Tudo sobre uma cicloviagem pelo interior de São Paulo e Sul de Minas Gerais

A ciclista líder do Pelotão das Minas, embaixadora Drop e Specialized Brasil, Renata Mesquita, e a atleta campeã brasileira de Duathlon 30/34 anos, Elizabeth Berton, aproveitaram o finalzinho de 2019 para fazerem uma cicloviagem de cincos dias, percorrendo quase 400 km pelo interior de São Paulo e Sul de Minas Gerais.

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A Renata Mesquita compartilhou detalhes da viagem, desde todos os equipamentos para o bikepacking, assim como o roteiro e momentos divertidos da viagem. Confira o relato:


 

“Aí sim, as moça tão reforçadas!” – Foi assim que o moço falou pra gente, quando estávamos saindo de São João da Boa Vista – SP, onde meus pais e a Beth moram, e de onde começamos nossa cicloviagem de 5 dias pelo interior de São Paulo e Sul de Minas Gerais.

 

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Fizemos uma rota mista (terra e asfalto), por isso a melhor opção era a Diverge, a bike de gravel da Specialized.

Eu estava com uma Diverge Sport 2019, pneus Sawtooth Sport 700×38, bolsa de selim com estabilizador (pela qual criei um caso de amor), bolsa de quadro e estabilizador de guidão, todos da Specialized.

A Beth estava com a Diverge Expert 2020 (com as maravilhosas Roval C38), pneus Pathfinder Pro 2Bliss Ready 700×38, bolsa de quadro Deuter e bolsa de selim Skin Roswheel Attack.

Nas bolsas muitas barrinhas Pdal Bars para lanchinhos em cima da bike, kit Pelotão das minas, uma roupinha civil para todos os dias, vestidinho para passar o revéillon (que no final foi dormindo), chinelo (a Beth doida levou tênis pra correr alguns dias), itens básicos de higiene, no meu caso sem abrir mão do condicionador para não ficar com cabelo de doida, cabos e carregadores, algumas ferramentas, só 2 câmaras e CO2, já que a Beth estava com pneus tubeless e as estradas que iríamos pegar são bem limpas.

DIA 1 – SÃO JOÃO DA BOA VISTA | SANTA RITA DE CALDAS

97 KM 1.300 M – 100% ASFALTO

No começo parecia só mais um treino cotidiano de quando estou na casa dos meus pais: subir a serra até Poços de Caldas, fazer paradinha no Âncora, comer o pão de queijo prensado maravilhoso, bater papo com a galera que também acabou de chegar do treino… A única diferença eram os 5,5 kg a mais na bike.

Depois de Poços a paisagem já começa a ficar mais “desconhecida”, e a vibe da cicloviagem de descobrir estradas bonitas chega devagarinho. A parte um pouco antes de Santa Rita é linda! No meio do caminho, olhando os grupos de pedal do Whatsapp, descobri que um amigo estava fazendo uma cicloviagem ali perto e viria no sentido contrário. Por isso passamos a entrada de Santa Rita e andamos alguns poucos quilômetros até encontrar a galera pra falar um “oi”, o que rendeu boas fotos num sofá abandonado na beira da estrada.

 

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Chegando em Santa Rita de Caldas lembrei que tinha quebrado uma das principais regras ao se viajar por cidades pequenas: nunca deixe passar o horário do almoço se quiser comida decente. Já eram umas 15h e a única coisa que achamos foi um lanche grande (do tamanho da minha mão aberta), ruim, salgado e engordurado, que deixou a gente com sede o resto do dia e tirou nossa vontade de jantar. Também tivemos dificuldade com cerveja, segundo o pessoal dos bares do centro, lá só tem Skol e Brahma (eca!).

DIA 2 – SANTA RITA DE CALDAS | INCONFIDENTES

85 KM 1.180 M – 44 KM DE TERRA

No começo foi tudo lindo! Um planinho antes de descer a serra de Ipuiúna, que no começo tem um mirante (pausa para fotos). São mais ou menos 10 km com uma inclinação não muito forte e alguns cotovelos estilo serra do Rio do Rastro. Que delícia! Quero voltar lá para subir, acho que essa serra foi a grande descoberta da viagem. Mandei o ‘foda-se’, fiquei curtindo a paisagem e nem peguei no celular para tirar fotos…

Terminando a serra pegamos um trecho de terra para chegar em Borda da Mata. Estradinha de chão batido ótima para gravel, sem muitas subidas pesadas. 11h30 em Borda da Mata, hora de almoçar! Achamos um quilo top com comidinha mineira e depois ainda rolou sorvete na praça.

Partiu último trecho, um pedaço do caminho da fé no sentido contrário. PQP! Lembrei de como essa bagaça é pesada, quem inventou esse tal de caminho da fé? Porra…

Eu já tinha feito ele em 2013 e lembro que até chorava de desespero, de tanta subida dura que tinha… Empurrei, xinguei, fiquei puta, e a Beth só rindo e filmando pra depois me zoar nos stories do Instagram (tem isso nos destaques do meu perfil). Ela é bem mais forte que eu e, mesmo a gente indo num ritmo leve pra mim a viagem inteira, esse trecho foi foda… Fora o calor que estava! Quase beijei o chão quando chegamos no asfalto, já perto de Inconfidentes.

