Vem aí o Setembro Preto da Mobilidade

Para celebrar o trabalho de todos acontece o Setembro Preto da Mobilidade, em setembro em Salvador

Setembro Preto
Projetos como o Preta Vem de BIke estão unindo ciclistas negros de todo o Brasil (Foto: Reprodução Instagram)

Como  a bicicleta pode curar toda uma sociedade marcada por um tipo de racismo velado e muito perverso, tipicamente brasileiro? Leia:

Por Erika Sallum

Vem aí o Setembro Preto da Mobilidade: Você pedala? Curte passear pelas ciclovias como a da Avenida Paulista, na capital? Ou é do tipo focado que treina de madrugada? Pouco importa se você pedala na cidade, estrada ou trilha, mas certamente já percebeu o óbvio: como um país negro e pardo como o Brasil pode ter tão poucos ciclistas negros?

Se a bike é um instrumento democrático por excelência (em comparação a um carro, por exemplo), como é possível que os negros sejam uma das mais evidentes minorias ciclísticas a nos jogar na cara a desigualdade social brasileira?

Nos últimos anos, entretanto, estamos vendo surgir uma emocionante onda de movimentos negros que chegam em cima de suas bikes mostrando que estão dispostos a transformar a sociedade onde vivem.

Enquanto movem os pedais de suas bicicletas, passam por cima de preconceitos, deixam para trás papéis que lhes impuseram durante séculos e vão criando pelotões de tons diversos, porém com mensagem semelhante: todos estão aqui para fazer o que for preciso para serem quem desejam — e, se alguém de fora por acaso não gostar dos novos ventos, que fique para trás.

Setembro Preto
Lívia Suarez, cicloativista e co-criadora de coletivos como o La Frida (Foto: Reprodução Instagram)

São projetos e coletivos como o La Frida Bike e o Preta Vem de Bike (Instagram @casalafridasalvador e @pretavemdebikesp), de São Paulo e da Bahia; o Pedala Queimados (@pedalaqueimados), do Rio de Janeiro; e o Giro Preto (@giropreto), de São Paulo. Cada um a sua maneira, eles têm promovido debates e ações importantíssimas sobre igualdade racial e de gênero, tendo sempre como base a força da bicicleta como motor de transformação — motor este movido pelas próprias pernas de quem enfrenta diariamente situações de racismo.

Para celebrar o trabalho de todos e, principalmente, trocar experiências, acontece o Setembro Preto da Mobilidade, de 2 a 13 de setembro, em Salvador.

“Em geral, as atividades de mobilidade não discutem nossas pautas raciais – até porque só tem gente branca nesses meios”, diz Lívia Suarez, 32, do La Frida Bike, uma das organizadoras do evento. “Então começamos a formatar um tipo de fórum que pudesse debater as questões raciais, sociais e também de gênero.” A partir de um edital, cresceu a ideia de fazer uma semana de intercâmbio entre cidades brasileiras.

O La Frida Bike tem uma casa em Salvador que virou um espaço feminista e de promoção da autonomia e da autoestima de mulheres negras. Entre seus projetos, estão o Preta Vem de Bike, que entre outras coisas dá cursos de mecânica para garotas e hoje se expandiu para lugares como São Paulo, e o BiciPr3ta (@bicipr3ta), que vende bikes e produtos ligados a esse universo.

A galera do Giro Preto, que promove pedais exclusivos para pessoas negras em SP (Foto: Erika Sallum)

Em São Paulo, o Giro Preto promove todas as segundas-feiras um pedal para negros, que começa sempre no Largo da Batata e cujo mote é: “Toda bike é bem-vinda, e todos os ritmos são respeitados, é só encostar”. Já o Pedala Queimados trabalha com bikes de bambu e outros temas, tendo como objetivo criar cidades mais humanas, dentro do contexto do movimento negro ciclístico.

Pela primeira vez, esses grupos se reúnem em um evento, no qual não haverá apenas debates. Cada grupo vai compartilhar suas expertises, e assim o encontro terá curso profissionalizante de mecânica, oficina de bicicleta de bambu, discussões sobre autoconhecimento e autocuidado com enfoque na bicicleta, além de pedaladas e shows.

O Pedala Queimados trabalha com bikes de bambu e transformação social (Foto: Reprodução Instagram)

“A bicicleta é sem limites. Vai muito além da questão da mobilidade, envolvendo processos de sonhos, processos de cura, de saúde, esporte, de autonomia e autoestima (que andam, aliás, bastante juntas)”, diz Lívia, que começou a pedalar seis anos atrás para superar um momento difícil. Assim a bicicleta passou a despertar a esperança de cura que a levaria, algum tempo depois, a voltar sua atenção para o cicloativismo.

>> A história da bicicleta — no futebol 

Lívia curou-se e agora pedala para curar outras mulheres negras como ela — e, de quebra, curar toda uma sociedade marcada por um tipo de racismo velado e muito perverso, tipicamente brasileiro.

* Quem quiser participar e saber mais informações sobre o Setembro Preto da Mobilidade, escreva para oficinalafridasalvador@gmail.com.