Seguro de bicicleta, vale a pena? Veja quais tipos há no mercado

Por Verônica Mambrini

O que há em comum entre o ciclista de estrada que comprou uma supermáquina para competir, o mountain biker que curte explorar trilhas sozinho no meio do mato e o urban commuter que trocou o carro pela bike e agora faz tudo pedalando, inclusive chegar em casa tarde da noite, sozinho, depois do happy hour? Além do puro prazer em pedalar, infelizmente existe também o medo de ficar sem a companheira de giro. É relativamente fácil perder a bike em roubos ou acidentes, mas bastante difícil recuperá-la, em especial em grandes centros urbanos. A boa notícia é que existe o seguro de bicicleta. E as seguradoras estão atentas ao cenário e vêm lançando produtos “mão na roda” para quem quer pedalar mais tranquilo – pelo menos com relação a danos materiais.

E o melhor é que as possibilidades de seguro são bastante democráticas. Existem opções para bikes que custam a partir de R$ 1.200 (com nota fiscal), anuidade de R$ 185 e franquia de R$ 800. De modo geral, o seguro é proporcional ao valor da bicicleta, mas cada seguradora oferece uma taxa. Uma bike de R$ 10.000, por exemplo, pode ter taxa de 8% em uma seguradora e de 12% em outra. Para o ciclista mais ocasional, existe também a opção de incluir a magrela em seguros residenciais, que cobrem apenas furtos ou assaltos em casa.

Tipo de cobertura

De modo geral, há três tipos de cobertura: roubos e furtos; danos acidentais (cobre os custos de reparo ou reposição de peças da bike em caso de acidente ou avaria durante o transporte, assim como em caso de acidente enquanto se pedala); e responsabilidade civil, quando a apólice cobre danos de terceiros, como despesas médicas de uma pessoa envolvida no acidente com o ciclista segurado.

“O seguro para bicicleta é algo relativamente novo no Brasil, com uma massa segurada ainda pequena. Em 2009, existiam três ou quatro corretoras com produtos voltados para quem pedala, mas nenhuma se arriscava a viver só de seguro de bicicleta, por ser um mercado pequeno”, conta Duilly Cicarini, CEO da Velo Seguro, corretora especializada em bicicletas, no mercado desde 2015. A empresa, a partir de dados de órgãos do setor, estima que são 50.000 bikes seguradas no Brasil. “Para efeito de comparação, uma grande corretora de seguros sozinha pode ter 50.000 carros na carteira de clientes”, compara.

Como cada apólice possui suas particularidades, e o ideal é procurar uma adequada ao seu perfil como ciclista, levando sempre em conta como a bicicleta é usada (se em provas, cicloviagens ou no dia a dia), seu valor e depreciação, além do uso de acessórios caros como Garmin ou potenciômetro.

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Na prática, todo seguro cobre contra roubos e furtos. Porém, para não cair em roubada, vale gastar uns minutos para entender o “juridiquês” envolvido. Antes de mais nada, é preciso saber diferenciar assalto, furto simples e furto qualificado – o segundo é o que os seguros cobrem. “Chamamos de furto qualificado quando a seguradora encontra evidências de que o ciclista tentou proteger a bicicleta contra um evento inesperado. Se faço uma pausa no pedal em um boteco para tomar um suco, deixo a bicicleta solta e o ladrão aproveitou os 30 segundos em que abandonei a bike para levá-la, trata-se de um furto simples, que o seguro não cobre”, explica Duilly. “Por outro lado, se arrombam sua casa e levam a bike, o próprio arrombamento é uma prova.” Ou seja, o furto simples é aquele em que não há provas de que a pessoa tentou proteger o bem.

No caso de a bicicleta ser tomada durante um pedal por ameaça ou meios violentos – roubo ou assalto –, geralmente o boletim de ocorrência registrado na delegacia mais próxima é sufi ciente para o ressarcimento previsto na apólice. É indispensável que o boletim de ocorrência seja feito contendo o contexto do roubo e descrição do assaltante, por exemplo. Há diversos casos em que a bike é levada de dentro do estacionamento do prédio ou condomínio por terceiros, porém estava sem nenhum tipo de tranca – nesses casos, a perda não é reembolsada.

Seguro de bicicleta para quem viaja

Para quem viaja sempre com a bike, há seguros que cobrem viagens no Brasil e até no exterior. “Um atleta amador encontra opções que oferecem cobertura em competições internacionais, por dez dias, para problemas relacionados a companhias aéreas, furto durante a viagem ou mesmo danos acidentais.” Podemos encontrar até produtos que cobrem acidentes com terceiros, de responsabilidade civil. Não é só contra danos materiais, mas corporais também. “Se você machuca alguém que não tem plano de saúde, pode acionar também para esse plano corporal”, diz Duilly. Algumas seguradoras oferecem cobertura a acessórios não integrados à bike, como suporte veicular (tipo rack Thule ou Equmax) e aparelhos de monitoramento de performance, como os da Garmin.