DIA 3 – INCONFIDENTES | SERRA NEGRA

85 KM 1.2520 M – 100% ASFALTO

Dia de começar subindo a serra de Bueno Brandão, que no gráfico da altimetria do dia parecia a mais pesada, mas nem foi. Eu já tinha passado por lá numa cicloviagem com a Vivi, minha companheira de várias aventuras boas, e lembrava que era uma serrinha bem bonita e gostosa de subir. Foi ótimo, ainda eram 8h quando chegamos no pé dela e não estava muito quente. Só alegria!

Tínhamos saído cedo pra chegar logo em Serra Negra e conseguir curtir a cidade e a piscina do hostel, ainda bem. Mal sabia eu que esse seria o dia mais difícil por causa do calor. Saindo de Lindóia, já com mais de 70km, tinha uma subidinha de uns 3 km que pareceram 8. Começou a ficar MUITO quente, acho que era tipo meio dia. Eu sempre preferi pedalar no calor ao invés do frio, mas esse dia foi um dos mais quentes que passei em cima da bike. Nessa primeira subida a Beth já sumiu da minha vista, ela sobe muito bem (também, a pessoa mora nas montanhas né). Quando chegou a última serra antes de Serra Negra foi que ferrou tudo. E eram só 4km! Assustei agora, eu não tinha olhado isso até escrever esse texto e tô passada, jurava que era mais longa… que sofrimento! Eu lembro que em alguns trechos subia à 5km/h kkkkkk, não estava rolando. A inclinação nem era tão pesada assim, lembro que chegou em 10%, mas era muito calor. Encontrei a Beth na entrada da cidade, fomos direto para o hostel e cheguei meio mal.

Era dia 31/12 e os namorados iriam encontrar com a gente pra passarmos a virada juntos. Não que a gente adora uma farra, mas eu achava que pelo menos iríamos para a praça ver os fogos. Que nada! Me deu enxaqueca à noite, provavelmente por causa do sol, e antes das 23h estava na cama. O Jojo achou ótimo porque ele nem gosta muito de muvuca rsrs. A Beth até tentou dar um rolê no centro com o namorado. Voltou rapidão, estava caindo de sono! Gente, esquece querer fazer farra e dormir tarde com volume e altimetria um pouco mais pesados nesses tipos de viagem. A curtição fica por conta das estradas, paisagens, perrengues e histórias para contar. Não é a primeira vez que viro o ano dentro de alguma pousada feliz da vida por estar deitada e descansando.

Serra Negra é bem bonitinha, ainda bem que no almoço fomos dar uma volta no centro. Vale uma próxima visita.

DIA 4 – SERRA NEGRA | ITAPIRA

57 km 715 m – 100% asfalto

É sempre inteligente colocar um trajeto bem light no dia 1º porque normalmente você vai dormir tarde e toma umas ‘brejas’ no reveillón, mas nem foi bem assim…

Saímos mais ou menos sem horário mas não muito tarde com receio de chuvas fortes no final do dia. Nossa amiga ciclista Marília, que morava em Águas da Prata, sempre convidou a gente para conhecer a casa nova em Itapira, então resolvemos traçar nossa rota passando por lá. Ainda estava com medo do calor.

 

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Foi um dia bem ‘sussa’, daqueles para pedalar meditando e pensando na vida. Apesar dos vários avisos do trecho perigoso por conta da falta de acostamento, achei a estrada depois de Amparo bonita e tranquila. Eu sei que às vezes os riscos aumentam quando não se tem acostamento, mas a gente passa tanto perrengue para pedalar nas rodovias em São Paulo que não me entra na cabeça ficar com qualquer tipo de receio nessas estradas do interior. E não vem falar que o perigo aumenta quando passam caminhões! O que sempre vi acontecer nesses meus poucos anos de estrada, pelo menos nessas regiões, é que os caminhoneiros são os que MAIS respeitam ciclistas. Enfim, achei o trecho do dia seguinte até São João, que é quase todo em rodovia grande com acostamento, bem mais perigoso (apesar de ainda não achar perigoso) por causa das saídas e da velocidade alta dos carros.

Estava com saudades da encrenqueira da Marília e das histórias de brigas no Strava rsrs. Ela nos recebeu super bem e fez uma janta delícia!

DIA 5 – ITAPIRA | SÃO JOÃO DA BOA VISTA

90 KM 1.220 M – 100% ASFALTO

Último dia, a maior parte do caminho eu já conhecia e, como citei acima, só rodovia grande, sem estradinhas bonitinhas. Foi a volta para casa com um dia nublado (ainda bem).

A Marília nos acompanhou um pedacinho, foi bem legal as três juntas de novo na estada. Já ri muito com elas quando fazíamos uns treininhos em São João. O problema é que eu estava quebrada! Affe, acho que o cansaço de 4 dias pedalando acumulou e fui me arrastando o caminho inteiro. Sabe quando dá aquela vontade de chegar logo? Mas ao mesmo tempo eu estava triste porque a viagem chegava ao fim.

Só fizemos uma parada para um pão de queijo. Cheguei. Feliz.

 

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A Beth foi uma companhia ótima nesses dias, e paciente também rsrs. Ela compete, é disciplinada e treina direitinho, óbvio que me esperou pra caramba. Nunca reclamou, só quando eu enrolava um pouco pra sair. Obrigada! Já coloquei como principal meta para 2020 ser mais agilizada. Quem me ensina?

Cicloviajar é uma das coisas que mais gosto de fazer na vida. A simplicidade de colocar tudo o que você vai usar na bicicleta e percorrer centenas de quilômetros por vários dias não tem preço. Ah, tem sim! R$ 556,00. Foi tudo o que gastei nesses 5 dias incluindo estadia, rango e cerveja.

Bons pedais!