Pelo amor de Deus, pare de EVITAR glúten!

Por Danielle Zickl

Nunca fui de seguir dietas da moda – não sou nem mesmo capaz de entender as razões por trás de cada uma. Restringir completamente determinados alimentos ou ingredientes apenas me faz desejá-los mais, e esse tipo de privação parece funcionar apenas durante um curto período de tempo, até você acabar em um canto escondido enfiando um pacote todo de Oreo goela abaixo.

Qual é a dieta da moda que eu menos entendo? Parar de comer glúten sem nenhuma razão real – ou seja, sem ser alérgico, sensível (também chamado de intolerante) ou ter doença celíaca.

Vamos por partes: em primeiro lugar, o que é o glúten, afinal? Como explica a nutricionista norte-americana Abby Olson, o glúten é uma combinação de proteínas que vêm junto com o trigo e que permite que a massa cresça e tenha uma textura elástica. Além do pão, o glúten pode ser encontrado em alimentos como macarrão, biscoitos e até mesmo doces e carnes processadas.

Uma pessoa alérgica a glúten pode sofrer sintomas como coceira e inchaço no nariz e na garganta, irritação na pele e dificuldade para respirar, de acordo com o United European Gastroenterology Journal. “Quem tem sensibilidade ou intolerância ao glúten costuma sentir desconfortos gastrointestinais como gases ou inchaço abdominal, inflamação nas articulações, fadiga e mudanças de humor”, diz Abby.

A doença celíaca é uma versão mais séria da intolerância, segundo a nutricionista. Tende a ser genética e é causada por uma reação autoimune, na qual o corpo ataca as proteínas do glúten, o que pode machucar o intestino delgado – um dos órgãos responsáveis pela absorção dos nutrientes. Quando seu organismo não decompõe nutrientes como o ferro ou a vitamina B12, você pode ficar sem energia ou potência muscular para realizar esforços mais intensos. Trata-se de uma doença rara, que afeta uma pessoa a cada 600 neste país, de acordo com a Associação de Celíacos do Brasil (Alcebra).

Exames de sangue, testes genéticos e endoscopias podem diagnosticar a doença celíaca, e exames de sangue ou testes cutâneo-alérgicos ajudam a identificar alergias. Se você suspeita ter intolerância ao glúten, isso costuma ser mais descoberto na base da tentativa e erro, segundo Abby – em outras palavras, acrescentando e removendo alimentos da dieta para ver quais aliviam os sintomas e quais os acentuam.

Todas essas são razões legítimas para evitar o glúten – pão é ótimo, mas não ter a sensação de que as entranhas estão sendo dilaceradas (ou, no caso de doença celíaca, evitar outros problemas de longo prazo) é ainda melhor.

O que soa um pouco bizarro é quando pessoas que não têm nenhum problema com o glúten param de consumi-lo apenas para ficarem “mais saudáveis”. E há cada vez mais gente fazendo isso: em um estudo da Mayo Clinic Proceedings, nos Estados Unidos, a porcentagem de pessoas sem doença celíaca seguindo uma dieta sem glúten chegou a 1,7% de 2013-2014, mais que o triplo de 2009-2011.

Essa linha “saudável” de pensamento não faz muito sentido: glúten não é prejudicial para um corpo capaz de processá-lo, e alimentos que o contenham também não são necessariamente ruins para você – em especial no caso de atletas.

Se você consumir glúten com regularidade na forma de grãos integrais, é menos provável que tenha sobrepeso e sofra de problemas crônicos causados pela obesidade, como diabetes e doenças de coração, de acordo com um estudo publicado na revista científica British Medical Journal. Grãos integrais podem até mesmo ajudar a diminuir o risco de desenvolver certos tipos de câncer, como o colorretal.

Além disso, um estudo publicado também no British Medical Journal descobriu que, a cada 90 gramas (três porções) de grãos integrais que comemos, nosso risco de morrer de doenças cardiovasculares diminui 22%, de câncer, 15%, e de derrame, 14%.

Grãos integrais também são uma fonte primária de combustível para os músculos quando você pedala e vai para a academia, por causa dos carboidratos. Se você não consumir carboidratos o suficiente, quebrará absurdamente mais cedo durante o pedal. Grãos integrais contêm outros nutrientes de que o corpo necessita, como fibras, vitaminas do complexo B, ferro, cobre, zinco e magnésio – todos necessários para melhorar a performance ciclística.

Produtos “glúten free”, por outro lado, quase sempre não possuem os nutrientes que os grãos integrais aportam. E, segundo Abby, podem ter adição de açúcar para melhorar o sabor. Com o tempo, consumir açúcar em excesso pode aumentar o risco de diabetes, pressão alta e doenças do coração.

Então por que todo mundo está com medo do glúten? “As pessoas estão procurando formas de se sentir melhor, e isso anda de mãos dadas com a tendência low-carb”, explica Abby. “A ideia de reduzir os carboidratos para perder peso deu uma impulsionada na ideia de que você vai se sentir melhor se parar com o glúten. Tem havido muita desinformação e desentendimentos sobre isso.”

“Se você está tendo problemas gastrointestinais, não pense simplesmente no glúten como primeiro causador de seus problemas”, diz a nutricionista – há outras infinitas razões para o estômago reclamar. Por exemplo, alimentos fermentáveis, como certos produtos lácteos, frutas e vegetais, podem ser os verdadeiros culpados. Se você está tentando perder peso, continue fazendo exercício, preste atenção no tamanho das porções e acrescente mais probióticos e itens não processados na sua dieta.

E, se no fim das contas, o glúten for a causa de seus males, então, claro, elimine-o do cardápio. Caso contrário, pelo amor de Deus!, pare de seguir as dietas da moda e desfrute de tudo o que o glúten tem para oferecer, tipo um pãozinho quente com manteiga.