Outra dúvida frequente: é possível segurar uma bicicleta usada ou sem nota fiscal? Isso varia de uma seguradora para a outra, mas, mediante avaliação, algumas empresas podem aceitar. É preciso enviar fotos e uma estimativa de valor para a seguradora fazer um orçamento da apólice – e cabe aqui outro ponto de atenção no contrato. “Se a bike é um pouco mais antiga e for roubada, confi ra se a depreciação será levada em conta quando contratar o seguro. Por exemplo, imagine uma bike 2013 que vale R$ 6.000, em comparação a um modelo 2019 equivalente que vale R$ 20.000. No caso de um sinistro, se você pagou o seguro sem depreciação – ou seja, o seguro de R$ 20.000 –, a seguradora pode te pagar o valor referente a uma bike de 2013. Para evitar esse tipo de surpresa, prefira um seguro com moderação prévia.

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Os especialistas em avaliação da seguradora ajudam a chegar a um valor exato, que valerá no contrato”, recomenda Duilly.

Ainda que o seguro sirva para você pedalar tranquilo, ter a bike segurada não significa que comportamentos de risco estão liberados. Afinal, como a recuperação da bicicleta é difícil, o cálculo das seguradoras contabiliza o sinistro como perda do bem, o que, além de elevar o valor do seguro, também torna as políticas mais rígidas com relação aos cuidados que o segurado deve tomar. “Muita gente com seguro se sente mais blindada e acaba descuidando de alguns pontos, como não ter um bom cadeado ou deixar a bike estacionada em um local altamente visado”, diz Duilly. Como as apólices são extensas e detalhadas, e nem sempre com linguagem acessível, invista tempo conversando com a seguradora ou com o corretor para tirar dúvidas sobre comportamentos ou situações que possam te impedir de acionar o seguro.

Cuidados com a magrela

Além de previnir roubos e furtos, os cuidados abaixo são exigidos ou recomendados pela maioria das seguradoras

Nota fiscal e número de série

Responda rápido: qual o número de série da sua bicicleta? Esse dado, geralmente gravado no quadro, passa despercebido para a maior parte dos donos. Ao comprar uma bike, peça à loja para inserir essa informação na nota fiscal. Se a bike não tiver nota fiscal, tenha esse número registrado em casa, já que se trata de um excelente identificador, caso a bicicleta seja roubada ou furtada, para eventual recuperação junto à polícia.

Registre

Tenha fotos e registros da bike com você e que contenham detalhes como algum arranhão específico ou outro traço inconfundível que possa atestar que o equipamento é seu. Caso a bicicleta seja recuperada pela polícia, esses detalhes e provas são importantes para que ela volte às mãos do dono, principalmente no caso das mais antigas sem nota fiscal.

Um bom cadeado

Não existe cadeado 100% seguro, mas quanto melhor for sua tranca é mais provável sua bike não ser a primeira escolha de um ladrão de ocasião. Nunca confie em cabos de aço simples ou correntes com cadeado, que podem ser cortados com um alicate. É sempre preferível uma trava tipo “u-lock”. A diferença de segurança é tanta que, na Europa e nos Estados Unidos, algumas seguradoras só reembolsam a bike em caso de furto qualificado se você provar que usa um cadeado homologado. Boas marcas informam o grau de segurança oferecido pela tranca: opte, no mínimo, pelos níveis intermediários. Se quiser aumentar mais ainda a segurança, um cabo de aço fino auxiliar para prender as rodas torna mais difícil o furto.

Microchip

Existem no mercado rastreadores por GPS que podem ser presos à bicicleta. Em tese, facilitaria a recuperação em caso de furto. Há alguns “poréns”: eles ainda não são totalmente eficientes, a bateria pode acabar ou o ladrão da bicicleta pode encontrar o rastreador e retirá-lo. Além disso, nem sempre a polícia recupera a bicicleta, mesmo que ela seja localizada.

Atenção na rotina

Se sua rotina é bastante previsível, passando sempre pelos mesmos lugares e parando a bike no mesmo local e na mesma hora, evite descuidos bobos, como deixar a magrela sem tranca no bicicletário do trabalho ou durante aquela paradinha rápida no mercado. A pessoa que sempre guarda a bicicleta no mesmo lugar todo dia pode acabar “marcada” por alguém mal-intencionado. Mesmo em um ambiente que pareça seguro, como a garagem do trabalho ou o condomínio do prédio, use cadeado sempre.