no nariz e na garganta, irritação na pele e dificuldade para respirar, de acordo com o United European Gastroenterology Journal. “Quem tem sensibilidade ou intolerância ao glúten costuma sentir desconfortos gastrointestinais como gases ou inchaço abdominal, inflamação nas articulações, fadiga e mudanças de humor”, diz Abby.

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A doença celíaca é uma versão mais séria da intolerância, segundo a nutricionista. Tende a ser genética e é causada por uma reação autoimune, na qual o corpo ataca as proteínas do glúten, o que pode machucar o intestino delgado – um dos órgãos responsáveis pela absorção dos nutrientes. Quando seu organismo não decompõe nutrientes como o ferro ou a vitamina B12, você pode ficar sem energia ou potência muscular para realizar esforços mais intensos. Trata-se de uma doença rara, que afeta uma pessoa a cada 600 neste país, de acordo com a Associação de Celíacos do Brasil (Alcebra).

Exames de sangue, testes genéticos e endoscopias podem diagnosticar a doença celíaca, e exames de sangue ou testes cutâneo-alérgicos ajudam a identificar alergias. Se você suspeita ter intolerância ao glúten, isso costuma ser mais descoberto na base da tentativa e erro, segundo Abby – em outras palavras, acrescentando e removendo alimentos da dieta para ver quais aliviam os sintomas e quais os acentuam.

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Todas essas são razões legítimas para evitar o glúten – pão é ótimo, mas não ter a sensação de que as entranhas estão sendo dilaceradas (ou, no caso de doença celíaca, evitar outros problemas de longo prazo) é ainda melhor.

O que soa um pouco bizarro é quando pessoas que não têm nenhum problema com o glúten param de consumi-lo apenas para ficarem “mais saudáveis”. E há cada vez mais gente fazendo isso: em um estudo da Mayo Clinic Proceedings, nos Estados Unidos, a porcentagem de pessoas sem doença celíaca seguindo uma dieta sem glúten chegou a 1,7% de 2013-2014, mais que o triplo de 2009-2011.

Essa linha “saudável” de pensamento não faz muito sentido: glúten não é prejudicial para um corpo capaz de processá-lo, e alimentos que o contenham também não são necessariamente ruins para você – em especial no caso de atletas.

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Se você consumir glúten com regularidade na forma de grãos integrais, é menos provável que tenha sobrepeso e sofra de problemas crônicos causados pela obesidade, como diabetes e doenças de coração, de acordo com um estudo publicado na revista científica British Medical Journal. Grãos integrais podem até mesmo ajudar a diminuir o risco de desenvolver certos tipos de câncer, como o colorretal.

Além disso, um estudo publicado também no British Medical Journal descobriu que, a cada 90 gramas (três porções) de grãos integrais que comemos, nosso risco de morrer de doenças cardiovasculares diminui 22%, de câncer, 15%, e de derrame, 14%.

Grãos integrais também são uma fonte primária de combustível para os músculos quando você pedala e vai para a academia, por causa dos carboidratos. Se você não consumir carboidratos o suficiente, quebrará absurdamente mais cedo durante o pedal. Grãos integrais contêm outros nutrientes de que o corpo necessita, como fibras, vitaminas do complexo B, ferro, cobre, zinco e magnésio – todos necessários para melhorar a performance ciclística.

Produtos “glúten free”, por outro lado, quase sempre não possuem os nutrientes que os grãos integrais aportam. E, segundo Abby, podem ter adição de açúcar para melhorar o sabor. Com o tempo, consumir açúcar em excesso pode aumentar o risco de diabetes, pressão alta e doenças do coração.

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Então por que todo mundo está com medo do glúten? “As pessoas estão procurando formas de se sentir melhor, e isso anda de mãos dadas com a tendência low-carb”, explica Abby. “A ideia de reduzir os carboidratos para perder peso deu uma impulsionada na ideia de que você vai se sentir melhor se parar com o glúten. Tem havido muita desinformação e desentendimentos sobre isso.”

“Se você está tendo problemas gastrointestinais, não pense simplesmente no glúten como primeiro causador de seus problemas”, diz a nutricionista – há outras infinitas razões para o estômago reclamar. Por exemplo, alimentos fermentáveis, como certos produtos lácteos, frutas e vegetais, podem ser os verdadeiros culpados. Se você está tentando perder peso, continue fazendo exercício, preste atenção no tamanho das porções e acrescente mais probióticos e itens não processados na sua dieta.

E, se no fim das contas, o glúten for a causa de seus males, então, claro, elimine-o do cardápio. Caso contrário, pelo amor de Deus!, pare de seguir as dietas da moda e desfrute de tudo o que o glúten tem para oferecer, tipo um pãozinho quente com manteiga.