Sobre ciclismo e dinheiro: como quebrar a hegemonia da Sky

Enquanto Geraint Thomas faturava uma bolada com a vitória no Tour de France, pipocaram apelos para que o domínio de sua equipe, a Sky, fosse contido

Geraint Thomas, Christopher Froome e o Team Sky brindam com champanhe durante o 21º e último estágio do Tour de France (Foto: EPA/MARCO BERTORELLO / POOL)

O britânico Geraint Thomas venceu o Tour de France 2018 e, consequentemente, embolsou a maior fatia que a competição destinou à premiação. Por ter sido o melhor neste Tour de France, Geraint levou 500 mil euros (o equivalente a mais de R$ 2 milhões) para casa — pois é, esta é uma matéria sobre ciclismo e dinheiro.

Claro que a quantia ganha por Thomas não é pouca. Mas também estamos falando de umas das mais consagradas e mais assistidas competições endurance do planeta, o Tour de France.

O ciclismo, em seu altíssimo nível, não está entre as modalidades mais lucrativas para um atleta. Basta ver que alguns jogadores de futebol ganham, em um mês, o que daria para patrocinar uma equipe de ciclismo durante toda a temporada. O mesmo seria comparar a bolada que Geraint Thomas levou pelo Tour de France com o que o tenista suíço Roger Federer embolsou por ter vencido o torneio de Wimbledon em 2017: 2,2 milhões de libras – o que equivale a mais de R$ 10 milhões. Sem contar que Federer trabalhou apenas 11 horas e 37 minutos para colocar a mão nessa grana, enquanto Thomas sofreu mais de quatro horas por dia sobre o selim durante três semanas.

Mas se Geraint Thomas foi saudado como o “Príncipe de Gales” pelos jornais franceses depois de vencer o primeiro Tour de France de sua carreira – e recebeu ligações de estrelas da música como Elton John e atletas de outras modalidades –, algumas publicações na França sugeriram às equipes um teto salarial. O motivo não poderia ser mais justo: equilibrar a competição.

Nas últimas sete edições do Tour de France, a Sky venceu seis. É um domínio absoluto na maior competição do ciclismo mundial. Algo precisa ser revisto.

Enquanto a inglesa Team Sky, de Thomas e Froome, lidera o ranking das equipes mais ricas do ciclismo , com um orçamento anual de mais de 30 milhões de libras, a holandesa Sunweb, de Tom Dumoulin, é a vice-líder com a metade desse budget.

Em 2014, o italiano Vincenzo Nibali, que foi obrigado a abandonar o Tour de 2018 depois de se acidentar e fraturar a vértebra, sugeriu um teto salarial depois que foi campeão, há quatro anos. Uma ideia que foi abraçada por veículos de comunicação como o diário francês Libération.

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Em 2012, a comissão de atletas da UCI concordou com a distribuição mais justa no ciclismo profissional, mas a conversa não foi para frente.

A ASO, por exemplo, a agência que organiza as competições ciclísticas mais importantes do mundo, como o Tour de France e a Vuelta a España, obviamente não estaria preparada para deixar de receber uma bolada de patrocinadores “simplesmente” para tentar manter as disputas mais igualitárias.

Sobre ciclismo e dinheiro

Hoje, atletas e dirigentes esportivos já sabem mais que ninguém que um “teto salarial” no ciclismo deixaria a competição mais excitante para o público, e isso é o mais importante a longo prazo. “Se a Sky não pudesse contar com os ciclistas mais fortes, Froome estaria mais isolado nas montanhas… E isso mudaria tudo”, exemplificou um dirigente francês anonimamente ao jornal inglês The Guardian. “O problema no ciclismo hoje não é mais o doping. É o dinheiro”, concluiu, consciente da realidade que pode estar estar deixando o ciclismo monótono.